Marcha do Orgulho Antifascista e Antirracista contra o governo Milei: “Nenhuma vida é descartável”
Milhares de pessoas em diferentes partes da Argentina participaram da segunda Marcha do Orgulho Antifascista e Antirracista para protestar contra a precarização da vida e a reforma trabalhista que será debatida esta semana no Congresso
Nenhuma vida é descartável. Essa foi a mensagem que milhares de pessoas de diversos setores levaram ao governo de Javier Milei durante a segunda Marcha do Orgulho Antifascista e Antirracista LGBTIQNB+ na Argentina. Foi a primeira mobilização de massa de 2026 e reuniu inúmeras reivindicações, em um contexto marcado por ações contra a reforma trabalhista que será debatida esta semana.
Mais uma vez, o transfeminismo conseguiu se unificar e articular suas demandas sob um único lema: “Aqui ninguém é descartável”. Em Buenos Aires, a marcha, que se estendeu por cinco quadras, partiu do Congresso Nacional até a Plaza de Mayo. O grito ecoou em pelo menos outras 26 localidades do país. Os setores mais vulneráveis da sociedade ergueram suas vozes: coletivos LGBTQ+, aposentados, pessoas com deficiência, migrantes e trabalhadores informais.
“Essa marcha é importante para evidenciar a precarização, a fome e a escalada da violência institucional contra trabalhadoras sexuais, migrantes, pessoas em situação de rua e indivíduos LGBTQ+. Esperamos que ela desperte uma consciência social nos grupos que resistem à margem de uma sociedade exausta”, afirmou Georgina Orellano, secretária-geral da União de Trabalhadoras Sexuais da Argentina (AMMAR), ao Tiempo /Presentes.
Esta é a segunda edição de uma mobilização que começou no ano passado, depois que Javier Milei discursou no Fórum Econômico de Davos em 23 de janeiro de 2025 e atacou o feminismo e a diversidade sexual. Seu discurso, repleto de desinformação e mentiras — ele comparou a homossexualidade à pedofilia — desencadeou uma mobilização histórica, auto-organizada, em Buenos Aires, no restante do país e em várias partes do mundo.
“Da Frente Nacional Orgulho e Luta, junto com a assembleia antifascista e antirracista, estamos promovendo esta Segunda Marcha Federal. Em todo o país, estamos nos mobilizando para condenar essa política que promove o ódio e a marginalização de grande parte da sociedade argentina, tentando dividi-la entre vidas que valem a pena ser vividas e vidas descartáveis. Aqui estamos dizendo que onde há fascismo, há orgulho, há resistência e há luta”, afirmou Martín Canevaro, ativista da 100% Diversidade e Direitos. A Orgulho e Luta — que reúne várias organizações dissidentes, incluindo a 100% Diversidade e Direitos e a Comunidade Homossexual Argentina (CHA) — também contou com seu próprio carro de som.
Uma enorme bandeira trans, com vários metros de comprimento e largura, foi estendida na Avenida de Mayo. Sob o sol escaldante, mulheres trans e travestis mais velhas seguravam suas pontas. “Estamos aqui por tudo o que já passamos. Ainda estão matando as meninas e nos discriminando. Há mulheres trans mais velhas que não têm aposentadoria e precisam continuar trabalhando nas ruas”, disseram Mychel Aguilera, Teté Vega e Carolina Figueredo a esta publicação.
A mensagem está nas ruas
A ministra das Mulheres e Diversidade da Província de Buenos Aires, Estela Díaz, participou da segunda Marcha Antifascista. “Não podemos continuar normalizando a violência, a discriminação e o ódio como parte da atividade política. A extrema direita tem uma retórica absolutamente totalitária que não respeita nem inclui a diversidade”, declarou Díaz.
A marcha contou com um contingente sindical, e alguns sindicatos e forças políticas também se mobilizaram.
Por sua vez, a legisladora da Cidade de Buenos Aires Vanina Biasi enfatizou: “Hoje voltamos às ruas porque o fascismo está avançando neste país, buscando aprovar a reforma trabalhista que prepararam para votação no Senado na próxima quarta-feira. Precisamos nos unir contra o fascismo”.
Victoria Freire, também legisladora em Buenos Aires, destacou a importância de estar nas ruas: “Em um contexto de tentativas de reforma trabalhista e previdenciária, de crescente precarização da vida para todos, é muito importante que diferentes setores se unam nas ruas, que o Orgulho esteja nas ruas”.
O bloco sindical também convocou para a mobilização de 7 de fevereiro. Pelo Sindicato de Imprensa de Buenos Aires, Micaela Polak, secretária de gênero, afirmou: “A reforma trabalhista que o governo quer impor atinge apenas os direitos dos trabalhadores, particularmente os trabalhadores da imprensa, que têm sido duramente afetados pela precarização”.
Todas as lutas
“Não vai passar, não vai passar, essa reforma trabalhista!”, entoava a linha de frente da marcha enquanto avançava pela Avenida de Mayo. A situação econômica e trabalhista foi um tema recorrente nos cartazes, palavras de ordem e depoimentos de quem participou da mobilização.
“As dissidências sexuais, longe da imagem social construída pelo liberalismo e pela direita, não são indiferentes às demandas da imensa maioria. Pelo contrário, estamos alimentando a classe trabalhadora e especialmente aqueles setores da população mais marginalizados e prejudicados pelas políticas deste governo”, afirmou Quimey Ramos, professor e ativista trans.
Liliana Ponce é aposentada e recebe a aposentadoria mínima e, como neste sábado, marcha toda quarta-feira em frente ao Congresso. “Hoje estamos resistindo não apenas à ofensiva fascista, mas também à ofensiva econômica, à reforma trabalhista. Dizemos: basta de pobreza, queremos um aumento emergencial e não à reforma trabalhista”, declarou da linha de frente da marcha.
“Neste segundo ano, embora o governo tenha moderado um pouco sua retórica contra a diversidade sexual, não fez o mesmo com suas políticas, que na verdade se intensificaram”, afirmou Ese Montenegro, ativista transmasculino e integrante da Coluna Mostri. Nesse sentido, o governo nacional emitiu o Decreto 62/2025, que modificou a Lei de Identidade de Gênero. Isso eliminou a possibilidade de adolescentes trans realizarem tratamento hormonal. Esse ataque contra a juventude é complementado por sua retórica contra a educação sexual integral e sua tentativa obsessiva de reduzir a idade de imputabilidade penal.
Após vetar a Lei de Emergência em Deficiência, o governo nacional foi obrigado a regulamentá-la devido à pressão social. “É incrivelmente difícil para nós sair e colocar nossos corpos na linha de frente. A cooperação do povo é essencial para que isso finalmente acabe”, afirmou Remigia Cáceres, secretária nacional de Deficiência da CTA-Trabalhadores.
Coletivos de migrantes que participaram da marcha denunciaram a perseguição e criminalização que vêm sofrendo desde o Decreto 366/25, que modificou a Lei de Migração. Outros grupos também alertaram sobre a tentativa de alterar a Lei de Glaciares e sobre a má gestão dos incêndios florestais na Patagônia. “Temos motivos de sobra para denunciar e evidenciar a completa desproteção que estamos vivendo”, afirmou Irma Caupan, ativista mapuche.
A ocupação das ruas marcou o início de 2026 com uma certeza: “Contra o fascismo, luta e solidariedade.”
