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“Se a extrema direita vencer na França, a Europa mudará de rumo — e entraremos em um mundo diferente”
Antifascismo

“Se a extrema direita vencer na França, a Europa mudará de rumo — e entraremos em um mundo diferente”

Secretária nacional dos Les Écologistes, Marine Tondelier passou mais de dez anos em um dos redutos de Marine Le Pene conhece muito bem as propostas da extrema direita francesa

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Via Agenda Publica

Tempo de leitura: 13 minutos.

Marine Tondelier é uma das arquitetas da Nova Frente Popular francesa, que em 2024 foi a principal força nas eleições legislativas. Apesar do sucesso dessa frente unida, que reuniu figuras que iam da esquerda radical de Jean-Luc Mélenchon aos socialistas de centro-esquerda liderados por Olivier Faure, a fórmula parece ter se esgotado. O motivo? A La France Insoumise e os socialistas não parecem dispostos a repeti-la. Ela lamenta essa situação: “Acho uma atitude muito egoísta, até indecente”, afirma.

Secretária nacional dos Les Écologistes, Tondelier passou mais de dez anos na oposição municipal em Hénin-Beaumont, uma pequena cidade do norte da França conhecida, entre outras coisas, por ser um dos redutos de Marine Le Pen. Por isso, conhece muito bem as propostas da extrema direita francesa.

Todas as capitais europeias têm a eleição presidencial francesa de 2027 marcada em seus calendários, e a líder ecologista já faz um alerta: “Se a França cair, a Europa cai.” Diante da possibilidade de o Rassemblement National (RN) chegar ao poder, ela critica tanto os socialistas quanto a La France Insoumise por descartarem uma frente comum, ao mesmo tempo em que alerta para os riscos para a Europa e para a própria França: “Se a Europa mudar porque a França mudou, então realmente entraremos em outro mundo.”

Sobre seu projeto político e a visão ecologista em um mundo cada vez mais turbulento, ela argumenta: “Nossas vulnerabilidades industriais, energéticas, culturais e digitais estão sendo transformadas em armas por nossos inimigos, especialmente por Trump e Putin.” Quanto à demografia e à sustentabilidade do Estado de bem-estar social, Tondelier, que espera seu segundo filho, acredita que “a queda da natalidade também é uma espécie de greve silenciosa dos úteros de mulheres que não estão bem e que não se veem vivendo esse tipo de vida”.

Está sendo discutido em todas as capitais europeias que a França definirá o calendário político com a eleição presidencial de 2027. Se um candidato do RN chegasse ao Palácio do Eliseu, o que mudaria para a França e para a Europa?

Sou vereadora de oposição em Hénin-Beaumont desde 2014, uma cidade governada pelo RN. Por isso, vi em primeira mão as mudanças que a extrema direita provoca quando chega ao poder.

O que está claro é que, em um mundo onde grandes democracias — incluindo os Estados Unidos, com sua longa tradição democrática — estão se deslocando para o campo reacionário, podemos observar uma espécie de efeito dominó: os Estados caem um após o outro e arrastam os demais consigo. O próximo dominó pode ser a França.

E, se a França cair, a Europa cai. Hoje, restam poucos países progressistas na Europa, e menos ainda governados pela esquerda. A Europa é o que ainda existe para enfrentar os imperialismos. A única entidade com massa crítica suficiente para confrontá-los é a Europa. Se a Europa mudar porque a França mudou, então realmente entraremos em outro mundo.

Por isso, como ecologista e pensando na eleição presidencial francesa, farei tudo o que estiver ao meu alcance, não apenas pelos ecologistas, mas por todo o meu campo político, para evitar esse cenário.

Como a esquerda francesa deveria se apresentar na próxima eleição presidencial?

Desde o início, nós, ecologistas, defendemos uma candidatura comum entre a esquerda e os ecologistas. Nossa posição sempre foi constante e coerente: defendemos essa ideia, apresentamos propostas e fazemos tudo o que podemos para construí-la. Mas não é nada simples.

Hoje estamos em uma situação em que entendemos que Jean-Luc Mélenchon não quer trabalhar com os outros e segue seu próprio caminho, enquanto muitos socialistas sentem a tentação de seguir na direção oposta. No final, ambos os lados concordam em não querer trabalhar juntos novamente, e isso destrói qualquer ambição de vitória da esquerda, agora e no futuro.

Considero essa atitude muito egoísta, até indecente, porque significa que não estaremos à altura da responsabilidade que temos para com as pessoas que deveríamos defender.

Nós, ecologistas, observamos isso com preocupação, mas não mudamos de posição: continuaremos defendendo uma candidatura comum com determinação.

A Nova Frente Popular foi considerada um sucesso em 2024. Se o desafio agora é ainda maior, por que parece mais difícil repetir essa unidade?

