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Na extrema direita, longe da normalização: qual é a posição de Marine Le Pen na União Europeia?
Extrema Direita

Na extrema direita, longe da normalização: qual é a posição de Marine Le Pen na União Europeia?

Marine Le Pen, líder do partido de extrema direita Reunião Nacional (RN), é a favorita na disputa pela Presidência da França no próximo ano. Embora tenha tornado seu partido mais aceitável para os eleitores franceses, seu histórico de votações no Parlamento Europeu indica que os responsáveis pelas políticas da União Europeia não devem esperar uma moderação

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Via Europe Policy Centre

Tempo de leitura: 8 minutos.

A líder da extrema direita francesa, Marine Le Pen, lançará sua campanha presidencial em um congresso do partido no dia 25 de outubro. Faltando seis meses para a eleição, que terá dois turnos, em 18 de abril e 2 de maio de 2027, ela é atualmente a favorita para se tornar a próxima presidente da França. Le Pen aparece muito à frente nas pesquisas em relação a todos os demais candidatos, da esquerda, da direita e do centro, e é inclusive considerada a mais competente entre eles.

Isso se deve, em parte, à estratégia de desdemonização adotada há mais de uma década pelo partido de Le Pen, o Reunião Nacional (RN), para parecer mais moderado e respeitável e atrair eleitores dos partidos tradicionais de direita.

Nos últimos anos, o RN abandonou algumas de suas propostas mais radicais, como a saída da zona do euro ou um Frexit completo. Agora, o partido promete respeitar as regras da União Europeia sobre déficits. No entanto, em seu programa para as eleições europeias de 2024, propôs uma “nova organização institucional” para criar uma aliança de nações. Na preparação para as eleições de 2027, Le Pen já prometeu convocar um referendo para rejeitar a primazia do direito da União Europeia sobre a legislação migratória francesa e reduzir em € 11 bilhões anuais a contribuição da França para a UE, ao mesmo tempo que promete agir de maneira “construtiva”.

O RN tem procurado conciliar sua estratégia de conquistar espaço no campo político tradicional com a manutenção de seu euroceticismo. Para avaliar o posicionamento político de longo prazo do partido, o EPC e o Eulytix analisaram seu histórico de votações no Parlamento Europeu desde 2019, utilizando os registros de votações nominais sobre emendas e textos finais. Os resultados mostram que o RN continua enraizado na extrema direita. A aproximação crescente com o grupo dos Conservadores e Reformistas Europeus (ECR) não foi acompanhada por uma convergência com o Partido Popular Europeu (PPE), grupo que ocupa o centro das decisões políticas da UE.

O histórico de votações do RN no período de 2019 a 2026 mostra que o partido está firmemente ancorado na extrema direita: primeiro, no grupo Identidade e Democracia (ID), entre 2019 e 2024, e, desde 2024, no grupo Patriotas pela Europa (PfE).

O partido de Le Pen votou em alinhamento com outras delegações do PfE em 81% das votações durante a atual legislatura. Dentro do grupo, suas posições são mais próximas das dos partidos de oposição da direita radical: o Chega, de Portugal, e o Vlaams Belang, da Bélgica (78% cada), seguidos pela Konfederacja, da Polônia (76%). O alinhamento também é elevado com a Lega, da Itália (75%), e o Vox, da Espanha (74%), ambos participantes de governos regionais ou nacionais. Em contrapartida, o RN apresenta menor alinhamento com o ANO, da República Tcheca (69%), e o Fidesz, da Hungria (66%). Ambos já ocuparam assentos no Conselho Europeu e no Conselho de Ministros, o que lhes dá maiores incentivos para apoiar compromissos negociados.

Fora do PfE, o RN apresenta maior alinhamento com a Europa das Nações Soberanas (ESN) e com o ECR, coincidindo com cada um desses grupos em 69% das votações. A ESN foi criada em 2024 como um grupo dissidente liderado pela Alternativa para a Alemanha (AfD), depois que o RN se recusou a continuar aliado ao partido alemão, considerando-o radical demais.

A convergência entre o RN e o ECR é recente e de alcance limitado. Na legislatura anterior, entre 2019 e 2024, o partido de Le Pen votou em sintonia com o ECR em 56% dos casos. No entanto, o aumento de 13 pontos percentuais desde 2024 permanece abaixo da média de 18 pontos registrada pelas outras cinco delegações que fizeram parte tanto do ID quanto do PfE. Entre as seis delegações do ID/PfE, o RN ocupa apenas o quinto lugar em alinhamento com o ECR. O partido de Le Pen não lidera uma aproximação com o ECR; está seguindo outras delegações em meio à atual guinada ideológica à direita do Parlamento Europeu.

