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“Clubes fitness” paramilitares. Cruzadas anti-trans. A extrema direita está aqui
Cultura e Esporte

“Clubes fitness” paramilitares. Cruzadas anti-trans. A extrema direita está aqui

O nacionalismo branco está ganhando terreno no Canadá

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Via The Walrus

Tempo de leitura: 11 minutos.

Homens brancos vestidos de preto permanecem em posição de sentido. Eles entoam palavras de ordem e seguram faixas grosseiras com dizeres como “D.E.I. É COMO AS NAÇÕES MORREM” e “DEPORTAÇÕES EM MASSA JÁ”. Um homem grita ao megafone sobre “sangue estrangeiro” e sobre “retomar a nossa nação”, enquanto seus seguidores repetem as palavras “honra”, “herança” e “triunfo”.

Essa cena — retirada de um vídeo publicado em canais nacionalistas brancos no Telegram — mostra imagens de um ato realizado em Toronto em 3 de maio deste ano. Ele foi organizado e executado por um conjunto de grupos canadenses nacionalistas brancos e neonazistas que colaboraram para levar seu ódio dos espaços online para o mundo real.

Os canadenses tendem a enxergar o extremismo de extrema direita e o nacionalismo branco como um problema estritamente americano, adotando uma mentalidade de “isso não poderia acontecer aqui” ou vendo-o como uma franja lunática que deveria simplesmente ser ignorada. Mas esses movimentos estão ganhando espaço na cultura dominante, e a estrutura para que isso aconteça existe neste país desde sua fundação.

A supremacia branca chegou ao Canadá no século XV, com os primeiros europeus. Desde então, o país promoveu um genocídio cultural e literal contra os povos indígenas, incluindo os horrores perpetrados já em 1831 nos internatos patrocinados por igrejas cristãs e pelo governo, projetados para arrancar crianças de suas famílias e de sua cultura. O último internato administrado pelo governo federal só foi fechado em 1996. Em 1911, o governo aprovou uma ordem executiva para proibir a entrada de imigrantes negros no Canadá (ela nunca chegou a ser aplicada). Em 1921, a Ku Klux Klan formou seu primeiro núcleo canadense. Em 1946, Viola Desmond foi presa por se recusar a deixar a seção “somente para brancos” de um cinema. A última escola segregada do Canadá só fechou em 1983.

O final da década de 2010 trouxe consigo a era da “alt-right”, termo cunhado pelo nacionalista branco Richard Spencer para diferenciar suas ideias do conservadorismo americano tradicional. Inicialmente caracterizada pelo trolling online, a “alt-right” era uma série aleatória e reacionária de chats, páginas, memes e contas dedicadas a shitposting — principalmente dos EUA — além de um conjunto frouxo de atores mais organizados, como os Proud Boys e a Atomwaffen. Ao longo dos anos, seus integrantes passaram a se expor cada vez mais publicamente, participando de atos e praticando violência no mundo real. Desde a pandemia de COVID-19, uma nova iteração surgiu no Canadá: o Diagolon.

O movimento Diagolon é liderado pelo streamer e podcaster canadense Jeremy MacKenzie. Quando as medidas de saúde pública adotadas por governos locais começaram a ser implementadas, as transmissões de MacKenzie se tornaram cada vez mais radicais, um padrão que continua até hoje. Em chats no Telegram, MacKenzie espalha discurso de ódio, incluindo memes antissemitas, ataques a pessoas do Sul da Ásia e muitos outros insultos. Ele descarta críticas dizendo que tudo não passa de piada. Até o nome Diagolon (tirado de um país fictício criado por MacKenzie, formado pelos estados e províncias com menos restrições de saúde pública durante a pandemia, resultando em uma linha diagonal na América do Norte) é descrito como uma brincadeira. Pesquisadores, no entanto, discordam dessa versão.

“Eu realmente acredito que Jeremy acredita no que diz”, afirma Evan Balgord, diretor executivo da Canadian Anti-Hate Network (CAHN), uma organização sem fins lucrativos que monitora e denuncia a extrema direita. “Não acho que isso seja apenas teatro performático.”

