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A crise política da Romênia se aprofunda
Extrema Direita

A crise política da Romênia se aprofunda

Após a queda do governo do primeiro-ministro Ilie Bolojan, os partidos moderados têm enfrentado dificuldades — abrindo espaço para que a extrema direita ganhe terreno

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Tempo de leitura: 6 minutos.

A coalizão de quatro partidos que governou a Romênia do verão de 2025 até poucas semanas atrás era vista por muitos como a última chance do país de impedir que a extrema direita chegasse ao poder. Esperava-se que uma administração sólida e reformas consistentes mantivessem os extremistas sob controle.

No entanto, essa estratégia parece ter fracassado. Os extremistas de direita da Romênia estão em alta nas pesquisas de opinião, enquanto os partidos moderados permanecem atolados em disputas políticas. Já se passaram três semanas desde que o governo do primeiro-ministro liberal Ilie Bolojan entrou em colapso após seu próprio campo político lançar uma moção de censura, e nenhum dos partidos moderados conseguiu até agora chegar a um acordo sobre quem deverá sucedê-lo — apesar dos esforços do presidente Nicușor Dan para mediar as negociações.

Mas isso não é tudo. Embora o governo Bolojan permaneça formalmente em funções até ser substituído, os sociais-democratas romenos (PSD), que possuem o maior número de cadeiras no Parlamento e supostamente apoiam a União Europeia, estão colaborando cada vez mais com a Aliança para a União dos Romenos (AUR), partido de extrema direita. De fato, a cientista política Raluca Alexandrescu afirma que a Romênia está testemunhando uma “normalização do extremismo de direita”.

A extrema direita representa um perigo para a Romênia e para a Europa

Uma grande reviravolta poderia ocorrer caso a AUR, partido pró-Rússia, anti-Ucrânia e anti-União Europeia, chegasse ao poder ou mesmo passasse a desempenhar um papel de apoio em um governo minoritário romeno.

Afinal, a Romênia é o sexto maior país da União Europeia e o membro mais importante da OTAN no sudeste europeu. O país abriga algumas das maiores e mais importantes bases da aliança militar na região. Além disso, possui a fronteira mais extensa da União Europeia com a Ucrânia e tem apoiado consistentemente o país na sua resistência à invasão russa.

A votação de desconfiança de maio, iniciada pelo PSD em conjunto com a AUR, foi uma evidência de que uma perigosa normalização da extrema direita está em curso. Vale lembrar que o PSD fazia parte da própria coalizão governamental de Bolojan.

Embora já tenham ocorrido colaborações anteriores entre partidos moderados e extremistas de direita no Parlamento romeno, esta foi a primeira vez que eles uniram forças para derrubar um governo. Foi o momento em que o chamado “cordão sanitário” contra a extrema direita desmoronou.

Embora o PSD afirme frequentemente que não pretende formar uma aliança com a AUR, suas ações sugerem outra realidade. Em meados de maio, o PSD juntou-se aos três partidos de extrema direita do país para apoiar, na Comissão de Direitos Humanos do Parlamento, um projeto legislativo que revogaria a proibição da propaganda antissemita, fascista e racista. A iniciativa provocou indignação pública, levando o PSD a recuar, enquanto o líder do partido, Sorin Grindeanu, alegou tratar-se apenas de um “descuido”.

Na semana passada, PSD e AUR voltaram a votar juntos, desta vez no Senado, em favor de uma lei sobre organizações não governamentais inspirada no modelo de Vladimir Putin e Viktor Orbán. Pela nova proposta, as ONGs devem divulgar os nomes de doadores que contribuam com mais de mil euros por ano. Centenas de organizações protestaram contra o projeto, até agora sem sucesso. As ONGs que atuam na Romênia já estão sujeitas a rigorosas regras de transparência.

No fim de maio, o PSD também votou ao lado da extrema direita a favor da chamada lei “Não estamos vendendo nossa terra”, destinada a impedir a venda de participações minoritárias em empresas estatais. O nome da lei remete, aliás, a um slogan nacionalista dos anos 1990.

O projeto foi inicialmente apresentado pelo governo Bolojan para aumentar a eficiência e a transparência de empresas estatais suspeitas de corrupção, além de gerar receitas para os cofres públicos, atualmente sob forte pressão.

O símbolo da corrupção romena

É bastante simbólico que o PSD tenha apoiado a lei “Não estamos vendendo nossa terra”, já que esse slogan remonta ao período pós-comunista, quando foi utilizado pela organização que antecedeu o partido para justificar a repressão violenta contra manifestantes anticomunistas, ativistas dos direitos civis e partidos de oposição.

Foi o PSD que governou o país após a queda do ditador comunista Nicolae Ceaușescu, em 1989. Inicialmente conhecido como Frente de Salvação Nacional (FSN), o partido mais tarde adotou a sigla PSD. Até hoje, nunca pediu desculpas por seu papel naquele período.

Muitos ex-dirigentes do regime de Ceaușescu, agentes da polícia secreta Securitate e diretores de empresas estatais ingressaram no PSD após o colapso do regime comunista, garantindo que as antigas elites permanecessem no poder após 1989-1990. Por isso, o partido tornou-se o símbolo da corrupção romena. Embora se autodefina como social-democrata, sua orientação ideológica é descrita como nacional-populista de direita. Não surpreende, portanto, que já tenha governado ao lado de partidos ultranacionalistas e extremistas nos anos 1990.

Diversos outros partidos democráticos também contribuíram para legitimar a extrema direita nos últimos anos. Entre eles está a União Salve a Romênia (USR), de perfil liberal, que se uniu à AUR em uma tentativa de derrubar o governo em setembro de 2021, embora a votação nunca tenha ocorrido. Ainda assim, esse episódio foi considerado um passo importante na normalização dos extremistas.

Atualmente, os três partidos de extrema direita da Romênia — a AUR, o SOS Romênia e o Partido dos Jovens (POT) — controlam cerca de 35% das cadeiras em ambas as casas do Parlamento. Sozinha, a AUR poderia obter 32% dos votos, segundo pesquisas recentes, ficando bem à frente do PSD, o segundo partido mais popular, com 24%.

Por isso, eleições antecipadas não interessam aos partidos democráticos do país. Ainda assim, observadores temem que a crise política em curso e as manobras do PSD fortaleçam ainda mais a extrema direita até as eleições parlamentares previstas para o final de 2028.

“O PSD cooperando com a AUR é um erro estratégico grave que pode transformar a crise governamental em uma crise sistêmica”, alerta o cientista político Cristian Pîrvulescu.

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