Eleições na Hungria expõem tensões nos planos de Trump para fortalecer a extrema direita na Europa
Uma interferência eleitoral tão explícita dos EUA em um Estado-membro da OTAN e da UE é tão inédita quanto preocupante
O mundo estará observando no dia 12 de abril, quando os húngaros forem às urnas em eleições parlamentares que determinarão o próximo primeiro-ministro do país. Isso pode soar exagerado, mas essas eleições vão muito além de simplesmente decidir se o atual primeiro-ministro, Viktor Orbán, cumprirá mais um mandato como líder da Hungria.
Seu principal desafiante, Péter Magyar, até dois anos atrás era um aliado próximo do primeiro-ministro húngaro. Em algumas questões-chave — como futuras compras de petróleo da Rússia e a resistência a uma adesão acelerada da Ucrânia à União Europeia — Magyar é um candidato de continuidade que, na melhor das hipóteses, sinaliza moderação, em vez de uma mudança radical.
Se ele não conseguir uma maioria de dois terços, o que lhe permitiria alterar a Constituição e desfazer muitas das mudanças profundamente antidemocráticas que Orbán introduziu no sistema político húngaro, suas mãos também estarão atadas no plano interno e ele pode nem conseguir cumprir sua principal promessa de campanha — acabar com a corrupção sistêmica que prosperou sob Orbán.
Mas — embora importante por si só — o resultado das eleições é quase secundário dentro de um quadro mais amplo de uma campanha eleitoral que revelou muito sobre as dinâmicas geopolíticas mais amplas e cada vez mais tensas da política europeia.
Orbán tem se apoiado fortemente em sua relação próxima com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Em certo nível, isso não é surpreendente. Trump o apoiou publicamente duas vezes apenas neste ano — primeiro em fevereiro e depois novamente em março. O presidente dos EUA também enviou tanto seu secretário de Estado, Marco Rubio, quanto o vice-presidente, J.D. Vance, à Hungria para reforçar sua candidatura.
Vance, que visitou a Hungria poucos dias antes das eleições, elogiou a forma de governar e o estilo de liderança de Orbán como um modelo para a Europa e criticou a União Europeia por tentar influenciar o resultado da votação.
Uma interferência eleitoral tão explícita dos EUA em um Estado-membro da OTAN e da UE é tão inédita quanto preocupante. Isso sinaliza um novo nível de determinação da Casa Branca em moldar alianças com outros populistas de extrema direita, baseadas na vaga noção de “cooperação moral… e defesa da civilização ocidental”, como disse Vance durante sua visita a Budapeste em 7 de abril.
Mas, enquanto Orbán se beneficiava dos apoios vindos de Washington, sua adesão incondicional a Trump já não é a abordagem dominante em relação aos EUA entre muitos partidos populistas de direita na Europa. O apelo do movimento “Make America Great Again” (MAGA) está diminuindo rapidamente no continente.
Embora tenham apoiado amplamente Donald Trump por mais de uma década, muitos populistas de direita europeus começaram a perceber o caráter problemático de sua associação com ele. “America First” é exatamente o que diz — e, além disso, a interpretação de Trump sobre o que isso significa torna a situação ainda pior para alguns de seus antigos apoiadores.
Para o presidente da Polônia, Karol Nawrocki, a relação amistosa de Trump com o presidente russo Vladimir Putin vai contra a percepção quase universal de que a Rússia é a principal ameaça à segurança polonesa. Para o Partido Popular Dinamarquês, que integra a ala de extrema direita Patriotas pela Europa no Parlamento Europeu, as ambições de Trump sobre a Groenlândia foram tão inaceitáveis que um de seus membros, Anders Vistisen, disse ao presidente dos EUA para “cair fora”.
Para outros, como o Rassemblement National (Reunião Nacional) da França, as ameaças tarifárias de Trump afetaram parte de sua base, especialmente entre os agricultores. Mais ainda, a guerra ilegal de Trump contra o Irã, amplamente impopular entre os eleitores europeus, evidencia os custos eleitorais de uma associação com o presidente dos EUA.
Isso não torna esses movimentos populistas de direita mais liberais. Eles continuam compartilhando um amplo ressentimento em relação ao liberalismo e ao que ele representa: sociedades abertas, fronteiras abertas e compromisso com instituições globais. No entanto, muitos desses partidos basearam sua legitimidade política na defesa da soberania de seus Estados nacionais. Agora, começam a se perguntar se essa soberania não está mais ameaçada por Washington — e Moscou — do que por Bruxelas.
A resposta a essa questão será, em parte, determinada pelo resultado das eleições de domingo na Hungria.
O que significaria uma vitória de Orbán
Uma vitória de Orbán indicaria, no mínimo, a existência de um apoio suficiente a um modelo de governo autocrático e iliberal e alguma persistência do apelo de um alinhamento com Trump. No entanto, essa lógica pode não prevalecer por muito tempo diante do conflito no Oriente Médio e da continuidade da ofensiva russa contra a Ucrânia.
A estreita relação de Orbán com Putin — e sua obstrução persistente à política da UE em relação à Ucrânia — provavelmente o deixará cada vez mais isolado, inclusive entre populistas de direita ideologicamente próximos. Essa vulnerabilidade já se tornou evidente em 2022, quando seu aliado de longa data Jaroslaw Kaczynski, então vice-primeiro-ministro da Polônia, criticou publicamente suas inclinações pró-Rússia.
As divisões sobre a política da UE em relação à Rússia expuseram uma importante linha de fratura entre os movimentos populistas de direita na Europa: de um lado, aqueles que buscam acomodação com o Kremlin; de outro, os que defendem dissuasão e contenção. Os Democratas Suecos de extrema direita, por exemplo, ameaçaram deixar o bloco parlamentar Conservadores e Reformistas Europeus caso o partido Fidesz de Orbán fosse aceito — justamente por considerarem o primeiro-ministro húngaro próximo demais da Rússia.
Para esses partidos céticos em relação à Rússia, o alinhamento de Orbán com Putin é claramente inaceitável. A relação aparentemente cordial de Trump com o presidente russo tende a aprofundar essa desconfiança em relação a um alinhamento estreito com a Casa Branca. A proximidade geográfica com a Rússia e uma longa história de confrontos continuarão sendo fatores determinantes para a política externa e de segurança desses partidos.
Assim, o apoio de Trump a Orbán pode, na prática, acelerar o isolamento de Orbán entre os populistas de direita europeus, enfraquecendo sua agenda de construir uma coalizão poderosa de líderes iliberais que corroa a União Europeia por dentro.
Essas tensões e contradições no interior de um movimento populista de direita transatlântico, supostamente ideologicamente coeso, antecedem as eleições parlamentares húngaras e persistirão após elas. Em um momento de desordem e incerteza globais quase sem precedentes, a disputa pela Hungria é, ao mesmo tempo, uma campanha eleitoral e um episódio central no debate contínuo sobre o significado do Ocidente como projeto geopolítico.
