A organização coletiva do negacionismo científico: rumo a um quadro para uma resposta coletiva
O recente volume “Organized Science Denial: An Action Plan for Solutions”, organizado por Elena Bruni e Lianne M. Lefsrud, reúne as vozes de estudiosos da teoria das organizações para refletir sobre as dinâmicas coletivas do negacionismo e suas implicações neste mundo contemporâneo complexo
A ciência sob ataque
Em setembro de 2025, a revista Time informou que a proposta da Florida de eliminar todas as exigências de vacinação poderia provocar um aumento de doenças infantis evitáveis, hospitalizações e possivelmente mortes. Embora nenhuma decisão política isolada explique totalmente os rumos da saúde pública, o episódio exemplifica uma agenda mais ampla e cada vez mais influente de ataque à expertise, promovida por atores políticos que desafiam consensos científicos consolidados e enfraquecem a confiança em políticas de saúde baseadas em evidências (Williams 2025).
No mesmo período, o secretário de Energia dos United States visitou Brussels e Vienna para defender a expansão dos combustíveis fósseis. Ele apresentou um relatório que minimizava as evidências científicas contundentes sobre a urgência de reduzir as emissões de carbono para mitigar impactos climáticos severos (Berwyn 2025). Esse esforço reproduz um padrão organizacional já amplamente documentado no campo climático: atores dos combustíveis fósseis fabricam dúvidas estrategicamente para atrasar regulações e sustentar modelos econômicos vigentes.
Esses dois exemplos ilustram uma dinâmica recorrente: atores organizados mobilizam recursos, retórica e infraestruturas para obscurecer o consenso científico, moldar a opinião pública e influenciar políticas. Pesquisadores definem esse comportamento estratégico e coordenado como negacionismo científico: um projeto coletivo que visa desacreditar conhecimentos estabelecidos e corroer a confiança nas instituições que os produzem.
O volume coletivo e seu objetivo
O livro organizado reúne importantes estudiosos da teoria das organizações para analisar esses padrões não como controvérsias isoladas, mas como fenômenos profundamente sociais e enraizados em estruturas organizacionais. O negacionismo não é apenas produto de indivíduos rejeitando verdades incômodas; ele é sustentado por organizações — empresas, grupos de advocacy, sistemas midiáticos e campanhas políticas — e pelos contextos institucionais em que operam.
São examinados casos que vão da indústria do tabaco ao greenwashing corporativo, passando por movimentos antivacina, mídia e a epidemia de Xylella fastidiosa, que devastou oliveiras no sul da Italy. Cada exemplo mostra como atores coletivos moldam — e muitas vezes distorcem — a compreensão pública da ciência.
O marco teórico: uma abordagem retórica multinível
Os autores propõem um modelo para comunicar ciência de forma mais eficaz e enfrentar o negacionismo organizado. Na base está a teoria do enquadramento (framing): quadros eficazes diagnosticam problemas, propõem soluções e motivam ação. Para que uma mensagem científica seja efetiva, ela deve ressoar não apenas intelectualmente, mas também emocional e culturalmente.
O primeiro elemento é o reenquadramento ressonante: alinhar apelo emocional (pathos) e evidência científica (logos). Por exemplo, descrever a vacinação como “um ato de solidariedade que protege os vulneráveis” a transforma de uma escolha individual em uma responsabilidade coletiva. Da mesma forma, a mudança climática pode ser apresentada como uma oportunidade de inovação e cuidado ambiental.
O segundo componente é a validação da fonte: a comunicação científica deve deixar claro de onde vem o conhecimento. Vincular resultados a fontes confiáveis — como estudos revisados por pares ou veículos respeitados — reforça a credibilidade (ethos), especialmente em contextos onde negacionistas confundem deliberadamente opinião e expertise.
O terceiro elemento é a identificação: baseada na ideia de que a persuasão depende de identidades compartilhadas. As pessoas são mais receptivas quando percebem que os comunicadores compartilham seus valores. Campanhas de doação de órgãos, por exemplo, funcionam melhor quando apelam a identidades locais.
O quarto é a visualização. Gráficos, mapas e animações cumprem funções cognitivas e emocionais, simplificando processos complexos e criando narrativas memoráveis. Exemplos incluem visualizações da Sky News sobre o impacto humano da COVID-19 e gráficos climáticos do The New York Times.
Um caso destacado é o vídeo da European Food Safety Authority (EFSA) sobre a propagação da Xylella fastidiosa no sul da Itália. A crise foi acompanhada por narrativas negacionistas que acusavam cientistas de exagero. O vídeo tornou o processo científico visível — seu rigor, suas incertezas e seu caráter coletivo — ajudando a reconstruir a confiança pública.
Negacionismo científico: um problema social
No nível individual, o negacionismo pode ser entendido como uma tendência a rejeitar informações ameaçadoras para preservar identidade ou equilíbrio psicológico. Nesse sentido, pode ter uma função protetora.
Mas compreendê-lo como fenômeno coletivo é essencial. Quando organizações e instituições cultivam ativamente o negacionismo, ele se torna uma prática coordenada e disruptiva. Mobiliza estratégias retóricas, alianças políticas, infraestruturas digitais e canais de mídia para transformar dúvidas privadas em controvérsias públicas, minando a confiança na ciência.
Isso não é um problema abstrato. Estudos e relatórios mostram que o negacionismo alimenta a polarização, enfraquece a democracia e pode gerar instabilidade social. O livro responde a esse desafio propondo um modelo multinível para enfrentar o fenômeno, útil para formuladores de políticas, instituições científicas e lideranças organizacionais.
Combater o negacionismo exige mais do que corrigir fatos: requer novas formas de comunicação, novos modos de engajamento público e o reconhecimento explícito de que a negação da ciência é um problema social que diz respeito a todos nós.