Balgord diz que esse tipo de rede funciona como um reservatório de recrutamento para a extrema direita. “Alguns deles avançaram para o que chamamos de modelos de nacionalismo branco 3.0”, explica. “Eles estão se tornando mais militantes.” Segundo ele, há um afastamento da atividade “carregada de ironia e extremamente online” em direção a encontros presenciais em grupos chamados Active Clubs. Essa estratégia vem do manual do neonazista americano Robert Rundo. Ela envolve grupos online de supremacistas brancos e simpatizantes que passam a se encontrar pessoalmente para treinar sob o disfarce de um clube esportivo.

“Eles tentam se reunir para recrutar, fazer exercícios físicos, produzir fotos de propaganda e treinar esportes de combate”, diz Balgord. “Falam sobre a inevitabilidade do conflito e da violência e sobre se preparar para isso.”

A organização de Balgord mapeou muitos desses grupos pelo Canadá, com maior concentração em Ontário e na Colúmbia Britânica. Alguns afirmam ter mil ou mais membros, mas é impossível saber quantas pessoas simpatizam com a causa. Segundo a CAHN, os clubes às vezes visitam uns aos outros, mas “não existe uma liderança internacional hierárquica”. Alguns se autodenominam “clubes de fitness” ou “clubes masculinos”, rótulos que dificultam seu monitoramento. Eles levantam peso e realizam “exercícios militares básicos”. Quando chega a hora de uma manifestação ou ação, os grupos se unem, sabendo que todos os presentes compartilham os mesmos objetivos finais.

MacKenzie agora lidera o que a CAHN acredita ser o maior grupo nacionalista branco do país: o Second Sons Canada. O grupo é uma evolução adicional do modelo de Active Club. O Second Sons tem uma política rígida de adesão e regras e objetivos internos próprios. Ele se descreve como um “clube nacionalista masculino” que oferece “companheirismo e apoio” a homens que querem sentir orgulho de ser brancos. Em suas próprias palavras: “Se seus amigos e as pessoas ao seu redor não te apoiam, talvez seja hora de fazer novos amigos.”

O Second Sons agora tem divisões em todo o Canadá. Em maio, o Second Sons Canada publicou uma foto em seu Telegram público mostrando membros da divisão da Colúmbia Britânica em algo que parece ser uma academia de boxe. Um usuário no X chamado Windward Antifascist republicou a imagem, identificando MacKenzie ao lado de Nigel McDougall, morador de Surrey e neonazista (conhecido online como Schizo Stair Guy), líder do Third Born Active Club, com sede em Vancouver. Ao que tudo indica, o Third Born é apenas um dos muitos Active Clubs canadenses dentro da rede do Second Sons Canada.

Embora MacKenzie e seu círculo afirmem não ser violentos, a frase “Uma guerra implacável está chegando” não deixa muito espaço para interpretação. MacKenzie já enfrentou diversas acusações, todas retiradas ou resolvidas, incluindo acusações de ter supostamente apontado uma arma de fogo para alguém, arquivadas em 2023 após ele concordar com um termo de compromisso judicial.

Os Active Clubs não são a única ameaça da extrema direita que o Canadá enfrenta. Há muitas seitas diferentes e níveis de radicalização dentro desses grupos, o que Balgord chama de uma “rede de criadores de conteúdo e seus públicos”, que forma o tecido frouxo da extrema direita.

Amarnath Amarasingam, professor associado da Universidade Queen’s que pesquisa terrorismo, radicalização e extremismo, afirma que o chamado “Comboio da Liberdade” de 2022 foi o ponto de virada que permitiu a muitos criadores ampliar seu público a partir de “movimentos diferentes” que não teriam nada em comum antes da COVID-19.

“Uma consequência da pandemia foi como ela reuniu todas essas pessoas em torno de uma única questão”, diz ele. Amarasingam afirma que todos — de “tipos Q-Anon” a comentaristas antivacina, de membros do Diagolon a ativistas da medicina alternativa — acabaram no mesmo campo. Muitos criadores de conteúdo que atacavam os protocolos da COVID-19 ganharam audiências enormes graças à interconexão dessas bases de fãs. Quando as restrições pandêmicas foram suspensas, os criadores começaram a deslocar o foco para “um terreno mais amplo da guerra cultural”, incluindo protestos contra direitos trans, autonomia corporal e a própria existência da comunidade LGBTQ+. “Acho que alguns realmente acreditam nisso, e acho que outros percebem que é um tema explosivo que pode ser explorado e usado para recrutar novos membros”, afirma.

