Negacionismo científico e a “extinção luminosa” das orcas
O veterinário especializado em fauna silvestre Joe Gaydos reflete sobre o que sabemos sobre as orcas que vivem em nossa região e por que é tão difícil salvá-las
Durante uma expedição em 2022 para produzir imagens para um documentário na costa de Baja California Sur, no México, Joe Gaydos olhou diretamente para o olho de uma baleia-cinzenta. Ao longo de dois dias, dezenas de baleias curiosas emergiram das águas azuis e profundas para observar Gaydos e o restante da equipe. As baleias pareciam pedir carinho e afagos, e a equipe, encantada, estava mais do que disposta a atendê-las. Gaydos, cientista especializado em animais e veterinário, aprecia profundamente esses momentos.
“As baleias estavam nos observando tanto quanto nós as observávamos”, disse Gaydos. “Esse animal poderia facilmente destruir seu barco, mas está mais interessado em ter uma experiência com você e ver o que está acontecendo. Eu adoro isso.”
Essas interações são uma das razões pelas quais Gaydos se dedica incansavelmente à conservação do ecossistema do Mar Salish. Gaydos, diretor científico da SeaDoc Society, é coautor de mais de 50 artigos científicos revisados por pares e publicou o livro best-seller The Salish Sea: Jewel of the Pacific Northwest (O Mar Salish: Joia do Noroeste do Pacífico). Comunicador envolvente, dono de um sorriso radiante e apaixonado pela conservação, Gaydos falará no Village Books em 5 de junho, como parte da série de palestras Current Affairs, promovida em parceria com o Salish Current.
Durante a palestra, intitulada “Histórias de peixes, um drone e o negacionismo científico”, Gaydos utilizará suas pesquisas de conservação sobre as orcas residentes do sul (Southern Resident Killer Whales — SRKW) para discutir como o negacionismo científico pode estar dificultando os esforços para salvar essas icônicas orcas do Mar Salish.
“É uma situação sobre a qual temos uma quantidade enorme de informações”, disse Gaydos, referindo-se aos perigos bem conhecidos enfrentados pelas SRKW. “Ainda assim, não estamos conseguindo salvá-las.”
A equipe da SeaDoc se prepara para pousar seu drone. O drone coleta, de forma não invasiva, dados das gotículas respiratórias das baleias, que podem revelar sinais de infecção e outras condições. (Louise Johns)
Gaydos e sua equipe conseguem até mesmo estudar a saúde de baleias individuais usando drones para coletar amostras de seu sopro. Uma placa de Petri voadora acoplada ao drone captura gotículas respiratórias expelidas pela baleia enquanto a aeronave paira alguns metros acima da água. Os drones aparentemente não incomodam as baleias, e os pesquisadores podem analisar dados que lhes permitem compreender melhor como a presença do drone afeta os animais. As gotículas respiratórias podem ser examinadas em busca de vestígios de sangue e sinais de infecção que possam indicar uma doença tratável. Restam apenas 74 orcas residentes do sul, portanto, a saúde de cada indivíduo é fundamental.
Os cientistas conhecem essas baleias até o nível de seu DNA. Eles sequenciaram os genomas de mais de 100 SRKW, incluindo algumas que já morreram. Essa pesquisa, publicada em 2023, confirmou uma suspeita de longa data: essa população de orcas apresenta um grau elevado de endogamia.
As baleias provenientes de populações endogâmicas têm uma expectativa de vida menor, o que resulta em um número menor de filhotes, e a endogamia pode reduzir a capacidade das baleias de enfrentar doenças e um ambiente em transformação. Outras causas conhecidas do declínio das SRKW são a escassez de salmão-chinook (sua presa preferida), a exposição a produtos químicos e o ruído e as interações provocados por embarcações.
Extinção à vista
Gaydos e outros cientistas deram o nome de “extinção luminosa” ao que está acontecendo com as SRKW.
“As pessoas falam dessas extinções sombrias de espécies que ninguém conhece e que simplesmente desaparecem”, disse Gaydos. “Trágico, não? Mas então existe a extinção luminosa, quando temos toda a ciência de que precisamos para fazer alguma coisa e, ainda assim, política e socialmente não conseguimos fazê-la.”
Gaydos atua na conservação em praticamente todos os níveis. Ele realiza pesquisas científicas e também defende as SRKW e a saúde do ecossistema do Mar Salish diante de políticos e formuladores de políticas públicas. Ele apresenta o Salish Sea Wild, uma série de documentários da SeaDoc Society que educa o público sobre conservação da fauna silvestre por meio de imagens envolventes, fatos fascinantes e roteiros inteligentes.
Gaydos afirma que participar da comunicação científica para além dos artigos revisados por pares deveria fazer parte do trabalho de todo cientista.
“Ficamos muito desconfortáveis em dar palestras”, disse Gaydos. “Não é isso que fazemos. Nós fazemos ciência. Mas vivemos em uma época em que qualquer pessoa que crie um site ou uma conta no Facebook se torna um especialista, enquanto os verdadeiros especialistas, aqueles que possuem dados, não aparecem para falar, seja diante do Congresso, da Assembleia Legislativa estadual ou em uma reunião do conselho municipal.”
Mentiras e consequências
Quando os cientistas que realizam pesquisas rigorosas não se apresentam para defender os fatos, cientistas e negacionistas que selecionam informações de maneira conveniente e possuem agendas próprias ganham uma base maior para atacar os fatos… com consequências devastadoras.
A distorção dos fatos contribuiu para a perda de confiança da população na ciência. Em sua palestra de 5 de junho, Gaydos discutirá como a comunidade pode combater o negacionismo e defender a fauna silvestre.
A indústria do tabaco utilizou estratégias de negacionismo científico para semear dúvidas na população sobre a relação entre o câncer de pulmão e o tabagismo. Milhões de mortes causadas por câncer de pulmão e doenças cardíacas relacionadas ao fumo poderiam ter sido evitadas se a população não tivesse sido enganada.
Essas mesmas estratégias foram utilizadas pela indústria do petróleo para negar os fatos científicos sobre as mudanças climáticas. Atualmente, as mudanças climáticas afetam seres humanos e animais em todo o planeta, em parte porque estratégias de negacionismo científico podem ter atrasado a transição dos combustíveis fósseis para fontes de energia limpa.
Histórias como essas deixam claro por que a desconfiança da população em relação aos cientistas aumentou. De acordo com uma pesquisa do Pew Research Center realizada em 2023, a confiança nos cientistas diminuiu 14% entre os adultos norte-americanos desde o início da pandemia de COVID-19.
Quando líderes da indústria utilizam a ciência para distorcer fatos e as pessoas perdem a confiança na ciência, afirmou Gaydos, torna-se difícil utilizar descobertas científicas para tomar decisões — inclusive decisões que poderiam contribuir para conservar o Mar Salish e ajudar na recuperação das SRKW.