É exatamente isso que passo meu tempo dizendo. O perigo de o RN chegar ao poder é menor hoje do que era ontem? Não. Nada prova isso. É por isso que falei anteriormente sobre indecência e irresponsabilidade.

É verdade que, desde 2024, consolidou-se na França a ideia de uma esquerda irreconciliável. Alguns socialistas alimentam essa narrativa, e Jean-Luc Mélenchon também. É como minar um campo de batalha: depois que você espalha minas por toda parte, mesmo que haja uma reconciliação posterior, as minas continuam lá.

Há algo de irreversível acontecendo, e isso me preocupa muito.

Uma das contribuições mais reconhecidas dos Verdes na França tem sido a transformação das cidades. Qual é seu modelo urbano hoje?

Não tenho uma visão completa da Espanha, mas hoje estamos em Madrid, uma grande cidade como Lyon, e há problemas comuns. A primeira questão, ainda mais intensa aqui do que em Lyon, é a moradia: tensões relacionadas ao Airbnb, ao turismo ou a pessoas muito ricas que querem ter um apartamento em cada capital europeia enquanto aqueles que apenas desejam um lugar para viver não conseguem encontrar uma moradia digna.

O que me deixa extremamente orgulhosa nas cidades francesas governadas por ecologistas é a determinação em mudar a vida cotidiana. Isso significa melhorias concretas: quilômetros de ciclovias, alimentação orgânica e local nas escolas, direito às férias para todos, áreas de resfriamento durante ondas de calor. Trata-se de uma melhoria real da qualidade de vida.

Também acredito que a França pode aprender com a Espanha. Em meu projeto presidencial, estou trabalhando sobre a questão da solidão, que afeta uma em cada quatro pessoas na França.

A Organização Mundial da Saúde afirma que sentir-se sozinho tem o mesmo impacto sobre a saúde que fumar quinze cigarros por dia. É um problema social e de saúde pública.

Por isso me interessa a experiência de Barcelona, que possui um departamento municipal dedicado ao tema e um plano para o período 2020-2030, incluindo medidas como a chamada “prescrição social”: permitir que médicos prescrevam atividades gratuitas oferecidas pela cidade, como visitas a museus, caminhadas na natureza ou práticas esportivas adaptadas.

É positivo que cidades espanholas se inspirem nas cidades ecologistas francesas, mas os ecologistas franceses também se inspiram no que é feito em cidades espanholas.

Em um contexto marcado por crises geopolíticas e instabilidade econômica, parece mais difícil recolocar a transição ecológica no centro do debate. Como você vê isso?

Não concordo totalmente com a forma como a questão é colocada, porque o que estamos vivendo geopoliticamente demonstra justamente que os ecologistas estavam certos há muito tempo e que é urgente implementar suas propostas.

Durante muito tempo, os europeus acreditaram que um projeto de paz seria suficiente para nos proteger. Era a famosa ideia do fim da história: paz e prosperidade para sempre. Hoje vemos que a paz não existe e que não basta ter bombas, munições e aviões.

Nossas vulnerabilidades industriais, energéticas, culturais e digitais estão sendo transformadas em armas por nossos adversários, especialmente por Trump e Putin.

No início da guerra na Ucrânia, houve um despertar em relação à nossa dependência energética da Rússia. Em 2024, a França deu mais dinheiro a Putin comprando fertilizantes, urânio e energia do que forneceu diretamente em ajuda à Ucrânia. Isso é um problema.

Para mim, isso não coloca em questão os ideais ecologistas. Pelo contrário: demonstra que chegamos tarde demais e que não fomos ouvidos.

Se queremos garantir nossa segurança e nossa soberania, devemos investir em energias renováveis, as únicas que sabemos construir rapidamente e que podem nos tornar completamente independentes e autônomos. E também devemos investir em uma reindustrialização coordenada em nível europeu.

Na Europa, tem havido uma reação contrária a partes do Pacto Ecológico Europeu (Green Deal). Para além da oposição da extrema direita, até mesmo dentro do Partido Popular Europeu (PPE), a secretária-geral do partido, Dolors Montserrat, afirmou que o pacto seria um “plano de desindustrialização”. Não estou lhe pedindo que comente essas declarações, se não quiser, mas gostaria de perguntar o seguinte: é possível escapar da estagnação europeia promovendo uma indústria verde ou talvez precisemos reajustar nossos objetivos?

Não acredito que o Green Deal seja um obstáculo para a indústria. O Green Deal é a condição para o nosso futuro, para a justiça ambiental e para a justiça social. Se tivesse sido implementado de forma melhor, haveria mais justiça social. O erro dos centristas é acreditar que é possível fazer ecologia sem justiça social. Nós discordamos disso.