Figura 2: Alinhamento do RN com o ECR, a ESN e o PPE por área temática (medido pela porcentagem de votações semelhantes).

A análise dos dados por área temática mostra que, embora o RN esteja convergindo com o ECR, continua ideologicamente próximo da ESN. Quando o ECR e a ESN concordam, o RN vota com ambos em 82% dos casos. Isso ocorre especialmente nas questões relacionadas aos valores da UE, nas quais os grupos apresentam votações semelhantes sobre o Relatório Anual do Estado de Direito.

Quando os dois grupos divergem, o RN tende a se alinhar um pouco mais frequentemente à ESN (44%) do que ao ECR (40%), enquanto não assume nenhuma das duas posições nos 16% restantes das votações. O partido vota com a ESN em questões como o alargamento da UE, conflitos envolvendo países terceiros (principalmente a guerra na Ucrânia) e segurança e defesa. Já em outros temas, como igualdade de gênero, privacidade e proteção de dados, além da legislação sobre concorrência, suas posições se aproximam mais das do ECR.

Reproduzindo o padrão observado dentro do PfE, o RN apresenta maior alinhamento com os partidos do ECR que estão na oposição, como o Lei e Justiça (PiS), da Polônia (69%), do que com partidos que atualmente integram governos, como o Irmãos da Itália (FdI), da primeira-ministra Giorgia Meloni (66%), e a Nova Aliança Flamenga, do primeiro-ministro belga Bart De Wever (51%).

Enquanto isso, o RN vem se afastando ainda mais da centro-direita. O alinhamento com o PPE, que já era baixo na legislatura anterior (41%), caiu para pouco menos de 34% desde 2024. A distância é maior em questões como valores da UE (7% de alinhamento), clima (9%), acordos comerciais multilaterais (4%), conflitos envolvendo países terceiros (13%), alargamento da UE (18%) e política energética (19%). Embora o RN tenha se aproximado um pouco do ECR — frequentemente considerado um guardião da possível normalização da extrema direita —, continua claramente distante da corrente política majoritária europeia.

De modo geral, embora o RN tenha procurado se apresentar internamente como um partido de governo confiável, seu histórico de votações no Parlamento Europeu mostra que essa normalização não se estendeu ao nível da União Europeia. Seu alinhamento crescente com o ECR coincidiu com uma queda ainda maior da convergência com o PPE. Somado às suas propostas de contestar a primazia do direito da UE sobre a política migratória e de reformular a arquitetura institucional da União, esse histórico oferece aos responsáveis pelas políticas europeias poucos motivos para esperar que a normalização no cenário político francês se traduza em uma postura de acomodação no âmbito europeu.Imagem

Nossa análise oferece poucos elementos para sustentar a expectativa de que, caso seja eleita presidente da França, Marine Le Pen seguirá o caminho de Giorgia Meloni: uma líder de extrema direita que, depois de chegar ao poder, se aproxima da corrente política majoritária da UE e passa a ser considerada uma parceira confiável. O histórico do RN no Parlamento Europeu aponta na direção oposta. Isso fica particularmente evidente quando comparamos seu comportamento nas votações com o do partido de Meloni, o FdI, nos anos que antecederam sua chegada ao poder na Itália, em 2022.

Entre 2019, quando ingressou no Parlamento Europeu, e 2022, o FdI votou em alinhamento com o PPE em 58% dos casos — 24 pontos percentuais a mais do que o RN apresenta atualmente. Embora a distância do FdI em relação à direita tradicional ainda fosse significativa, era, portanto, mais fácil para o partido e para Meloni superá-la do que seria para o RN e Le Pen após uma eventual vitória nas eleições francesas de 2027. Além disso, o FdI votou com a maioria do Parlamento em 49,8% dos casos, contra apenas 35,1% do RN atualmente.

Marine Le Pen anunciou que pretende promover um confronto direto em torno do orçamento e da arquitetura institucional da UE. Caso passe a integrar o Conselho Europeu em 2027, no entanto, provavelmente enfrentará dificuldades para construir apoio ao modelo de União Europeia que defende, embora ainda possa tornar mais difícil a construção de acordos coletivos.

O histórico do partido indica uma oposição persistente aos compromissos que sustentam a corrente política majoritária europeia. Qualquer interlocução com uma eventual presidência de Le Pen precisaria distinguir o pragmatismo tático de uma verdadeira normalização — e preparar-se para uma França mais disposta a contestar a União Europeia por dentro.

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