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Como a extrema direita roubou o Natal
Antifascismo

Como a extrema direita roubou o Natal

As tradições sazonais e o clima de confraternização estão sendo reaproveitados para servir a fins políticos

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Via Politico

Tempo de leitura: 7 minutos.

O Natal está se tornando uma nova linha de frente nas guerras culturais da Europa.

Partidos de extrema direita estão reivindicando a temporada festiva como algo próprio, reinterpretando o Natal como um marcador da civilização cristã que estaria sob ameaça e se posicionando como sua última linha de defesa contra uma suposta esquerda secular hostil.

O discurso ecoa um refrão já conhecido do outro lado do Atlântico, inicialmente difundido pela Fox News, onde apresentadores denunciam há anos uma suposta “guerra contra o Natal”. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirma ter “trazido de volta” a expressão “Feliz Natal” no país, enquadrando-a como um ato de desafio ao politicamente correto. Agora, partidos de extrema direita europeus, antes mais focados em imigração ou em pautas de lei e ordem, adotaram linguagem semelhante, transformando o Natal no mais recente campo de batalha de uma disputa cultural mais ampla.

Na Itália, a primeira-ministra Giorgia Meloni fez da defesa das tradições natalinas um elemento central de sua identidade política. Repetidamente, ela enquadrou o feriado como parte de um patrimônio nacional ameaçado, atacando o que chama de tentativas “ideológicas” de diluí-lo.

“Como a minha cultura pode ofender você?”, perguntou Meloni no passado, ao defender presépios em espaços públicos. Ela argumentou que as crianças deveriam aprender os valores da Natividade — em vez de associar o Natal apenas a comida e presentes — e rejeitou a ideia de que tradições de longa data devam ser alteradas. Neste ano, Meloni disse que se absteve de beber álcool até o Natal, apresentando-se como alguém que pratica a espiritualidade e a tradição.

O Reagrupamento Nacional, na França, e o Vox, na Espanha, também se opuseram a iniciativas secularistas ou “woke” que substituem imagens religiosas por uma linguagem sazonal neutra, e defenderam a presença de presépios em prefeituras. Na Alemanha, a Alternativa para a Alemanha (AfD) advertiu que os mercados de Natal estariam perdendo seu “caráter alemão”, amplificando desinformação sobre tradições muçulmanas supostamente substituindo as cristãs.

Espetáculo natalino

Mas o partido de Meloni, Irmãos da Itália, transformou a mensagem em espetáculo. Todo mês de dezembro, ele organiza um festival político com tema natalino — completo com Papai Noel, pista de patinação no gelo e uma imponente árvore de Natal iluminada com as cores do tricolor italiano.

Antes realizado discretamente no fim do verão, o evento, chamado Atreyu — em referência a um personagem do filme de fantasia A História Sem Fim — foi transferido para o prestigiado Castel Sant’Angelo, atraindo famílias, turistas e curiosos por política. O Irmãos da Itália afirmou em seu canal no WhatsApp que o festival foi “um sucesso sem precedentes. Números recordes, participação real e uma comunidade que cresce ano após ano, demonstrando como se tornou forte, como a Itália”.

Daniel, um turista de 26 anos de Mallorca, que preferiu não revelar o sobrenome por não querer ser associado a um evento político de extrema direita, disse que ele e um amigo entraram por acaso ao verem as luzes e a música. “Depois percebemos que era sobre política”, disse ele, rindo.

Cristianismo cultural

Para dirigentes do partido, o simbolismo é explícito. “Para nós, as tradições representam nossas raízes, quem somos, quem fomos e a história que nos fez ser o que somos hoje”, disse Marta Schifone, deputada do Irmãos da Itália. “Essas raízes precisam ser celebradas e absolutamente defendidas.”

Essa mensagem também ressoa entre apoiadores mais jovens. Alessandro Meriggi, estudante e dirigente da Azione Universitaria, o braço juvenil do partido, afirmou que a Itália se baseia em valores específicos que os recém-chegados devem respeitar. “Em um país como a Itália, não se pode pedir às escolas que retirem o crucifixo”, disse. “Ele representa nossos valores.”

A religião, no entanto, muitas vezes parece quase secundária. Muitos dos políticos que lideram essas campanhas não são especialmente devotos, e apenas uma minoria de seus eleitores é cristã praticante. O que importa é o cristianismo como cultura — um atalho civilizacional que traça uma fronteira entre “nós” e “eles”.

“Nas décadas de 1980 e 1990, a direita radical manteve em grande medida distância da Igreja”, disse Daniele Albertazzi, professor da Universidade de Surrey que pesquisa o populismo. “Isso mudou entre 2010 e 2015, após os atentados terroristas islâmicos na Europa, que foram enquadrados como um choque de civilizações. O cristianismo tornou-se um marcador cultural, uma forma de se apresentarem como defensores da família tradicional, da tradição e da identidade.”

Organizar um festival de Natal é uma jogada “muito inteligente” do partido de Meloni, disse ele. “Eles tentaram reverter o estigma de seu passado [na extrema direita], tornando-se um partido conservador moderno e amplo, e isso faz parte dessa repaginação.”

Essa estratégia se beneficia do desconforto da esquerda com a religião na vida pública. Partidos e instituições progressistas, incluindo a União Europeia, têm buscado enfatizar a inclusão usando expressões neutras como “temporada de festas”, o que, para a extrema direita, equivale a autodepreciação cultural. Na Itália, neste ano, a Liga e o Irmãos da Itália atacaram várias escolas que removeram referências religiosas de canções de Natal. Em Gênova, partidos de direita acusaram a prefeita de esquerda da cidade de dar um “tapa na cara da tradição” após ela optar por não exibir um presépio em seus gabinetes.

“Não temos vergonha de dizer ‘Feliz Natal’”, afirmou Lucio Malan, senador do Irmãos da Itália, no festival de Meloni. “Sempre promovi a liberdade religiosa e sei que nem todos são cristãos. Mas o Natal é o feriado com o qual as pessoas mais se importam. Não vamos esquecer suas origens.”

A ironia, observam críticos, é que muitas tradições natalinas são relativamente modernas, moldadas tanto pelo comércio quanto pela religião. Ainda assim, o Natal permanece politicamente potente justamente por ser emotivo, ligado a rituais familiares, memórias de infância e identidade local.

Para o governo de Meloni, apropriar-se do Natal se encaixa em um projeto mais amplo de retomar o controle de instituições culturais — da radiodifusão pública a museus e óperas — após o que considera décadas de domínio da esquerda. A narrativa da extrema direita como defensora do Natal representa um desafio para partidos tradicionais, que têm dificuldade em encontrar um contra-argumento convincente para defender o secularismo.

E em nenhum lugar isso fica mais claro do que no próprio festival de Natal do Irmãos da Itália. Quando o crepúsculo cai sobre o Castel Sant’Angelo, famílias patinam ao som de músicas pop natalinas, crianças posam para fotos com o Papai Noel, e turistas entram, atraídos pelas luzes e pela música mais do que pela ideologia. A política está presente, mas suavizada, envolta em nostalgia, tradição e alegria típica da estação.

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