Não faz sentido opor o Green Deal à indústria. Estamos trabalhando em um plano para a eleição presidencial francesa com objetivos claros para a França, mas também queremos uma estratégia europeia. É inútil que todos façam tudo. Precisamos identificar o que alguns países já fazem bem, em quais setores nós, europeus, somos vulneráveis e como cada país, com capacidade e disposição, pode contribuir para preencher essas lacunas e reduzir nossas vulnerabilidades. Precisamos de inteligência coletiva europeia.

Vou dar um exemplo: o aço. Eu venho do norte da França, onde antes existiam minas de carvão e onde hoje está instalada a ArcelorMittal. Se a Arcelor fechar suas unidades em Dunquerque e Fos-sur-Mer, não seremos mais capazes de produzir aço europeu. Não é verdade que elas possam ser reabertas em dois anos. Se fecharem, fecharão definitivamente. E, pelo resto de nossas vidas, dependeremos do aço chinês e norte-americano.

“Nós, ecologistas, afirmamos que cuidamos muito melhor da indústria do que aqueles que estão permitindo o declínio da indústria francesa e europeia.”

Não sou hipócrita: quando luto pela qualidade do ar, vou à Arcelor e digo que devemos ter cuidado. Mas prefiro o aço produzido em Dunquerque, sob melhores condições ambientais e sociais, ao aço chinês que atravessou metade do planeta e não foi produzido com a mesma matriz energética.

Nós, ecologistas, afirmamos que cuidamos muito melhor da indústria do que aqueles que estão permitindo o declínio da indústria francesa e europeia. Somos muito ambiciosos e estamos profundamente preocupados com essa questão.

A Europa vive um debate cada vez mais intenso sobre demografia: envelhecimento populacional, baixa natalidade, sustentabilidade do Estado de bem-estar social, migração e equilíbrio territorial. A partir de uma perspectiva ecologista, como esse desafio deveria ser enfrentado?

Tudo começou com uma frase de Emmanuel Macron sobre o “rearmamento demográfico” do povo francês. Isso me tocou profundamente porque, naquela época, eu estava passando por um processo de reprodução medicamente assistida e fertilização in vitro. Eu já tinha um filho e tive grandes dificuldades para ter um segundo. Hoje estou grávida naturalmente, mas durante três anos passei por esse processo muito complicado que muitos casais europeus enfrentam.

Muitas de nós sentimos essa declaração como uma provocação, e os casais e mulheres diretamente envolvidos não a receberam bem.

Na televisão vemos muitos homens brancos mais velhos falando sobre demografia como se os corpos das mulheres lhes pertencessem: dizem que o sistema de proteção social vai colapsar, que perderemos a próxima guerra mundial, que a economia perderá força. Existe uma enorme pressão de culpa sobre as mulheres.

A história mostra que, quando essas questões foram abordadas dessa maneira — especialmente no período entre as duas guerras mundiais — foi justamente quando se aprovaram leis extremamente restritivas contra as mulheres. Na França, em 1920, os contraceptivos e qualquer campanha em favor de seu uso foram proibidos, com consequências desastrosas.

E o que vemos na Europa é que as reformas natalistas voltadas para as mulheres, como na Itália ou na Hungria, nunca conseguiram aumentar significativamente as taxas de natalidade. Os países com maiores índices de natalidade são aqueles que promovem a igualdade.

“A demografia não é um problema; é um fato. E, se queremos lidar com ela, precisamos de uma política feminista viva.”

Isso significa que uma mulher que não deseja ter filhos deve ter o direito de não tê-los. Um casal que não deseja filhos também deve ter esse direito. E uma mulher que deseja ter filhos deve ter condições para realizar esse projeto.

Se você enfrenta problemas de moradia, vive em habitações insalubres ou luta para não pular refeições, dificilmente imaginará ter um filho. Se você é mulher e pensa que precisará abandonar o trabalho porque não sabe se encontrará vaga em uma creche, e que isso afetará sua aposentadoria, a perspectiva não é muito animadora.

E, além disso, se você se pergunta em que tipo de sociedade essa criança crescerá — diante da crise climática ou das guerras — isso também não ajuda.

A queda da natalidade é também uma espécie de greve silenciosa dos úteros de mulheres que não estão bem e que não se veem vivendo esse tipo de vida.

As mulheres que não querem filhos devem ser deixadas em paz. Mas também precisamos cuidar daquelas que gostariam de tê-los e hesitam por causa das condições em que teriam de criá-los. Essa é a tarefa da política.

A demografia não é um problema; é um fato. E, se queremos lidar com ela, precisamos de uma política feminista viva, muito mais relevante do que todos os discursos moralizantes que ouvimos na televisão.

Para terminar, qual é o seu desejo para a França em 2027?

Evitar o pior e, talvez, conseguir construir algo melhor.

Muito obrigado.

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