O declínio do “tabac” francês: como o fechamento de bares está alimentando a extrema direita de Le Pen
Os icônicos bars-tabacs da França estão fechando aos montes, privando as comunidades de um elo social fundamental e influenciando sua orientação política, segundo um estudo que relaciona o declínio dos bares de bairro ao aumento do apoio ao Reagrupamento Nacional, partido de extrema direita
Conhecidos por seus balcões de zinco, bilhetes de loteria e os icônicos letreiros de tabacaria em forma de cenoura, os “bars-tabacs” franceses há muito tempo servem como pontos centrais das comunidades locais, desempenhando um papel semelhante ao do pub tradicional inglês.
E, assim como os pubs no Reino Unido, os bars-tabacs — muitas vezes chamados apenas de tabacs — vêm fechando aos milhares em cidades e vilarejos por toda a França, privando as comunidades de um elo social fundamental — e alimentando o isolamento, o ressentimento e um sentimento mais amplo de declínio.
Isso, por sua vez, vem impulsionando o apoio a partidos populistas de direita, argumenta Hugo Subtil, pesquisador de pós-doutorado da Universidade de Zurique e autor de um estudo que relaciona o desaparecimento dos bars-tabacs ao aumento do apoio ao Reagrupamento Nacional (RN), partido de extrema direita de Marine Le Pen.
De cerca de 200 mil em 1960, esses estabelecimentos antes onipresentes caíram para menos de 40 mil atualmente. Essa hemorragia atraiu relativamente pouca atenção da mídia, afirma Subtil, para quem o declínio dos bars-tabacs “abriu um vazio nas interações sociais locais que tem impacto de longo prazo no voto ao Reagrupamento Nacional”.
Analisando dados eleitorais entre 2002 e 2022, seu estudo constatou que o voto no RN aumentou entre 1,3% e 3,6% adicionais em distritos que haviam perdido recentemente um bar-tabac, com o maior crescimento ocorrendo em áreas rurais já privadas de outros espaços de socialização.
Com o Reagrupamento Nacional em ascensão e de olho em um novo avanço nas eleições municipais de março, margens aparentemente pequenas como essas podem se traduzir em mudanças significativas em todo o país.
Um elo social vital
Normalmente localizados em praças de vilarejos, vias principais ou em frente a estações de trem, os bars-tabacs franceses não são negócios comuns. Eles fazem parte do tecido social, onde trabalhadores tomam café e comem croissants no balcão, enquanto aposentados jogam cartas ou tentam a sorte com raspadinhas de loteria.
Em comunidades menores, alguns passaram a vender muito mais do que bebidas e cigarros, compensando o fechamento de lojas ao oferecer jornais, chips de celular e especialidades locais.
De forma crucial, eles funcionam como espaços de conversa “onde as pessoas trocam ideias com os vizinhos e desenvolvem um sentimento de pertencimento”, escreve Subtil, acrescentando que seu “desaparecimento transforma profundamente a maneira como as pessoas se relacionam e socializam”.
Cientistas sociais há muito apontam ligações entre o declínio dos centros comerciais e o crescimento do apoio à extrema direita. O estudo de Subtil argumenta que o fechamento de “espaços sociais”, como bares e restaurantes, tem um impacto maior do que o de espaços puramente “transacionais”, como padarias e mercearias, onde os clientes não permanecem.
“Quando o bar-tabac fecha, muitas vezes é o último espaço de interação social a desaparecer”, observa o estudo, destacando o “vazio relacional” deixado para trás. Isso é especialmente verdadeiro em áreas rurais, onde Subtil constatou que o impacto no apoio à extrema direita é três vezes maior do que nas áreas urbanas.
O efeito sobre os padrões de voto não é tão súbito ou claro quanto o fechamento repentino de uma fábrica, que causa demissões em massa e desencadeia um voto de protesto imediato, alerta o pesquisador.
“Não é o fechamento (do bar) em si que afeta imediatamente o comportamento eleitoral, mas o acúmulo lento de suas consequências: a escassez de interações cotidianas, o empobrecimento do discurso coletivo e a construção gradual de uma narrativa de declínio que pode (…) acabar se expressando nas urnas”, escreve Subtil.
À medida que as pessoas passam a conviver com um círculo menor de amigos e familiares com opiniões semelhantes, elas também ficam cada vez mais expostas a comentaristas de televisão que oferecem respostas simplistas para seus problemas, como culpar imigrantes — um tema recorrente da extrema direita.
“Quando já não existe um lugar para conversar uns com os outros, a política se torna um confronto entre o indivíduo isolado e as grandes narrativas da mídia — e, nesse confronto, discursos que oferecem respostas simples têm uma vantagem estrutural”, acrescenta o estudo.
A França “deixada para trás”
As conclusões de Subtil ecoam pesquisas recentes sobre o declínio dos pubs icônicos do Reino Unido e seu impacto na coesão comunitária e nos padrões de voto.
Em um estudo de 2021 publicado na revista Comparative Political Studies, a pesquisadora francesa Diane Bolet constatou que pessoas que vivem em áreas afetadas pelo fechamento de pubs tinham maior probabilidade de apoiar o Partido da Independência do Reino Unido (UKIP), um partido eurocético de extrema direita que teve grande influência no período que antecedeu o Brexit — e que desde então foi eclipsado pelo Reform UK.
“O fechamento de pubs queridos parece contribuir para um sentimento mais amplo de marginalização que levou partidos como o UKIP ao centro da cena política”, escreveu Bolet em um artigo posterior no The Conversation.
“O desaparecimento (dos pubs) aumenta o isolamento social e afeta a autoestima de uma comunidade”, acrescentou, argumentando que partidos de extrema direita “atraem pessoas isoladas que perderam a confiança nos outros e nas instituições”.
A pesquisa de Bolet concentrou-se no que ela descreve como “pubs comunitários”, que atendem majoritariamente a um público da classe trabalhadora — assim como os bars-tabacs. Segundo ela, o desaparecimento desses espaços “torna eleitores brancos da classe trabalhadora suscetíveis às narrativas de ‘deixados para trás’ que partidos da direita radical usam para angariar apoio”.
Um bar-tabac convertido em residência no vilarejo de Néry, no departamento de Oise, ao noroeste de Paris.
A retórica sobre a França “deixada para trás” também é um pilar do partido RN de Le Pen.
Analisando cerca de 2,19 milhões de declarações feitas no parlamento francês entre 2007 e 2014, Subtil constatou que os parlamentares do RN não mencionavam mais do que outros partidos as regiões em dificuldades do país, mas que a linguagem usada para enquadrar o debate era marcadamente diferente.
Enquanto parlamentares centristas ofereciam soluções técnicas, a extrema direita falava de territórios “esquecidos” ou “abandonados”, termos mais propensos a ressoar entre eleitores que se sentem deixados para trás, explica o autor.
O capítulo final do estudo ressalta o poder das políticas públicas para enfrentar as queixas de regiões privadas de seus bars-tabacs e de outros serviços e espaços sociais.
Subtil constatou que, onde novos bars-tabacs são abertos, o voto no Reagrupamento Nacional tende a cair — uma tendência que, segundo ele, destaca o potencial de reverter o ciclo de declínio social e apoio à extrema direita por meio do investimento público.
“A erosão dos laços sociais não é irreversível”, escreve. “Políticas públicas voltadas à preservação ou recriação de espaços de socialização podem ter um impacto duradouro nas tendências eleitorais.”
