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Antifascismo social contra a fascistização neoliberal
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Antifascismo social contra a fascistização neoliberal

À medida que a grande coalizão da Alemanha lança as bases do autoritarismo, o Die Linke precisa se preparar para agir contra uma coalizão de direita emergente

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Via Rosa Luxemburg Stiftung

Tempo de leitura: 9 minutos.

O capitalismo está mudando diante de nossos olhos. No neoliberalismo tardio, um período marcado pela instabilidade e por crises permanentes, os desdobramentos políticos ameaçam romper o molde da democracia liberal. A ascensão do nacionalismo de direita em todo o Ocidente pôs fim ao que Nancy Fraser chamou de “neoliberalismo progressista”. O projeto liberal de um “capitalismo verde” chegou ao seu limite, com a modernização ecológica fracassando em estimular o crescimento. O que temos, em vez disso, é uma “transformação bloqueada”.

Lia Becker é pesquisadora sênior do Centro de Análise Social e Política e Educação Política da Fundação Rosa Luxemburgo, em Berlim.

Nos Estados Unidos, na Itália e na Argentina, estão surgindo novas sínteses de neoliberalismo autoritário e fascismo. Esses exemplos não representam simplesmente o retorno do fascismo histórico. O que estamos vendo, na verdade, é um laboratório transnacional de projetos autoritários e antidemocráticos de construção do Estado. Diante de múltiplas crises, partes do bloco de poder neoliberal buscam construir uma ordem social e estatal restauradora e reacionária. Trata-se de um processo de “experimentação”, cujo resultado — em termos das formas antigas e novas de dominação que emergirão (em diferentes Estados e regiões) — permanece em aberto. As forças neofascistas são uma parte minoritária dessa constelação (por enquanto), mas representam uma ameaça crescente. Precisamos compreender essa nova realidade. O cerne da “fascistização” é que ainda não estamos lidando com um fascismo aberto. Os termos “fascismo incipiente” e “fascistização (do neoliberalismo tardio)” descrevem essa zona cinzenta entre o “já não liberal-democrático” e o “ainda não fascista”.

Ao mesmo tempo, o retorno impressionante do Die Linke na última eleição alemã, tão inesperado quanto foi, reavivou a esperança no país. A polarização social ainda é possível. A esquerda precisa se preparar e se reorientar. Os próximos dez a quinze anos serão decisivos — uma aliança entre forças autoritário-neoliberais e neofascistas representa atualmente a maior ameaça. A escolha é clara: ou conseguimos construir uma base alternativa de poder e formar alianças para um projeto popular-democrático e socioecológico, conquistando uma ruptura com o neoliberalismo autoritário e um governo de esquerda antifascista, ou enfrentaremos — mais cedo ou mais tarde — a ameaça de um novo fascismo.

A última grande coalizão?

A disrupção promovida por partes do bloco de poder é um aspecto central das crises do neoliberalismo tardio. Uma convergência estratégica entre forças nacionalistas de direita e forças neoliberais autoritárias está em curso nos EUA, na União Europeia e na América Latina. Superando diferenças ideológicas, elas estão empenhadas em atacar os resquícios do Estado de bem-estar social, setores do governo e do serviço público, enfraquecer sindicatos e organizações ambientais e reprimir a social-democracia, a sociedade civil e a esquerda. Essa “destruição criativa” de partes do Estado e da sociedade deveria gerar “inovação” e uma renovação fundamental do capitalismo. Na prática (e isso é o mais importante), ela cria novas oportunidades para que as elites se enriqueçam. Exemplos desse paradigma são os cortes “com motosserra” de Milei na Argentina e o ataque “choque e pavor” do DOGE às agências governamentais dos EUA. Na Alemanha, essa corrente é representada pelas forças em torno do “Projeto Merz”, bem como pelo Partido Liberal Democrático (FDP), a Alternative für Deutschland (AfD) e comentaristas como Ulf Poschardt. Segmentos significativos da sociedade conservadora observam atentamente até onde é possível ir sem abandonar (completamente) a forma liberal de governo.

As forças da disrupção neoliberal buscam “maiorias moderadas” conservadoras sem o Partido Social-Democrata (SPD) ou os Verdes — essencialmente uma coalizão “preto-azul”, formada pela União Democrata Cristã (CDU/CSU) e a AfD (ou preto-azul-amarelo, incluindo o FDP). Nos últimos anos, a ala direita da CDU/CSU adaptou-se cada vez mais a essa ideia. Antes da eleição federal, a Alemanha já havia alcançado um ponto de inflexão no que diz respeito à convergência entre neoliberais e a direita.

