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Siga o dinheiro: os interesses empresariais por trás da extrema direita
Extrema Direita

Siga o dinheiro: os interesses empresariais por trás da extrema direita

Por trás da ascensão do fascismo estão setores empresariais específicos, como as finanças alternativas, disputando poder. Compreender os interesses materiais e as fraturas entre as elites é fundamental para desenvolver uma política antifascista

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Via Transnational Institute

Tempo de leitura: 18 minutos.

Uma entrevista com Théo Bourgeron para o Transnational Institute.

Quais setores do capital estão apoiando a extrema direita no mundo?

Isso depende dos países e das organizações capitalistas, mas, de modo geral, encontra-se sempre uma combinação de setores econômicos em ascensão — como as finanças alternativas (fundos de private equity e hedge funds) —, setores dominantes sob pressão (como os negócios de combustíveis fósseis) e setores dominados, como pequenos varejistas e agricultores.

Na Europa Ocidental — como França e Reino Unido — e também nos Estados Unidos, observa-se uma configuração semelhante, com a convergência de bilionários das finanças alternativas, dos combustíveis fósseis e da tecnologia apoiando movimentos de extrema direita, muitas vezes em aliança com setores menos influentes, como a construção civil ou a agricultura.

Na Europa Oriental, em países que ocupam uma posição periférica ou semiperiférica na circulação europeia de capital, os movimentos de extrema direita são, em contraste, apoiados por interesses da construção civil e do agronegócio, com uma divisão significativa entre capital doméstico e capital estrangeiro. Isso significa que frações do capital nacional utilizam governantes de extrema direita para “tirar sua parte” dos fluxos de capital estrangeiro.

Na Índia, há uma conivência entre o partido etnonacionalista governista BJP (Bharatiya Janata Party) e grandes corporações que buscam uma nova agenda pró-empresarial e desregulamentadora. Isso beneficia bilionários como Mukesh Ambani, a ponto de alguns falarem em um “Raj dos bilionários”.

Há situações diversas, dependendo da posição de cada país. Em países diferentes, um mesmo setor — por exemplo, um mesmo subsegmento financeiro — pode apoiar ou não apoiar movimentos locais de extrema direita. A característica comum é que aparecem empresas que, por diversas razões (ascensão econômica recente não refletida nas instituições, pressão regulatória percebida, posição subordinada), querem usar governantes de extrema direita para enfrentar rivais econômicos.

Por que esses setores decidiram rejeitar os mantras da globalização neoliberal — que enfatizavam livre comércio, cadeias globais de valor e compromissos (ainda que superficiais) com valores socialmente liberais como diversidade, responsabilidade social corporativa etc.? Por que abraçaram, em vez disso, o nacionalismo econômico e o conservadorismo social?

A relação entre esses interesses empresariais e as instituições neoliberais não é tão simples. O conceito de pós-neoliberalismo, cunhado por Will Davies e Nicholas Gane, é muito útil para entender a dinâmica em jogo: há atores poderosos que, em determinado momento, passam a questionar instituições-chave do neoliberalismo não por rejeitarem seu conteúdo ideológico, mas porque querem radicalizar aspectos que já estavam presentes desde o início — como seu caráter autoritário, fóssil, patriarcal, racista ou capacitista. Essa radicalização é útil para deslocar as linhas de acumulação, pois a expansão do caráter autoritário ou patriarcal do regime altera os compromissos que essas forças empresariais precisam firmar com outros grupos sociais para manter seu modo de acumulação.

Como mostrou Grégoire Chamayou em seu trabalho sobre “sociedades ingovernáveis”, que acompanha as respostas das elites corporativas às convulsões sociais dos anos 1960 e 1970, os círculos empresariais sempre sentiram a tensão entre preservar o modo de acumulação comprando tempo por meio de concessões relativamente baratas (diversidade, equidade e inclusão; responsabilidade social corporativa; investimentos socialmente responsáveis) e preservá-lo por meio da repressão direta. Algo semelhante ocorreu na contrarrevolução neoliberal, quando os Chicago Boys, como Milton Friedman, defenderam a intensificação da luta de classes contra os trabalhadores e denunciaram medidas de “compra de tempo”, como a RSC. Hoje, alguns setores empresariais tendem a achar caro demais comprar tempo novamente e passam a optar pela segunda via.

