Novas músicas do cantor folk antifascista Woody Guthrie
Com a divulgação de 22 canções no ano passado, a família Guthrie espera que as mensagens radicais presentes em “Woody At Home” inspirem a próxima geração de compositores de músicas de protesto
Em janeiro de 1948, um avião que transportava 28 trabalhadores mexicanos para o Centro de Detenção de Imigração de El Centro caiu fatalmente no desfiladeiro de Los Gatos, na Califórnia. Na cobertura da mídia sobre o acidente, o piloto branco, a comissária de bordo e o agente de imigração foram identificados pelo nome, mas os trabalhadores a bordo — alguns dos quais estavam legalmente nos Estados Unidos com contratos temporários por meio do Programa Bracero — foram chamados apenas de “deportados” e enterrados em uma vala comum.
Quando o cantor folk, antifascista e defensor dos trabalhadores Woody Guthrie leu a notícia, sentiu-se inspirado a escrever a letra de “Deportee (Plane Wreck at Los Gatos)”. A canção atribui nomes simbólicos aos trabalhadores e condena as condições brutais e precárias às quais os migrantes são forçados a se submeter. No estilo clássico de Woody Guthrie, o narrador se coloca dentro da luta dos trabalhadores imigrantes, em vez de observá-la à distância:
Nosso contrato de trabalho acabou e temos que seguir adiante / Seiscentas milhas até aquela fronteira mexicana / Eles nos perseguem como foras da lei, como ladrões de gado, como ladrões. / Adeus ao meu Juan, adeus Roselita / Adiós mis amigos, Jesus y Maria
A solidariedade — um valor central na obra de mais de 3.000 canções compostas por Guthrie ao longo de seus 55 anos — está presente nesses versos.
Cerca de dez anos depois de “Deportee” ter sido escrita pela primeira vez, enquanto Guthrie lutava contra a doença de Huntington (que acabaria por tirar sua vida), um professor chamado Martin Hoffman compôs a música para acompanhar a letra. Desde então, a canção foi interpretada por diversos artistas, incluindo Dolly Parton, Pete Seeger, Joan Baez, Bruce Springsteen e Bob Dylan.
Mas nenhuma gravação de Guthrie cantando “Deportee” havia sido disponibilizada — até agora.
A Shamus Records lançou Woody At Home, uma coletânea com 22 gravações inéditas de Guthrie, em 14 de agosto. Nora Guthrie, filha do músico, e Anna Canoni, sua neta e coprodutora do álbum, esperam que o lançamento apresente seu trabalho a uma nova geração de ouvintes.
A ascensão do fascismo nos Estados Unidos — juntamente com novos avanços em softwares de áudio que tornaram as gravações publicáveis — convenceu a família Guthrie e seus colaboradores de que a cena musical precisava de uma dose do espírito anti-autoritário, antirracista e antifascista característico de Guthrie.
COMO “DESASSAR” UM BOLO
As fitas não foram originalmente destinadas à distribuição comercial; foram gravadas na sala de estar do apartamento de Guthrie, no Brooklyn, entre 1951 e 1952, em um gravador portátil dado por seu produtor, na esperança de que as músicas fossem gravadas por outros artistas.
Durante décadas, as fitas eram o que o engenheiro de som Steve Rosenthal chama educadamente de “áudio comprometido”. O violão de Guthrie abafava sua voz, e um zumbido grave prejudicava toda a coleção. Violão, voz e ruído estavam misturados em uma única faixa mono, o que tornava impossível equilibrar os volumes simplesmente ajustando o controle.
Mas, nos últimos anos, surgiram softwares de “desmixagem” (IA) capazes de isolar e separar os elementos de uma faixa mono. Giles Martin, produtor da versão desmixada do álbum Revolver, dos Beatles, explicou a nova tecnologia à revista Rolling Stone: “É como se você me desse um bolo e, uma hora depois, eu voltasse com farinha, ovos, açúcar e todos os ingredientes daquele bolo, sem nenhum resquício da massa misturada.”
Rosenthal utilizou um software semelhante para desmixar Woody At Home. “O zumbido em todas as gravações, conseguimos ouvi-lo, isolá-lo e depois removê-lo”, disse ele.
O resultado são 22 faixas íntimas. Algumas são novas versões de canções já conhecidas de Guthrie — “This Land Is Your Land” abre o álbum, algo que Canoni quis “tirar do caminho”, para que músicas menos famosas pudessem brilhar. Outras existiam apenas na forma de letra escrita ou em gravações de outros artistas, como “Deportee”.
