Como a educação e a regulação das redes sociais podem combater o negacionismo científico
É irônico que, à medida que as evidências científicas sobre as mudanças climáticas e as vacinas se tornaram mais convincentes, a opinião pública nas redes sociais pareça mais dividida
Cinco bilhões de pessoas usam redes sociais globalmente, e milhões de publicações são compartilhadas na Meta Platforms (Facebook) a cada minuto.
Embora a vida virtual possa ser divertida e informativa, ela também pode ser prejudicial. A desinformação sobre ciência climática é abundante. O mesmo ocorre com teorias da conspiração e desinformação sobre a ciência das vacinas, como testemunhamos durante a pandemia de COVID-19.
Essa desinformação não apenas mina a confiança na ciência, como ameaça ativamente a saúde pública: a World Health Organization incluiu a hesitação vacinal, juntamente com a poluição do ar e os impactos do clima na saúde, entre as dez principais ameaças globais à saúde do nosso tempo.
As evidências mostram que as vacinas salvam vidas e que as mudanças climáticas estão fortemente ligadas ao aumento da temperatura das águas, à elevação do nível do mar, ao encolhimento das calotas polares, à perda de biodiversidade e a eventos climáticos mais extremos. 2023 foi o ano mais quente já registrado. As emissões de gases de efeito estufa atingiram níveis recordes. A Terra está emitindo seu sinal de alerta.
Mas, ironicamente, à medida que as evidências científicas se tornaram mais convincentes, a opinião pública parece estar mais dividida.
Essa hesitação e esse negacionismo parecem se basear em um equívoco sobre como a ciência funciona.
As vacinas salvam milhões de vidas todos os anos e, com o aprimoramento da tecnologia, o entendimento aceito sobre as mudanças climáticas evoluiu, com dados inequívocos mostrando que o aumento do CO₂ e das temperaturas está ligado à queima de combustíveis fósseis.
Isso é a ciência em ação.
Mas opositores nas redes sociais e em outros meios afirmam que as evidências científicas sobre ambos os temas são inconclusivas e conflitantes. Pontos de vista contrários costumam ser apoiados por alguns cientistas vocais, de jaleco branco, que espalham desinformação, incerteza e dúvida.
A indústria de combustíveis fósseis também desempenha um papel no enfraquecimento da ciência, ao enfatizar essa chamada “dissidência” dentro da comunidade científica.
Essa tática não é nova: há décadas, o setor cria organizações e empresas de fachada para financiar o negacionismo climático e confundir a compreensão pública sobre a ciência do clima.
Mais recentemente, a indústria de combustíveis fósseis e outros grandes poluidores têm usado as redes sociais para alcançar novos públicos. Uma análise constatou que 16 dos maiores poluidores do mundo foram responsáveis por mais de 1.700 anúncios falsos e enganosos no Facebook em 2021.
Sempre haverá alguns cientistas que desafiam o entendimento predominante. No entanto, mais de 97% dos cientistas profissionais da área médica e climática, após revisarem as evidências existentes, concordam que as vacinas são seguras e que a atividade humana está aumentando o CO₂ e aquecendo a superfície da Terra.
A principal mensagem que o público precisa ouvir é: o que importa é o conjunto predominante de evidências, não a opinião de uma única pessoa.
Fatos são considerados verdadeiros porque se baseiam no peso das evidências, enquanto opiniões podem ser verdadeiras ou não.
É fácil perceber como as redes sociais — que dão visibilidade a opiniões e inverdades e eliminam os tradicionais “guardiões” do conhecimento, como editores de notícias — podem criar a impressão de que a ciência sobre mudanças climáticas e vacinas é instável ou “controversa”.
Isso é ainda mais problemático porque 80% das plataformas de redes sociais não possuem uma política de moderação de conteúdo que inclua uma definição abrangente e universal de desinformação climática, segundo relatório de setembro de 2023 da Climate Action Against Disinformation Coalition.
A inteligência artificial (IA) pode ainda reforçar opiniões contrárias de alta qualidade técnica de novas maneiras para enganar e lançar dúvidas.
Algoritmos de IA podem fazer com que alguém que clique em uma publicação antivacina passe a receber um fluxo constante de conteúdo antivacina e anticiência. Da mesma forma, a IA pode ser usada para direcionar desinformação a públicos vulneráveis. E programas treinados para escrever textos com grandes bases de dados automatizaram a geração de notícias falsas com maior potencial persuasivo.
A mudança começa com a educação
Reduzir a distância entre quem aceita o consenso científico e quem o nega exige educação.
Aprender sobre o método científico é importante, mas — em uma era de teorias da conspiração, desinformação e “fatos alternativos” — também são essenciais a alfabetização crítica e a reflexão filosófica.