Quanto ao nacionalismo econômico, ele aparece tanto no núcleo do império dos EUA (no regime Trump), quanto em países semiperiféricos (como a França, onde o Reagrupamento Nacional quer claramente substituir empresas de tecnologia dos EUA por nacionais) e em áreas periféricas (como a Romênia, onde o projeto de poder do partido de extrema direita AUR busca reprimir o capital estrangeiro e apoiar o capital doméstico). A tensão entre capital nacional e estrangeiro não é nova, mas as regulações que mantinham o capital doméstico sob controle na globalização neoliberal parecem ter se esvaído — começando pelo centro do império — e, em todos os lugares, atores de extrema direita defendem políticas nacionalistas mais fortes.

O que levou historicamente a este momento?

Estamos à beira de uma crise de acumulação — ou seja, o investimento de capital já não gera retornos crescentes. Isso não é novo; as economias capitalistas vivem à beira de crises de acumulação. O problema é que os paliativos recentes — aumento do endividamento público e privado, intensificação da exploração do trabalho, maior exploração da natureza via combustíveis fósseis, expansão das formas mais especulativas de capital fictício — parecem próximos do esgotamento.

Mudanças de regime e governantes de extrema direita são uma forma de adiar essa crise. O trabalho de Dorit Geva sobre a Hungria mostra que o governo Orbán intensifica a exploração por meio do autoritarismo, reforçando estruturas patriarcais e extraindo mais trabalho não remunerado das mulheres. Nos EUA, o movimento MAGA de Trump busca novas vias de acumulação: patrocínio estatal a criptoativos, estímulo à energia fóssil e uso da diplomacia para despossuir capitais estrangeiros em países subordinados. As empresas apoiam a extrema direita porque ela lhes permite encontrar novos “consertos” para a crise de acumulação iminente.

Quais são os interesses econômicos e políticos para as empresas apoiarem a extrema direita?

Há dois níveis de análise. Primeiro, as empresas buscam arranjos institucionais favoráveis do Estado. A regulação afeta todas as etapas de suas operações. No caso das finanças alternativas (hedge funds, private equity, fundos de infraestrutura), que apoiam a extrema direita nos EUA e na Europa Ocidental, o objetivo é obter reformas financeiras: direcionar mais recursos para si, obrigar seguradoras e fundos de pensão a investir parte de suas receitas, e obter subsídios estatais via cortes de impostos. Historicamente, governos neoliberais favoreceram a banca tradicional, levando essas finanças alternativas a buscar novos intermediários políticos.

Segundo, alguns setores buscam mudança de regime. O formato do regime político condiciona os arranjos institucionais possíveis e exige negociações constantes com forças partidárias. Quando partidos de extrema direita querem autorizar o fracking ou a prospecção de petróleo, isso atende aos interesses de bilionários fósseis, mas costuma ser rejeitado por suas próprias bases eleitorais. Gerir essas contradições é caro; mudar o regime reduz esses custos por meio da criminalização de movimentos ambientais, gerrymandering, repressão à mídia e à ciência independentes. Assim, o apoio empresarial à extrema direita costuma combinar dois objetivos: obter regulações favoráveis e transformar o regime político para facilitar a defesa desses interesses no longo prazo.

Como as elites corporativas apoiam a extrema direita

Há formas indiretas e diretas. As indiretas — talvez as mais poderosas — envolvem a normalização via mídia, academia e think tanks. O bilionário Vincent Bolloré é emblemático: usando recursos de seus negócios portuários na África e de depósitos de petróleo, passou a dominar o debate público francês. Hoje é acionista majoritário de grandes grupos de comunicação, edição e mídia, que utiliza para apoiar a extrema direita, inclusive correntes ainda mais radicais que o Reagrupamento Nacional.

Outros empresários financiam think tanks libertários, etnonacionalistas ou supremacistas brancos. Charles Beigbeder, por exemplo, financiou Marion Maréchal para criar o ISSEP, escola privada voltada à formação de elites da extrema direita.

Há também apoio direto: financiamento de campanhas, concessão de crédito e favores materiais. O bilionário Pierre-Édouard Stérin e seu sócio compraram a mansão da família Le Pen por um preço inflado. Bolloré sediou negociações entre o RN e o partido Les Républicains em 2024, levando à ruptura interna e ao alinhamento de parte da direita tradicional com a extrema direita — uma influência direta e decisiva.