A extrema direita global criou sua própria esfera midiática, que apresenta como a “nova alternativa” à mídia tradicional. Embora parte desse conteúdo alcance apenas um público de nicho, outras ideias se tornaram temas centrais para políticos canadenses: seja o líder conservador Pierre Poilievre falando no podcast do comentarista de direita Jordan Peterson sobre “socialismo autoritário”, a ofensiva da premiê Danielle Smith por uma lei anti-trans na área da saúde em Alberta, ou postagens em redes sociais de Bryan Breguet, candidato conservador derrotado nas eleições provinciais da Colúmbia Britânica, comparando a mudança climática e o “wokeness” como ameaças existenciais equivalentes. Uma retórica antes restrita a espaços online aparece cada vez mais no debate público.

Amarasingam diz que isso faz parte de um ataque “por ambos os lados” que normaliza crenças anti-muçulmanas e anti-imigração, o antissemitismo e a homofobia no discurso geral. Enquanto oradores da extrema direita mais radical usam linguagem abertamente odiosa, aqueles com uma abordagem mais sutil apresentam as mesmas ideias como um ponto de vista político legítimo. Aos poucos, o discurso político vai se alinhando cada vez mais aos objetivos da extrema direita. Com a rápida deterioração da moderação de conteúdo nas redes sociais, a retórica extremista se espalha mais rápido do que os pesquisadores conseguem acompanhar.

Brad Galloway, que trabalha no Centre on Hate, Bias and Extremism, em Ontário, e passou grande parte da carreira desradicalizando membros da extrema direita por meio de organizações como a Life After Hate, afirma que, devido à falta de moderação em plataformas como X e Facebook, as redes sociais se tornaram um “terreno fértil” para o recrutamento da extrema direita. Os grupos estão evoluindo e aprendendo as novas regras; eles sabem quais “piadas” podem fazer sem serem expulsos de determinada plataforma. “Isso acaba empurrando as pessoas rio abaixo”, diz ele, “para diferentes bolsões da internet onde encontram grupos que realmente fazem recrutamento”. Galloway afirma que há uma correlação direta entre as pessoas se sentirem à vontade para defender essa ideologia online e se sentirem autorizadas a agir publicamente com base nela.

A Polícia Montada Real do Canadá (RCMP) declarou à The Walrus que não “comenta nem investiga movimentos ou ideologias”, mas que “ideologias extremistas violentas se tornaram mais ativas nos últimos anos, e a RCMP está ciente de grupos extremistas violentos motivados por ideologia que atuam no Canadá”. Alguns pesquisadores dizem que talvez seja positivo que a RCMP não investigue ideologias por si só, já que o que pode ser usado contra um lado hoje pode ser usado contra o outro no futuro.

Na CAHN, Balgord usa uma fórmula para avaliar o nível de perigo que um grupo extremista representa: ele multiplica o tamanho do público do grupo pelo grau de extremismo de sua retórica. Assim, embora grupos como o Diagolon possam ser marginais, a extremidade de suas ações e linguagem os torna uma ameaça.

O inverso ocorre com o movimento nacionalista cristão, cujos grupos assediam reuniões de conselhos escolares e protestam em frente a clínicas de aborto. Eles nem sempre usam linguagem explicitamente violenta, mas alcançam um público muito maior. Pesquisadores da CAHN afirmam que o movimento nacionalista cristão está treinando pessoas para se tornarem “operadores políticos” em um “projeto geracional” de conquista de poder. A retórica que propagam tem consequências reais, como se vê em Alberta com a repressão à educação sexual inclusiva em orientação sexual e identidade de gênero, ou quando alguém como Anna Kindy — associada ao grupo de ativismo político de extrema direita We Unify, ligado ao Comboio da Liberdade e que usa expressões como “reconquistar o futuro” — é eleita deputada provincial em North Island, na Colúmbia Britânica.

Nenhum desses desenvolvimentos é tão visualmente sinistro quanto os homens reunidos em Toronto — e esse é justamente o ponto.

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