Fascismo no futebol: como o “jogo bonito” se tornou feio
A política de extrema direita ganhou destaque entre torcedores de futebol italianos
26 de dezembro de 2018 deveria ser um dia empolgante para os fãs de futebol italianos: era a primeira vez que partidas da principal liga nacional, a Serie A, eram programadas durante as festas de fim de ano, para adicionar um pouco de diversão esportiva à temporada festiva. O grande jogo do dia foi Inter Milan contra Napoli, um clássico entre dois dos times mais importantes da Itália. A cobertura televisiva pós-jogo, no entanto, não se concentrou nos gols ou nas jogadas, mas sim nos violentos confrontos entre torcedores que deixaram um morto.
Durante os confrontos, Daniele Belardinelli, torcedor do time italiano Varese, foi atropelado por um SUV dirigido por um torcedor do Napoli. Belardinelli era um ultrà, termo usado para identificar torcedores fanáticos na Itália e em toda a Europa. Os ultras são uma presença constante no futebol italiano, conhecidos por expressar sua paixão com cantos intensos e bandeiras coreografadas. Infelizmente, também são notoriedade por comportamentos racistas, violentos e, cada vez mais, por envolvimento com extremismo político e atividades ilegais.
Embora alguns grupos ultras tenham inclinações progressistas ou de esquerda, a grande maioria se orienta para a extrema direita. Frequentemente, torcidas de diferentes times estabelecem vínculos com base em afinidades ideológicas. Torcedores de Varese e Inter, ambos com inclinação de extrema direita, têm uma longa história de alinhamento político e apoio mútuo. Belardinelli havia se juntado a torcedores da Inter em uma emboscada contra um ônibus de torcedores do Napoli. Apesar do planejamento cuidadoso do ataque — que conseguiu driblar a polícia — ele foi surpreendido pelo carro que avançou contra a multidão e o matou.
A crescente presença do fascismo entre torcedores
Essa não foi a primeira vez que um ultrà morreu em confrontos — há um histórico de violência desde o fim dos anos 1970, com 23 mortes nas últimas quatro décadas. Mas a morte de Belardinelli — que era membro de um grupo neonazista chamado Blood and Honor — chamou atenção para a infiltração recente de grupos neofascistas e neonazistas entre torcedores italianos e suas redes na Europa.
Torcedores da Inter e do Varese — com apoio de extremistas vindos de Nice, na França — atacaram torcedores napolitanos não apenas por rivalidade esportiva, mas para promover uma agenda racista e de extrema direita. O Napoli, vindo do sul da Itália, é historicamente alvo de racismo por torcidas do norte, e um de seus principais jogadores na época, Kalidou Koulibaly, frequentemente sofria insultos racistas.
O grupo Blood and Honor — nome que remete ao lema da SS nazista — faz parte de uma rede neonazista ativa no norte da Itália. Apesar de pequeno, exerce influência desproporcional entre torcedores do Varese, promovendo racismo, vandalismo e confrontos com a polícia.
Outros grupos também ilustram essa tendência. O Veneto Fronte Skinheads, um dos maiores grupos xenófobos da Itália, está ligado à torcida do Verona desde os anos 1980. Nos anos 1990, torcedores protestaram contra a contratação de um jogador negro usando roupas da Ku Klux Klan.
Torcedores da Lazio também são conhecidos por simpatias fascistas e vínculos com o grupo Forza Nuova. Em diferentes ocasiões, divulgaram imagens antissemitas envolvendo Anne Frank para provocar torcedores rivais.
Mesmo clubes maiores como Inter, Juventus e Milan viram crescimento da influência da extrema direita entre seus torcedores. Em muitos estádios italianos, tornaram-se comuns comportamentos racistas, islamofóbicos, homofóbicos e o uso de símbolos como a suástica.
Como a extrema direita ganhou espaço na Itália
Até cerca de uma década atrás, a influência dos ultras de extrema direita era limitada. Símbolos fascistas eram amplamente rejeitados. Jogadores como Paolo Di Canio enfrentaram forte reação por demonstrações de apoio ao fascismo.
Após o escândalo de corrupção conhecido como Tangentopoli nos anos 1990, houve um vácuo político que permitiu o retorno de forças de extrema direita. Mudanças culturais e econômicas também favoreceram o ressurgimento do nacionalismo.
Desde então, partidos de extrema direita cresceram, culminando na eleição de Giorgia Meloni em 2022, líder do partido Fratelli d’Italia.
Grupos ultras passaram a se envolver diretamente na política, apoiando candidatos e expandindo sua influência econômica em torno do futebol.
A politização do futebol
A relação entre futebol e política na Itália não é nova. Durante o regime de Benito Mussolini, a 1934 FIFA World Cup foi usada como propaganda fascista.
Mais recentemente, Silvio Berlusconi combinou futebol, mídia e política, sendo ao mesmo tempo primeiro-ministro e presidente do AC Milan.
Embora conservador, Berlusconi ajudou a legitimar partidos de extrema direita ao formar coalizões com eles.
Expansão na Europa
O fenômeno não é exclusivo da Itália. No Reino Unido, o partido Reform UK, liderado por Nigel Farage, tem crescido com retórica anti-imigração, refletida em estádios.
Um problema mais amplo
Um dos aspectos mais preocupantes é que estádios estão se tornando espaços de recrutamento para jovens por grupos extremistas. A paixão pelo futebol é explorada para atrair pessoas para agendas neofascistas.
Ao permitir a entrada dessas ideologias, o futebol corre o risco de se tornar um espaço de racismo, intolerância e violência — uma perda não apenas para o esporte, mas para a sociedade como um todo.
