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O negacionismo do HIV/AIDS está de volta, cortesia de Joe Rogan
Negacionismo

O negacionismo do HIV/AIDS está de volta, cortesia de Joe Rogan

A teoria já desmentida de que o “estilo de vida gay” causa AIDS foi endossada no maior podcast do mundo

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Via McGill University

Tempo de leitura: 6 minutos.

Joe Rogan, o podcaster mais influente do mundo, é um negacionista do HIV/AIDS. Imagine a reação se o telejornal das seis estivesse promovendo, de forma central, essa pseudociência prejudicial de décadas atrás. A audiência de Rogan é muito maior — ele é, na prática, a mídia dominante — e ele está ensinando a uma geração de jovens adultos que o HIV é um vírus inofensivo.

Eu não descobri isso sozinho; ouvi no podcast The Know Rogan Experience, apresentado pelo meu amigo e colega cético Michael Marshall. Ele e Cecil Cicirello escutam e criticam o popular programa de Rogan, de forma semelhante a como o Knowledge Fight cobre o decadente InfoWars de Alex Jones (que diz que chegará ao fim em meados de abril, finalmente).

O negacionismo do HIV/AIDS está voltando. Uma lição histórica se faz necessária.

Mitos contagiosos

Em 2014, a ala hospitalar em Vancouver dedicada a pacientes que morriam de AIDS foi transformada em uma unidade para doentes crônicos. A ala 10C do Hospital St. Paul costumava registrar quase uma morte por dia; hoje, a infecção por HIV não é mais fatal para pessoas com acesso a cuidados de saúde adequados. A ala 10C é apenas uma entre muitas desativadas graças à vitória médica sobre a doença.

A síndrome da imunodeficiência adquirida (AIDS) retira do corpo a capacidade de combater infecções e câncer devido à redução drástica de um tipo de glóbulo branco (as células CD4). Embora tenha sido identificada pela primeira vez em 1981, sua origem remonta, ao que tudo indica, ao início do século XX. Uma família de vírus geralmente inofensivos infectava primatas na África Subsaariana e acabou sendo transmitida aos humanos, dando origem a dois tipos: HIV-1, responsável pela maioria dos casos de AIDS, e HIV-2, historicamente mais presente na África Ocidental.

O HIV é transmitido por relações sexuais ou contato com sangue infectado, e também pode passar de mãe para filho durante a gravidez, o parto ou a amamentação. Ele invade os glóbulos brancos, integra seu material genético ao das células e acaba destruindo o sistema imunológico.

O termo “negacionismo do HIV/AIDS” costuma ser rejeitado pelos próprios negacionistas, que alegam não negar a existência do vírus ou da doença. Mas o termo se refere à rejeição do fato comprovado de que o HIV causa a AIDS. Negacionistas afirmam que o vírus é inofensivo e que a doença resulta de “estilo de vida”.

A comunidade médica não apenas acredita que o HIV causa a AIDS — ela sabe disso com certeza absoluta. Praticamente todas as pessoas com AIDS testam positivo para HIV. Casos acidentais de exposição ao vírus levaram à doença sem outros fatores de risco. Estudos em animais também confirmam repetidamente essa relação.

O retorno do negacionismo

No fim dos anos 1980, o negacionismo ganhou força, culpando o chamado “estilo de vida gay”. Segundo essa visão, o problema seriam sexo ou drogas, não o vírus. Aqui já aparece a lógica de responsabilização individual: a doença seria culpa do próprio indivíduo.

Mas essa explicação falha: não explica casos acidentais e ignora que comportamentos semelhantes existiam entre heterossexuais. A maior incidência entre homens gays se deve a fatores biológicos, não à orientação.

Substâncias como os “poppers” também foram culpadas, sem base científica. Embora possam causar efeitos colaterais, não explicam a destruição do sistema imunológico causada pelo HIV.

AZT não causa AIDS — o negacionismo pode matar

Teorias conspiratórias rejeitam explicações científicas e abraçam alternativas contraditórias. Um exemplo é culpar o AZT (zidovudina), o primeiro antirretroviral. O erro aqui é confundir causa e efeito: pacientes mais graves recebiam o medicamento, então ele foi acusado de causar a doença.

Apesar de doses iniciais elevadas causarem efeitos colaterais, isso foi corrigido. O AZT continua sendo usado até hoje.

Negar vírus pode ter consequências graves. Assim como ocorreu com a COVID-19, há muitos casos de negacionistas que morreram da própria doença que negavam.

A cadeia de desinformação

Uma linha pode ser traçada entre quatro nomes na disseminação recente dessas ideias: Peter Duesberg, Gavin de Becker, Robert F. Kennedy Jr. e Joe Rogan.

Duesberg foi um pesquisador que, em 1987, afirmou que o HIV não causava AIDS. Em 2012, participou do podcast de Rogan, que o chamou de “respeitado”. Isso ajudou a espalhar pseudociência para novas gerações.

Rogan, após críticas e controvérsias envolvendo COVID-19 e ivermectina, passou a adotar posições cada vez mais contrárias à medicina convencional, convidando figuras marginais.

A radicalização

Um episódio recente com Gavin de Becker reviveu essas teorias: HIV não causaria AIDS, a culpa seria de drogas, sexo ou medicamentos. Essas ideias ignoram dados como o fato de que a maioria das infecções por HIV no mundo ocorre em relações heterossexuais e que mais da metade das pessoas vivendo com HIV são mulheres.

A distorção da ciência

Outro argumento falho é o de que o AZT teria sido um “fracasso” como medicamento contra câncer e reaproveitado de forma perigosa. Não há evidência de que tenha matado pacientes com câncer.

A contradição é clara: Rogan critica o uso do AZT, mas defende o uso de ivermectina para COVID-19.

O alvo político

Grande parte dessas teorias ataca Anthony Fauci, retratado como conspirador. Essas ideias foram amplificadas por Robert F. Kennedy Jr. em seu livro The Real Anthony Fauci.

A influência cultural

Hoje, essas ideias são disseminadas em plataformas massivas como o podcast de Rogan — uma espécie de “Oprah Winfrey da geração Z”.

Teorias conspiratórias ressurgem como zumbis, impulsionadas por influenciadores que rejeitam consenso científico. Rogan privilegia vozes contrárias, mesmo que isoladas.

Com a inteligência artificial, essas ideias podem se espalhar ainda mais. Como sugerido no próprio podcast, usuários são incentivados a “forçar” respostas de IA até obter o que desejam — reforçando crenças prévias.

Consequências reais

Isso pode levar ao abandono de tratamentos por pessoas com HIV. Já vimos algo semelhante no passado: na África do Sul, políticas baseadas em negacionismo contribuíram para centenas de milhares de mortes.

Quando ignoramos o passado, abrimos espaço para revisões perigosas da história. Mas vírus não se importam com “fatos alternativos”.

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