E a resposta de outros setores do capital?

Há uma disputa real entre frações do empresariado. Setores que apoiaram Macron ou Kamala Harris perdem hegemonia quando a extrema direita avança. Essas disputas internas não são como o conflito capital-trabalho: elas reordenam hierarquias dentro do bloco de poder, mas mantêm a lógica de exploração e acumulação.

No Reino Unido, por exemplo, a vitória das finanças alternativas após o Brexit reconfigurou o setor financeiro sem destruí-lo. Bancos tradicionais se realinharam. Diante da escolha entre extrema direita e esquerda socialista, atores empresariais tendem a preferir realinhar-se com vencedores de extrema direita a arriscar um governo socialista disposto a redistribuir riqueza e socializar a produção.

Existem fraturas significativas no capital?

Sim — e são antigas. A oposição entre neoliberais e pós-neoliberais, centro tradicional e extrema direita, revela fraturas profundas. No setor financeiro, desde os anos 1980, as finanças alternativas desenvolveram interesses próprios (volatilidade e retornos), em contraste com bancos tradicionais (juros altos e estabilidade). Essas tensões explicam muitos conflitos políticos recentes.

Fraturas semelhantes aparecem na oposição entre capital doméstico e estrangeiro (Romênia, Hungria) ou na reação de setores industriais à globalização neoliberal (EUA).

Como a extrema direita governa economicamente?

Regimes de extrema direita procuram acomodar sua base empresarial e eleitoral. Na Hungria, preservam impostos corporativos ultrabaixos para multinacionais, fortalecem oligarcas domésticos e segmentam políticas por gênero e território. Nos EUA, os governos Trump recompensaram setores aliados (aço, energia, tecnologia, finanças) com tarifas, guerras comerciais, regulações favoráveis e benefícios diretos. O traço comum é que a base empresarial se beneficia muito mais do que a base eleitoral.

Como a extrema direita governou do ponto de vista econômico? Quais ortodoxias neoliberais ela manteve e quais abandonou? Que fios comuns e diferenças podemos observar?

Quando se analisa a pesquisa sobre regimes de extrema direita já existentes em países como Áustria, Hungria ou Estados Unidos, constata-se que esses regimes tentam acomodar simultaneamente sua base empresarial e sua base eleitoral. Na Hungria, por exemplo, o regime preservou o imposto corporativo ultrabaixo que beneficia grandes corporações ocidentais, transferiu capital e lucros para seus oligarcas domésticos e, ao mesmo tempo, promoveu os interesses de segmentos específicos da população com base em linhas de clivagem de gênero ou geográficas.

Nos Estados Unidos, percebe-se que os dois governos Trump recompensaram amplamente os setores (e às vezes os indivíduos) que os apoiaram. A indústria do aço, por exemplo, insatisfeita com as regras comerciais da Organização Mundial do Comércio (OMC), acabou sendo recompensada com a política de tarifas e as guerras comerciais. Além disso, o governo Trump tentou favorecer outros setores (tecnologia, finanças, energia) que apoiaram a extrema direita, por meio de regulações favoráveis e até de benefícios diretos. Nesses diferentes casos, o fio comum é que a base empresarial se beneficia muito mais do que a base eleitoral.

Aqui, o trabalho de Inga Rademacher sobre finanças e extrema direita (link externo) também é extremamente interessante. Ela mostra que a relação entre movimentos de extrema direita e os setores financeiros varia de acordo com o país. Em alguns casos, governos de extrema direita (ou partidos aspirantes ao poder) constroem coalizões que incluem claramente os interesses do setor financeiro (ou de alguns de seus subconjuntos, como empresas gestoras de ativos); em outros, são apoiados por blocos de poder que buscam conter a expansão do setor financeiro. Tudo depende da estrutura empresarial e eleitoral de cada país.

Como essas políticas econômicas da extrema direita afetaram as pessoas comuns?