Ampliar os currículos escolares para ajudar estudantes a navegar por ideias complexas e realidades digitais virtuais, e a compreender seu mundo cada vez mais complexo, pode ajudar.
Como crianças interagem com redes sociais desde cedo, faz sentido que o sistema educacional as ajude a desenvolver habilidades para avaliar verdades e falsidades ao se depararem com novas informações.
A educação, da pré-escola ao ensino médio, poderia incluir exercícios adequados à idade sobre conspirações frequentemente discutidas nas redes sociais — desde táticas de pânico antivacina até negacionismo climático, teoria da Terra plana, alegações de que o pouso na Lua foi uma farsa ou que a Terra tem 6.000 anos.
Se iniciada cedo o suficiente, essa educação pode acompanhar o desenvolvimento infantil e a transição do pensamento concreto para o abstrato, processo que começa por volta dos seis anos.
Uma “Organização Mundial das Redes Sociais” poderia ser uma solução
As plataformas de redes sociais foram, essencialmente, autorizadas a se autorregular por décadas. Isso é um problema, pois podem lucrar com empresas que pagam para promover “fake news” e outras formas de desinformação anticiência.
Houve algumas tentativas de regulamentar essas plataformas nos últimos anos, com diferentes graus de sucesso.
Em meados de 2023, o governo australiano propôs legislação para ampliar os poderes da Autoridade Australiana de Comunicações e Mídia e pressionar empresas de tecnologia a combater a desinformação online. Mas o projeto de lei não foi aprovado, e a Austrália ainda está nos estágios iniciais de resposta às fake news e à desinformação.
As plataformas individuais têm seus próprios mecanismos para reduzir a desinformação.
Por exemplo, o X (antigo Twitter) introduziu a função “notas da comunidade”, na qual, abaixo de publicações com desinformação, é possível ver “leitores adicionaram contexto” com fatos corrigidos.
Mas o X foi apontado como o pior infrator em termos de disseminação de desinformação climática, segundo o relatório de 2023 da Climate Action Against Disinformation Coalition. Meta Platforms, TikTok e YouTube, apesar de compromissos para enfrentar a desinformação climática em suas plataformas, têm falhado na aplicação efetiva de suas políticas.
Em vez de depender de governos para aprovar leis isoladamente — ou esperar que as próprias plataformas se autorregulem de forma eficaz — algum tipo de regulação internacional é urgentemente necessário para conter a enxurrada constante de desinformação e danos que permeiam o mundo online.
O Project Liberty, criado em 2021, mobilizou uma aliança global de tecnólogos, acadêmicos, formuladores de políticas e cidadãos para construir uma internet e redes sociais mais seguras e saudáveis. A organização apoia iniciativas de sinalização de desinformação, intervenções para reduzir deepfakes e educação sobre notícias online.
A European Commission também enfrentou a desinformação online com um grupo de especialistas de alto nível que apresentou recomendações importantes, incluindo o desenvolvimento de ferramentas educacionais para usuários das plataformas.
Em 2018, um Comitê Internacional contra a Desinformação, composto por Reino Unido, Argentina, Bélgica, Brasil, Canadá, França, Irlanda, Letônia e Singapura, reuniu-se pela primeira vez. Desde então, realizou encontros em Ottawa e Dublin, além de coorganizar uma série de seminários nos Estados Unidos.
Essas iniciativas são um começo. Mostram que a colaboração transfronteiriça para enfrentar o problema global da desinformação na internet é possível.
Mas, dada a magnitude do problema — especialmente com as crescentes preocupações em torno da IA — a comunidade internacional precisa ir além.
Empresas de redes sociais não deveriam ser diferentes de grandes empresas farmacêuticas globais, que são rigidamente regulamentadas, por exemplo, pela FDA e pela TGA, para produzir medicamentos que não causem danos aos seres humanos.
Uma solução poderia ser a criação de uma Organização Mundial das Redes Sociais, composta por representantes de cada país, para supervisionar conteúdos prejudiciais.
Assim como a World Health Organization apoia a saúde global, essa organização poderia se dedicar a promover a disseminação responsável do conhecimento e a prevenir danos e discurso de ódio, visando o bem-estar da sociedade.
Na sociedade atual, em que a informação digital é onipresente e muda rapidamente, precisamos abraçar o debate robusto, ouvir especialistas, verificar o que dizem, compreender os métodos que utilizaram e não nos deixar influenciar por desinformados ou negacionistas.
Precisamos ser cidadãos digitais que protegem seus direitos, e não súditos digitais manipulados pelas redes sociais.
Se a sociedade falhar em regular as redes sociais, historiadores daqui a 100 anos poderão escrever: “as pessoas do início do século XXI ficaram tão sobrecarregadas com a informação digital que não conseguiram desenvolver as habilidades e os sistemas necessários para processar adequadamente seu conteúdo, em prejuízo de sua própria sociedade”.
