Como a Rússia passou a se ver como a “salvadora antifascista” da Europa
A vitória russa simbolizou o consenso antifascista do pós-guerra, fundado sobre uma amnésia seletiva — que convenientemente ignorou, por exemplo, a ampla colaboração com os invasores nazistas
Quando, exatamente, terminou a Segunda Guerra Mundial? A resposta depende de onde você é. A guerra terminou oficialmente nas primeiras horas de 7 de maio de 1945, quando o general Alfred Jodl assinou a rendição incondicional da Alemanha no quartel-general aliado em Reims, com efeito a partir do dia seguinte. Milhares foram às ruas em Londres, Nova York e outras cidades para celebrar.
No entanto, em 8 de maio, a cerimônia foi repetida em Berlim, na presença do marechal soviético Georgy Zhukov e de representantes dos demais países aliados. A paz passou a vigorar a partir do dia seguinte. O Exército Vermelho havia conquistado a capital alemã, e presumia-se que teria primazia simbólica.
Nas décadas seguintes, celebrar a vitória em 8 ou 9 de maio passou a simbolizar a divisão entre Leste e Oeste.
No Ocidente, 8 de maio passou a representar a vitória sobre o fascismo, alcançada pelos exércitos aliados e pela resistência aos nazistas. Essa vitória simbolizou o consenso antifascista do pós-guerra, fundado sobre uma amnésia seletiva — que convenientemente ignorou, por exemplo, a ampla colaboração com os invasores nazistas, da França à Noruega.
Para a Alemanha, especialmente na República Federal da Alemanha desde 1949 (quando o país foi dividido em Leste e Oeste), a data era marcada pela tristeza. Somente em 1985 o então presidente Richard von Weizsäcker reconheceu que a Alemanha havia sido libertada do fascismo em 8 de maio, em meio à destruição e ao luto causados pelo Terceiro Reich. A partir daí, a data passou a ser um momento de aprendizado com o passado.
A sociedade italiana, confortavelmente abrigada na narrativa antifascista, considerou a vitória como sua. Após a destituição de Mussolini em julho de 1943 e a subsequente invasão alemã, o mito da resistência contra o invasor apagou memórias incômodas.
A memória soviética
Na União Soviética, o 9 de maio foi celebrado em diferentes frentes. Era o dia da vitória sobre o fascismo, o dia em que a URSS triunfou sobre um inimigo que buscava aniquilá-la, e o dia em que salvou a Europa do fascismo. No entanto, Stálin temia que a memória da vitória fortalecesse o povo soviético, que havia sofrido mortes em massa tanto pelas mãos dos invasores quanto pelos erros graves de seu comandante-chefe e pela repressão brutal interna. A partir de 1947, a data deixou de ser feriado.
Somente em 1965 o 9 de maio voltou a ser feriado nacional, mas passou a comemorar a vitória de uma nova nação soviética — não as vítimas. Maio de 1945 substituiu outubro de 1917 como a verdadeira data fundadora da nova URSS, pois marcou o fim da “Grande Guerra Patriótica”.
Assim como a narrativa ocidental da vitória, essa memória também se baseou em omissões convenientes, como a colaboração de amplos setores da sociedade soviética com os invasores, as vítimas da repressão stalinista, o pacto germano-soviético de 1939 e a ocupação dos países bálticos e da Carélia.
Antes de 1965, grandes memoriais dedicados ao Exército Vermelho já haviam sido construídos na Europa Oriental libertada, mas depois se espalharam por toda a União Soviética. As diversas repúblicas populares da Europa Centro-Oriental celebravam o 9 de maio junto às datas em que seus países foram libertados pelo Exército Vermelho. No entanto, novamente alguns elementos foram apagados da memória: o Exército da Pátria e a insurreição de agosto de 1944 na Polônia, bem como a participação da Eslováquia, Hungria e Romênia na invasão da URSS.
O antifascismo para justificar a guerra
Após o fim da Guerra Fria, os desacordos em torno do 9 de maio foram apenas a ponta do iceberg nas disputas sobre a memória histórica. Para muitos, o 9 de maio é um dia de luto, que marca a substituição de uma força ocupante por outra. Ucrânia e outros países passaram a comemorar o fim da guerra em 8 de maio, destacando seu início em setembro de 1939. Isso foi acompanhado por iniciativas inspiradas nas políticas de memória ocidentais, como a adoção das papoulas na Ucrânia em 2015.
Desde meados da década de 1990, a Rússia atribui grande importância histórica ao 9 de maio — a vitória sobre Hitler é considerada por muitos russos a maior conquista histórica do país no século XX. Além disso, desde o início da era Putin, o 9 de maio tornou-se um símbolo central da estratégia memorial do regime. Um grande desfile é realizado, durante o qual a bandeira soviética é hasteada como bandeira da vitória.
Os discursos de Putin nessas ocasiões lembram, no tom, os da era Brejnev: o 9 de maio é apresentado como a comemoração da vitória do povo russo/soviético — a URSS é lembrada com nostalgia — cujo sacrifício salvou toda a Europa do fascismo. Trata-se de um feito heroico, vilipendiado por um Ocidente ingrato e por algumas ex-repúblicas soviéticas.
Esses temas tornaram-se ainda mais pronunciados desde fevereiro de 2022, quando o Kremlin passou a explorar estrategicamente a retórica antifascista para justificar sua invasão da Ucrânia.
A importância de lembrar
Em tempos de crescimento do autoritarismo, é importante comemorar o oitogésimo aniversário da derrota do nazismo e celebrar a restauração da democracia e dos direitos humanos em toda a Europa. Os gestos tímidos da União Europeia e as comemorações nacionais da queda do fascismo — como 25 de abril na Itália — estão hoje sendo questionados pela extrema direita.
Ainda assim, recordar a dimensão da derrota do fascismo no continente só pode ser uma fonte de esperança. Isso serve como um poderoso lembrete de que a democracia deve ser defendida coletivamente e de que é preciso aprender com os erros do passado. Como disse Mark Twain: “A história não se repete, mas muitas vezes rima.”