A categoria de “pessoas comuns” não é apropriada aqui, porque a economia da extrema direita produz resultados divergentes para diferentes grupos sociais. Seja na Áustria, Hungria, Turquia ou nos Estados Unidos, a extrema direita, em geral, intensifica a exploração da classe trabalhadora. Ela desenvolve políticas excludentes que retiram o acesso a serviços de bem-estar social de diversos segmentos da população. Fortalece o poder de proprietários e gestores corporativos ao ampliar a divisão entre forças de trabalho nacionais, migrantes legais e migrantes indocumentados. Também reprime sindicatos e movimentos sociais. Em 2024, na Itália, por exemplo, o governo de Giorgia Meloni aprovou leis extremamente rigorosas que criminalizam o protesto e a dissidência política (link externo). Intensifica ainda as lógicas de exploração do trabalho não pago ao apoiar a dominação masculina. Pode haver subconjuntos da população que fiquem em melhor situação, já que a economia da extrema direita visa redistribuir valor entre grupos sociais. Mas, em geral, essas políticas são regressivas e, portanto, deterioram a situação dos grupos dominados.

A extrema direita consegue fazer o suficiente no plano econômico para garantir uma hegemonia popular?

Quando se observam os blocos de poder por trás dos regimes de extrema direita, há fortes contradições internas, e é realmente muito difícil fazer esses interesses divergentes funcionarem juntos. Meu trabalho recente sobre o bloco da extrema direita francesa (a ser publicado) mostra que existem três camadas nesse bloco de poder emergente: a camada superior de bilionários dos setores de tecnologia, finanças alternativas e energia fóssil; depois a camada intermediária de interesses de pequenos empresários; e, por fim, a base empresarial composta por pequena burguesia e eleitores da classe trabalhadora.

Essas três camadas são claramente contraditórias. Há uma contradição entre os agricultores da camada intermediária e os investidores financeiros da camada superior: o lobby dos agricultores próximo ao Rassemblement National, a Coordination Rurale, faz campanha abertamente contra a financeirização da agricultura, enquanto apoiadores do Rassemblement National ligados a fundos de investimento possuem ativos agrícolas. Encontra-se o mesmo conflito entre as duas camadas superiores e o bloco eleitoral: uma parte significativa do programa da extrema direita francesa consiste em desonerar a herança e promover a valorização de imóveis e da propriedade da terra, mas uma grande parte de seu eleitorado não possui imóveis e não está sujeita ao imposto sobre herança.

Esses blocos também são hierárquicos, no entanto, com a grande classe capitalista exercendo a hegemonia e os diversos componentes das coalizões eleitorais sendo atores subordinados, “reivindicantes juniores”, para usar um termo das finanças. Seus interesses vêm por último.

Isso não significa, porém, que esses blocos de extrema direita estejam condenados a perder o poder ou desaparecer, porque o papel dessas coalizões eleitorais também evolui. Ao entregar os meios de comunicação a oligarcas aliados, manipular distritos eleitorais (gerrymandering), e atacar opositores, os regimes de extrema direita transformam as regras do jogo eleitoral e tornam menos custoso para os grupos hegemônicos dentro do bloco vencer eleições. Por isso, não acredito que se trate apenas de “hegemonia popular”. Não existe algo assim nos regimes de extrema direita. É possível desorganizar movimentos sociais e atomizar a estrutura social de tal forma que os grupos hegemônicos consigam manter seu bloco de poder funcionando a um custo muito baixo. Isso é poder, mas claramente não é “hegemonia popular”.

À medida que movimentos populares buscam confrontar e derrotar o fascismo e a extrema direita, como o entendimento dos interesses econômicos da extrema direita pode moldar nossa resposta? Há fraturas ou contradições que possamos explorar? Há maneiras de usar isso para minar o apoio popular da extrema direita?

Há duas respostas para essa pergunta. Primeiro, mapear os interesses econômicos da extrema direita é crucial para compreender a natureza do desafio e dissipar os equívocos dos anos 2010. É muito importante saber de onde vem a extrema direita e o que ela representa. Isso importa porque, se pensarmos que ela é impulsionada por grupos de eleitores da classe trabalhadora de áreas desindustrializadas, poderemos acabar focando apenas na organização comunitária para combater o racismo nesses territórios. Mas, se entendermos que ela vem de cima, que é organizada de maneira vertical, como Aurélien Mondon e Fran Amery argumentam corretamente (link externo), então os votos da classe trabalhadora são, na verdade, impulsionados por outra força: o sistema midiático controlado por bilionários. Consequentemente, a luta assume uma forma muito diferente, buscando criar organizações de mídia alternativas e defender novas regulações midiáticas e eleitorais.