Ouvir o álbum é como fazer um curso intensivo de história popular.
“Great Ship” homenageia as 1.195 vidas perdidas no naufrágio do Lusitania, em 1915. “Buoy Bells from Trenton” conta a história dos Seis de Trenton, um grupo de homens negros injustamente condenados pelo assassinato de um comerciante branco em 1948. “I’ve Got to Know” exige respostas das autoridades:
Por que seus navios de guerra navegam em minhas águas? / Por que suas bombas mortais caem do meu céu? / Por que você queima minha fazenda e minha cidade? / Eu preciso saber, amigo, eu preciso saber!
Quando Canoni ouve a música, pensa no genocídio em Gaza, onde bombas fabricadas nos Estados Unidos vêm sendo lançadas há quase dois anos. Eu ouvi a canção no mesmo dia em que o governo Trump pediu uma sentença de apenas um dia para o policial que disparou dez tiros pela janela de Breonna Taylor, e senti sua assustadora atualidade.
Em “Backdoor Bum and the Big Landlord”, dois homens — um sem-teto, o outro rico graças a seus inúmeros imóveis para aluguel — viajam juntos pelo sistema solar. A última parada é o céu. O primeiro entra sem dificuldades, mas o senhorio chega um dia atrasado, sobrecarregado por suas moedas de ouro. Quando tenta comprar sua entrada, não é admitido.
Nora Guthrie suspeita que seu pai escreveu a música sobre Fred Trump, pai de Donald Trump. Fred era o proprietário do prédio onde a família Guthrie morava na época, e suas práticas racistas no mercado imobiliário inspiraram mais de uma canção de Guthrie, incluindo “Old Man Trump”.
CALMA É UMA FORMA DE RESISTÊNCIA
Para Nora Guthrie e Anna Canoni, o som suave e íntimo das “fitas caseiras” é central para o peso emocional — e o poder político — do álbum.
Passos, rangidos do assoalho e as vozes da esposa e dos filhos pequenos de Guthrie são audíveis enquanto ele canta na cozinha-sala de estar de seu apartamento no Brooklyn.
“Seja em casa ou na estrada, em pensões baratas ou vagões de trem, a maior parte de sua escrita acontecia em espaços movimentados”, recordou Nora Guthrie. Ele não era do tipo que escrevia música de protesto no conforto de uma torre de marfim — inclusive, pintou a famosa frase “This Machine Kills Fascists” em seu violão quando embarcou com a Marinha Mercante nos anos 1940, a caminho de lutar contra fascistas na Segunda Guerra Mundial.
Embora a instrumentação simples das fitas seja mais fruto das circunstâncias do que uma escolha artística, a qualidade lo-fi pode ser vista como uma característica positiva. “Quando me deram para ouvir pela primeira vez”, contou Nora Guthrie, “eu me deitei no sofá e apaguei as luzes. Tive que ficar muito quieta para escutar. Este mundo é barulhento demais. A política, as notícias, gritam com você. Não dizem o que está acontecendo, gritam com você.”
Anna Canoni também achou a experiência reconfortante, quase como uma meditação guiada — uma espécie de ASMR de esquerda.
Sobrecarga, paralisia e desorientação são pilares da estratégia midiática trumpista. Nesse contexto, a observação de John Berger de que “a calma é uma forma de resistência” soa especialmente verdadeira. Em seu livro Doppelganger (2023), Naomi Klein concorda, explicando que escreve para cultivar calma em si mesma e em seus leitores — uma calma compatível com a paixão e a indignação necessárias para promover mudanças. “A calma é a pré-condição para o foco, para a capacidade de priorizar”, escreve ela. “O objetivo nunca deve ser colocar os leitores em estado de choque. Deve ser tirá-los dele.”
Woody At Home produz esse efeito. De forma silenciosa e serena, às vezes acompanhado de violão, às vezes a capela, Guthrie condena a injustiça onde quer que a encontre — do sistema de imigração à relação entre senhorios e inquilinos, à ascensão de Hitler na Europa.
QUEM VAI ESCREVER O PRÓXIMO VERSO?
As canções de Woody Guthrie geralmente terminam com uma lição ou um chamado à ação, explicou Canoni, por isso ela organizou o álbum para terminar da mesma maneira. Na faixa final, “You Better Git Ready”, o diabo acorda Guthrie no meio da noite e diz que o inferno é brando demais para os nazistas — portanto, eles precisam ser derrotados neste mundo.
