Pular para o conteúdo
Magnata da direita desencadeia guerra cultural no cinema francês
Cultura e Esporte

Magnata da direita desencadeia guerra cultural no cinema francês

A guerra cultural chega ao cinema francês: o império midiático de Bolloré enfrenta resistência em Cannes

Por

Via Politico

Tempo de leitura: 6 minutos.

Existe uma tradição no Festival de Cannes: quando as luzes se apagam, o público costuma aplaudir e comemorar a aparição dos logotipos de seus produtores e distribuidores favoritos.

Neste ano, porém, houve uma reviravolta. Quase todas as vezes que o logotipo da Canal+, empresa pertencente ao magnata conservador francês Vincent Bolloré, apareceu na tela, a plateia reagiu com vaias.

Foi um sinal de que a intensa guerra cultural em torno do avanço da extrema direita na França chegou ao coração da indústria cinematográfica e televisiva do país.

A Canal+ orgulha-se de ser a maior financiadora privada do cinema francês e, durante muito tempo, foi vista como um espaço relativamente protegido dentro do império midiático de Bolloré, aparentemente isolado das posições políticas de seu proprietário. Mas isso mudou neste mês, quando seu principal executivo, Maxime Saada, ameaçou colocar 600 artistas em uma lista negra.

Esses profissionais haviam assinado uma petição alertando para a crescente dependência do cinema francês em relação a Bolloré, que classificam como representante da extrema direita, além de se oporem à aquisição da UGC — empresa que administra centenas de salas de cinema na França e na Bélgica.

Para parte do setor cultural, a ameaça de lista negra da Canal+ foi vista como um prenúncio do que poderia acontecer em escala mais ampla caso o partido de extrema direita Rassemblement National vença a eleição presidencial do próximo ano.

Entre os alvos da ameaça estavam a atriz vencedora do Oscar Juliette Binoche e artistas presentes em Cannes neste ano, como o ator Swann Arlaud, protagonista de um filme sobre o regime colaboracionista de Vichy durante a Segunda Guerra Mundial, e o diretor Arthur Harari.

Após a polêmica, mais de 2 mil profissionais do setor cinematográfico acrescentaram seus nomes à petição contra Bolloré.

Reações políticas

O episódio provocou reações imediatas no cenário político francês.

O líder da esquerda radical, Jean-Luc Mélenchon, acusou Bolloré de censura:

“Depois da literatura, o censor Bolloré agora quer controlar o cinema. É inaceitável permitir que um bilionário ameace artistas dessa forma.”

Mélenchon chegou a defender o desmantelamento do império empresarial do magnata.

Já o líder socialista Olivier Faure afirmou que a atitude da Canal+ demonstra que “a extrema direita nunca gostou da liberdade, da criatividade ou do serviço público”.

De forma mais cautelosa, a ministra da Cultura francesa, Catherine Pégard, considerou a reação da Canal+ “desproporcional, para dizer o mínimo”, diante de preocupações que classificou como legítimas.

Por outro lado, o prefeito conservador de Cannes, David Lisnard, criticou os artistas, chamando-os de ingratos por “morderem a mão que os alimenta”.

O peso da Canal+ no cinema francês

A controvérsia evidenciou o grau de dependência do cinema francês em relação à Canal+.

Dos nove filmes premiados em Cannes este ano, sete receberam financiamento da emissora, incluindo o vencedor da Palma de Ouro.

Segundo produtores do setor, a resistência à expansão do poder de Bolloré é compreensível, mas existe o temor de que um confronto direto possa enfraquecer a principal fonte privada de financiamento da produção cinematográfica francesa.

Com investimentos de 155,6 milhões de euros apenas em 2025, a Canal+ é de longe a maior financiadora privada do cinema francês.

Por meio de um acordo de três anos com o setor audiovisual, a empresa comprometeu-se a investir pelo menos 480 milhões de euros entre 2025 e 2027 em produções francesas. Em troca, mantém o direito exclusivo de exibir filmes seis meses após seu lançamento nos cinemas, enquanto plataformas como Netflix, Disney+ e canais abertos precisam esperar períodos mais longos.

O “Citizen Kane” francês

O império de Bolloré continua se expandindo. Além da televisão, já inclui jornais tradicionais, editoras e, possivelmente, uma presença ainda maior no setor cinematográfico por meio da aquisição da UGC.

Católico praticante e figura influente da direita francesa, Bolloré imprimiu sua marca política em diversos veículos sob seu controle. O canal televisivo CNews, por exemplo, tornou-se conhecido pela presença constante de comentaristas conservadores, discursos anti-imigração e vozes alinhadas ao Kremlin.

Jornais tradicionais como Le Journal du Dimanche e Paris Match também passaram por uma reorientação editorial à direita após serem incorporados ao grupo.

Mais recentemente, Bolloré provocou controvérsia ao substituir a direção da prestigiosa editora Grasset, desencadeando a saída de vários autores renomados, entre eles Virginie Despentes e Frédéric Beigbeder.

Entre dependência econômica e temor político

Apesar das críticas à ameaça de lista negra, muitos profissionais do cinema reconhecem que a sobrevivência econômica do setor continua fortemente ligada à Canal+.

Alguns produtores argumentam que não existe, no curto prazo, um substituto capaz de assumir o mesmo volume de investimentos. Plataformas norte-americanas como Netflix e Disney+ dificilmente preencheriam essa lacuna imediatamente.

Outros observam que também haveria riscos em substituir um financiador nacional por grandes conglomerados internacionais, já que parte significativa dos lucros deixaria de ser reinvestida na economia francesa.

A deputada centrista Céline Calvez defendeu que o episódio demonstra a importância de um financiamento público robusto para a cultura, reduzindo a dependência de atores privados.

Do ponto de vista econômico, especialistas também observam que uma orientação explicitamente ideológica da Canal+ poderia ser contraproducente. Segundo o professor Laurent Creton, enquanto programas televisivos alinhados à direita podem encontrar um mercado crescente, o público do cinema tende a buscar diversidade temática e artística. Uma política de financiamento excessivamente seletiva poderia levar espectadores a cancelar assinaturas e migrar para outras plataformas.

Ainda assim, alguns profissionais permanecem pessimistas. Para eles, a ameaça de lista negra representa apenas um primeiro sinal do que poderia ocorrer caso a extrema direita alcance o poder político nacional e estabeleça uma aliança mais estreita com o império midiático de Bolloré.

Como resumiu um produtor francês:

“É evidente que, quando Bolloré tiver também mais poder político — possivelmente dentro de um ano — ele fará exatamente o que quiser. E isso será catastrófico para o cinema francês.”

Você também pode se interessar por