Segundo, esse esforço de análise da extrema direita também é útil para compreender suas contradições. Regimes de extrema direita são derrotados por diversos fatores: eleições, movimentos sociais, intervenções externas. Movimentos sociais elevam o custo para os grupos hegemônicos e seus representantes partidários manterem unidos os diferentes componentes do bloco. Em um trabalho futuro de Vladimir Bortun e meu, mostramos que, em países como França e Reino Unido, há três setores no núcleo da extrema direita: finanças alternativas, tecnologia doméstica e energia fóssil. É muito custoso para esses atores se engajarem em ação política — isso exige lucros significativos, a extração desses lucros como riqueza individual e, depois, o investimento em organização política por meio da construção de infraestruturas como think tanks e lobbies. A ação política que atinge o modelo de negócios desses atores é extremamente importante.

Mesmo sem essa consciência, pessoas que lutam contra a financeirização da moradia, o poder monopolista do setor de tecnologia e a produção e o consumo de combustíveis fósseis também contribuem de maneira crucial para a luta contra a extrema direita. Elas dificultam a sustentação do ecossistema da extrema direita, criam coalizões que essas indústrias terão de gastar dinheiro para desmontar e elevam seus custos. Assim, embora esse tipo de análise não leve necessariamente a novas formas de ação política, ele ajuda a orientar nossos esforços.

A direita hoje avança por meio de guerras culturais, apropriando-se da linguagem e das críticas da esquerda, mas direcionando-as a fins racistas, opressivos e xenófobos. Como seu argumento ajuda a compreender esse cenário?

O problema não é apenas a direita capturar a linguagem e a crítica da esquerda, mas também a própria esquerda desenvolver argumentos reacionários — vimos isso, por exemplo, no debate sobre saúde pública em torno das medidas da COVID-19. Na minha visão, é muito importante que esses novos trabalhos sobre a relação entre empresas e extrema direita não fiquem limitados aos aspectos econômicos ou mesmo políticos, mas também sejam desenvolvidos para lançar luz sobre as lutas culturais atuais. Quando falo em lutas culturais, quero dizer que devemos romper com visões idealistas dos movimentos de extrema direita e, ao mesmo tempo, desenvolver uma leitura materialista das dimensões ideológicas — ideologias políticas, cultura e conhecimento tecnocientífico — dos regimes reacionários contemporâneos. Isso significa compreender como esses interesses econômicos da extrema direita geram ideologias que a esquerda deve neutralizar.

Isso pode parecer muito abstrato, então deixe-me ilustrar. Recentemente, fiquei impactado pelo livro de Fabian Muniesa, Paranoid Finance (link externo). Ele explora o movimento NESARA/GESARA, uma “teoria da conspiração” que sustenta que o Estado federal dos EUA foi abolido há 20 anos, que cidadãos americanos teriam direito a resgatar certa quantidade de ouro no Federal Reserve e que o “Estado profundo” estaria impedindo uma utopia anarcocapitalista em que cidadãos negociariam livremente sem Estado, usando moedas lastreadas em ouro. Muniesa argumenta que o NESARA/GESARA expressa, em sua forma mais pura, a teoria radical do valor do mundo financeiro dominante atual. Em outras palavras, ele estabelece uma ligação direta entre processos econômicos (como o valor é “extraído” pelo setor financeiro no capitalismo contemporâneo) e a cultura (como algumas pessoas fabricam evidências de que o Estado foi abolido e que deveríamos viver em uma utopia anarcocapitalista). Esse trabalho é muito importante porque conecta os processos econômicos centrais do capitalismo atual às especulações libertárias e anarcocapitalistas que se multiplicam na extrema direita do espectro político. Ele nos ajuda a compreender, a partir de uma perspectiva materialista, as ideologias sobre as quais esses novos regimes reacionários pós-neoliberais se apoiam. Precisamos desenvolver uma compreensão materialista da cultura da extrema direita — de como os interesses empresariais mais contemporâneos da extrema direita se traduzem hoje em cultura — para pensar em como enfrentar, da forma mais eficaz possível, as expressões culturais da extrema direita.

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