Os grupos de extrema direita da França estão se unindo?
Embora a extrema direita francesa tenha sido historicamente dividida em várias facções, nos últimos anos têm surgido sinais de aproximação entre elas, como demonstrado na marcha realizada em 21 de fevereiro em nome de Deranque.
Segundo os serviços de inteligência interna da França, há atualmente 3.300 indivíduos envolvidos com uma das três principais facções da extrema direita no país: identitários, revolucionários nacionalistas arianos e monarquistas.
O movimento identitário etnonacionalista surgiu no início dos anos 2000, antes de passar a ter representação em escala nacional a partir de 2012, por meio do pequeno grupo Génération Identitaire.
Seus apoiadores defendem uma “definição étnica” de identidade baseada em um “tripé identitário”, explicou Marion Jacquet-Vaillant, especialista no movimento, à agência de notícias francesa AFP. “Por exemplo, um indivíduo é de Nice, francês e europeu.”
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A ideologia nacionalista revolucionária é antiparlamentar e neofascista. Ela tem sido representada na França há muito tempo pelo Groupe Union Défense, mais conhecido pela sigla GUD.
Esse movimento neofascista ganhou as manchetes em 2013, quando o jovem ativista antifascista Clément Méric foi espancado até a morte por skinheads ligados a um pequeno grupo próximo a esse movimento, que posteriormente foi dissolvido pelo governo.
“O nacionalismo revolucionário é um movimento que se reivindica social, popular, antiburguês e internacionalista”, afirmou Lebourg.
O terceiro e último movimento é o dos monarquistas, cuja principal expressão na França é o grupo Action Française. Fundado em 1898, ele originalmente defendia o retorno à monarquia para restaurar valores tradicionais e a unidade nacional. Hoje, concentra-se na identidade cultural e no euroceticismo.
Embora compartilhem semelhanças ideológicas, a abordagem desses grupos em relação à ação violenta difere.
Os monarquistas da Action Française fazem pouco ou nenhum uso de métodos violentos.
Já o movimento identitário recorreu à violência no passado — de forma mais notória na tentativa de assassinato do então presidente Jacques Chirac em 2002 por Maxime Brunerie, um ativista identitário. Desde então, esse movimento tem privilegiado táticas de choque, como ocupar mesquitas ou exibir faixas com conotações racistas, como a que tinha como alvo a cantora Aya Nakamura.
Entre os nacionalistas revolucionários, a violência está no DNA do movimento. Lebourg observa: “Setenta e cinco por cento de seus atos violentos desde 2017 foram agressões.”
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Um cenário em transformação
O panorama da extrema direita na França vem mudando ao longo da última década, principalmente em razão das decisões do governo francês de dissolver diversos grupos.
O período de Emmanuel Macron no poder registrou a dissolução de mais grupos políticos do que qualquer outro governo, e desde 2017 metade dos grupos dissolvidos eram de extrema direita. A Génération Identitaire foi proibida em março de 2021, e o GUD em junho de 2024.
No entanto, com o desaparecimento dessas estruturas nacionais, pequenos coletivos se reorganizaram em nível local, tanto em cidades quanto em áreas rurais — às vezes com apenas 15 membros. O veículo de mídia online StreetPress lista 141 desses grupos em seu site.
A eficácia da proibição desses grupos é contestada por acadêmicos, que argumentam que o desmantelamento de organizações nacionais maiores faz com que os serviços de inteligência percam o controle sobre certos ativistas.
Isso também reforça o sentimento de pertencimento entre os membros a um mesmo movimento ostracizado, explica o cientista político Jean-Yves Camus.
“Esses ativistas dizem a si mesmos: já que a repressão nos atinge a todos, por que continuar a nos dividir? Há um sentimento generalizado de que ‘o que nos une é mais forte do que o que nos divide’, apesar das diferenças ideológicas e históricas.”
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Camus afirma que a marcha organizada em Lyon em 21 de fevereiro em homenagem a Deranque demonstrou essa nova unidade entre as diferentes facções da extrema direita — assim como o próprio Deranque, que havia circulado entre grupos identitários, monarquistas e também nacionalistas revolucionários.
Das três facções da extrema direita, a ideologia dos identitários vem cada vez mais dominando as outras duas — especialmente sua adesão à teoria conspiratória racista da “Grande Substituição”.
Popularizada por Renaud Camus, teórico da extrema direita radical na França, ela sustenta que existe um plano orquestrado para substituir as populações europeias brancas por imigrantes não brancos, principalmente oriundos de países de maioria muçulmana, e defende o retorno forçado de imigrantes a seus países de origem.
Assim, afirma Lebourg: “Com a obsessão pela questão étnica, temos uma grande simplificação do movimento que vem ocorrendo desde 2015”, acrescentando que houve, na prática, um colapso das “barreiras ideológicas” que antes dividiam a extrema direita.
