Os extremistas de extrema direita vêm se organizando online desde antes da internet – e a IA é sua próxima fronteira
A influência da extrema direita nas mudanças tecnológicas ao longo dos últimos anos
Como a sociedade pode policiar a disseminação global do extremismo de extrema direita online e, ao mesmo tempo, proteger a liberdade de expressão? Essa é uma questão que os formuladores de políticas e as organizações de vigilância enfrentaram já nas décadas de 1980 e 1990 — e que ainda não foi resolvida.
Décadas antes da inteligência artificial, do Telegram e das transmissões ao vivo do nacionalista branco Nick Fuentes, os extremistas de extrema direita abraçaram os primórdios da informática doméstica e da internet. Essas novas tecnologias ofereceram a eles um bastião de liberdade de expressão e uma plataforma global. Eles podiam compartilhar propaganda, espalhar ódio, incitar a violência e ganhar seguidores internacionais como nunca antes.
Antes da era digital, os extremistas de extrema direita radicalizavam uns aos outros principalmente usando propaganda impressa. Eles escreviam seus próprios boletins informativos e reimprimiam panfletos de extrema direita, como “Mein Kampf”, de Adolf Hitler, e “The Turner Diaries”, do neonazista americano William Pierce, uma obra de ficção distópica que descreve uma guerra racial. Em seguida, enviam essa propaganda por correio para apoiadores no país e no exterior.
Sou um historiador que estuda neonazistas e extremismo de extrema direita. Como mostra minha pesquisa, a maior parte da propaganda neonazista confiscada na Alemanha entre as décadas de 1970 e 1990 veio dos Estados Unidos. Os neonazistas americanos exploraram sua liberdade de expressão sob a Primeira Emenda para contornar as leis de censura alemãs. Os neonazistas alemães então pegaram essa propaganda impressa e a distribuíram por todo o país.
No entanto, essa estratégia não era infalível. A propaganda impressa podia se perder no correio ou ser confiscada, especialmente ao cruzar a fronteira com a Alemanha. Produzi-la e enviá-la também era caro e demorado, e as organizações de extrema direita tinham falta crônica de pessoal e dinheiro.
A digitalização
Os computadores, que entraram no mercado de massa em 1977, prometiam ajudar a resolver esses problemas. Em 1981, Matt Koehl, chefe do Partido Nacional Socialista dos Brancos nos Estados Unidos, solicitou doações para “ajudar o partido a entrar na era dos computadores”. O neonazista americano Harold Covington implorou por uma impressora, um scanner e um “PC potente” que pudesse rodar o software de processamento de texto WordPerfect. “Nossos inimigos multifacetados já possuem essa tecnologia”, observou ele, referindo-se aos judeus e aos funcionários do governo.
Logo, extremistas de extrema direita descobriram como conectar seus computadores uns aos outros. Eles fizeram isso usando sistemas de boletins eletrônicos online, ou BBSes, um precursor da internet. Um BBS era hospedado em um computador pessoal, e outros computadores podiam se conectar ao BBS usando um modem e um programa de software de terminal, permitindo que os usuários trocassem mensagens, documentos e software.
Com os BBSes, qualquer pessoa interessada em acessar propaganda de extrema direita podia simplesmente ligar o computador e discar para o número de telefone anunciado por uma organização. Uma vez conectados, eles podiam ler as postagens públicas da organização, trocar mensagens e fazer upload e download de arquivos.
O primeiro sistema de quadro de avisos de extrema direita, o Aryan Nations Liberty Net, foi criado em 1984 por Louis Beam, um membro de alto escalão da Ku Klux Klan e da Aryan Nations. Beam explicou: “Imagine, se puder, um único computador ao qual todos os líderes e estrategistas do movimento patriótico estão conectados. Imagine ainda que qualquer patriota do país pode acessar esse computador à vontade para colher os benefícios de todo o conhecimento e sabedoria acumulados pelos líderes. ‘Um dia’, você pode dizer? Que tal hoje?”
Então surgiram os violentos jogos de computador neonazistas. Neonazistas nos Estados Unidos e em outros lugares podiam fazer upload e download desses jogos por meio de sistemas de boletins eletrônicos, copiá-los em discos e distribuí-los amplamente, especialmente para crianças em idade escolar.
No jogo de computador alemão KZ Manager, os jogadores assumiam o papel de um comandante em um campo de concentração nazista que assassinava judeus, sintis e roma, além de imigrantes turcos. Uma pesquisa realizada no início da década de 1990 revelou que 39% dos estudantes do ensino médio austríacos conheciam esses jogos e 22% já os tinham visto.
A chegada da web
Em meados da década de 1990, com a introdução da World Wide Web, mais fácil de usar, os fóruns perderam popularidade. O primeiro grande site de ódio racial na internet, o Stormfront, foi fundado em 1995 pelo supremacista branco americano Don Black. A organização de direitos civis Southern Poverty Law Center descobriu que quase 100 assassinatos estavam ligados ao Stormfront.
Em 2000, o governo alemão descobriu e baniu mais de 300 sites alemães com conteúdo de extrema direita — um aumento de dez vezes em apenas quatro anos.
Em resposta, os supremacistas brancos americanos voltaram a explorar seus direitos de liberdade de expressão para contornar as proibições da censura alemã. Eles deram aos extremistas internacionais de extrema direita a oportunidade de hospedar seus sites com segurança e anonimato em servidores americanos não regulamentados — uma estratégia que continua até hoje.
Próxima etapa: IA
A próxima fronteira para os extremistas de extrema direita é a IA. Eles estão usando ferramentas de IA para criar propaganda direcionada, manipular imagens, áudio e vídeos e evitar a detecção. A rede social de extrema direita Gab criou um chatbot de Hitler com o qual os usuários podem conversar.
Os chatbots de IA também estão adotando as visões de extrema direita dos usuários de mídias sociais. Grok, o chatbot do X de Elon Musk, recentemente se autodenominou “MechaHitler”, proferiu discursos de ódio antissemitas e negou o Holocausto.
Combate ao extremismo
Combater o ódio online é uma necessidade global. Isso requer uma cooperação internacional abrangente entre governos, organizações não governamentais, organizações de vigilância, comunidades e empresas de tecnologia.
Os extremistas de extrema direita há muito tempo são pioneiros em maneiras inovadoras de explorar o progresso tecnológico e a liberdade de expressão. Os esforços para combater essa radicalização enfrentam o desafio de estar um passo à frente dos avanços tecnológicos da extrema direita.