Poucas semanas após o início da grande coalizão entre CDU e SPD, tudo indica que essa aliança pode ser apenas um interlúdio no caminho para uma crise política mais profunda. Friedrich Merz não conseguirá cumprir sua principal promessa (“Este país precisa voltar a funcionar”) com as políticas propostas, e os eleitores do SPD tenderão a se decepcionar em especial. Em vez disso, veremos a continuidade da dinâmica já conhecida de soluções pseudoautoritárias cada vez mais radicais para a questão migratória. Isso nos levará ainda mais fundo no caminho do “liberalismo de crise imperial” da coalizão anterior — mas com ainda mais militarização, mais cortes de gastos públicos, mais isolacionismo e “segurança interna”, e menos ação climática. Não é assim que se constrói um novo consenso. O governo já está perdendo apoio em massa. Sem resolver simultaneamente a crise social, esta provavelmente será a última grande coalizão clássica CDU-SPD. Em vez disso, tudo indica que ela catalisará desenvolvimentos autoritários.

Fascistização sem fascismo?

A “fascistização” do neoliberalismo tardio não significa um retorno simples aos regimes fascistas históricos dos anos 1920 e 1930. Em vez disso, trata-se de um processo aberto, marcado por tentativas e erros, no qual diferentes frações das classes dominantes buscam respostas autoritárias para crises estruturais profundas. O elemento central não é, por enquanto, a instauração de uma ditadura aberta, mas a erosão gradual das bases materiais, institucionais e culturais da democracia liberal.

Esse processo se expressa por meio da normalização da violência política, da criminalização de protestos, do enfraquecimento sistemático dos direitos trabalhistas, do ataque à autonomia das universidades, da mídia e do Judiciário, e da construção de inimigos internos — migrantes, pessoas racializadas, feministas, movimentos LGBTQIA+, ambientalistas e a esquerda organizada. A lógica fascistizante não depende necessariamente de camisas pardas ou golpes clássicos; ela pode operar perfeitamente dentro de marcos eleitorais formais, desde que o conteúdo democrático seja esvaziado.

Nesse sentido, o neoliberalismo tardio cria um terreno fértil para soluções autoritárias. A promessa de crescimento permanente fracassou, a mobilidade social entrou em colapso e as desigualdades atingiram níveis explosivos. Diante disso, a dominação precisa ser reorganizada por outros meios. O autoritarismo aparece como uma “solução de emergência” para manter relações de poder profundamente assimétricas.

A função da extrema direita

As forças de extrema direita desempenham um papel duplo nesse cenário. Por um lado, funcionam como ponta de lança ideológica, empurrando o debate público cada vez mais à direita, radicalizando discursos racistas, sexistas e nacionalistas. Por outro, atuam como força de choque que permite às elites neoliberais implementar políticas regressivas sob a cobertura de uma suposta “vontade popular”.

Mesmo quando não chegam diretamente ao poder, essas forças já exercem uma influência decisiva. Elas redefinem o que é considerado “aceitável”, deslocam o centro do debate político e pressionam partidos conservadores tradicionais a adotar suas pautas. O resultado é uma espiral reacionária que enfraquece tanto a social-democracia quanto o liberalismo clássico.

O papel da esquerda: ruptura ou irrelevância

Diante desse cenário, a esquerda não pode se limitar à defesa abstrata da democracia liberal existente. A simples tentativa de restaurar o status quo pré-crise está fadada ao fracasso. A tarefa histórica é outra: construir um projeto contra-hegemônico capaz de articular justiça social, democracia radical e transformação ecológica.

Isso exige uma ruptura clara com o neoliberalismo — inclusive em suas versões “progressistas”. Exige também a reconstrução de uma base social ampla, enraizada nas condições materiais da classe trabalhadora em sua diversidade real: trabalhadores precarizados, migrantes, mulheres, pessoas racializadas, juventude e setores empobrecidos da classe média.

A experiência recente mostra que avanços eleitorais da esquerda são possíveis, mas frágeis se não estiverem ancorados em organização social duradoura. Sem sindicatos combativos, movimentos sociais fortes e uma cultura política antifascista enraizada no cotidiano, vitórias eleitorais podem se converter rapidamente em derrotas estratégicas.

Antifascismo como projeto social

O antifascismo do século XXI não pode ser apenas defensivo. Ele precisa ser social, material e democrático. Isso significa lutar não apenas contra grupos neofascistas, mas contra as condições que tornam sua ascensão possível: insegurança econômica, desintegração social, autoritarismo estatal e desespero político.

Um antifascismo consequente é inseparável de um projeto eco-socialista, feminista e antirracista. Ele precisa oferecer respostas concretas à crise da reprodução social, à crise climática e à crise de sentido que atravessa o capitalismo contemporâneo. Sem isso, a extrema direita continuará explorando medos reais com soluções falsas.

Conclusão: um momento decisivo

Estamos vivendo um momento de bifurcação histórica. O neoliberalismo tardio entrou em uma fase terminal, mas o que virá depois ainda está em disputa. A fascistização não é inevitável, mas é uma possibilidade real — e crescente. Evitá-la exige organização, clareza estratégica e coragem política.

A alternativa não é entre neoliberalismo liberal e neoliberalismo autoritário. A alternativa é entre barbárie e transformação. Entre uma restauração reacionária e um projeto democrático-popular capaz de abrir novos horizontes de emancipação social.

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