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O anti-imperialismo em uma época de ascensão do fascismo: solidariedade para além das potências rivais
Antifascismo

O anti-imperialismo em uma época de ascensão do fascismo: solidariedade para além das potências rivais

As tensões geopolíticas atuais são frequentemente apresentadas como um confronto entre blocos rivais e uma emergente “multipolaridade”. No entanto, essa suposição exige análise cuidadosa

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Via CADTM

Tempo de leitura: 9 minutos.

O momento global atual se caracteriza por uma perigosa convergência de três grandes tendências: o avanço do nacionalismo autoritário — em alguns casos, um ultranacionalismo excludente —, o crescimento dos movimentos de extrema direita e a renovada competição imperialista entre potências globais e regionais. Esses acontecimentos não são fenômenos isolados, mas expressões profundamente interconectadas de uma crise mais ampla do capitalismo global e da legitimidade política.

Historicamente, o fascismo surgiu em períodos de profunda instabilidade social e econômica. Quando a desigualdade se intensifica, as instituições democráticas se enfraquecem e as elites governantes veem sua autoridade questionada, forças autoritárias e reacionárias tendem a ganhar espaço. Nesses momentos, o nacionalismo, o racismo e a militarização tornam-se ferramentas para consolidar o poder e desviar a indignação social das desigualdades estruturais.

Atualmente, observamos padrões semelhantes em diferentes regiões. A militarização está se expandindo. As guerras são cada vez mais justificadas em nome da segurança, da democracia ou da civilização. Migrantes são transformados em bodes expiatórios. Minorias são demonizadas. As instituições democráticas perdem substância, enquanto o poder executivo se concentra cada vez mais. Por trás desses processos está uma realidade estrutural mais profunda: o imperialismo.

O antifascismo sem anti-imperialismo permanece incompleto. O imperialismo normaliza a hierarquia, a dominação e a violência em escala global. Ele cria uma ordem mundial em que Estados poderosos e corporações multinacionais exercem influência desproporcional sobre economias e sistemas políticos mais frágeis. Por meio de mecanismos como dependência da dívida, desequilíbrios comerciais, extração de recursos e intervenção política, o imperialismo mina a soberania e aprofunda a desigualdade. No entanto, qualquer luta contra o imperialismo é difícil sem uma luta contra o capitalismo.

Essa ordem mundial reforça tendências autoritárias. Quando a violência se normaliza internacionalmente, a repressão se torna mais fácil no plano interno. A xenofobia cresce quando a rivalidade geopolítica é apresentada em termos civilizacionais ou raciais. Quando a dominação econômica é aceita globalmente, a desigualdade se intensifica dentro dos países.

A recente agressão militar contra o Irã ilustra a perigosa convergência entre imperialismo, militarização e a crescente influência da extrema direita nas relações internacionais. Os ataques coordenados dos EUA e de Israel contra alvos iranianos constituem uma clara violação da soberania do Irã e contribuem para normalizar ações militares unilaterais como forma de demonstração de poder. Tais ações correm o risco de desestabilizar ainda mais uma região já frágil, aumentando a possibilidade de um conflito mais amplo e agravando tensões geopolíticas em toda a Ásia Ocidental.

Ao mesmo tempo, opor-se a essa agressão não significa apoiar o regime iraniano. O Estado iraniano há muito se caracteriza por um governo autoritário, repressão de movimentos democráticos e severas restrições às liberdades civis. Os repetidos levantes e protestos no Irã nos últimos anos demonstram que amplos setores da sociedade iraniana aspiram à liberdade política, à justiça social e aos direitos democráticos. Portanto, uma posição anti-imperialista coerente deve denunciar tanto a agressão externa quanto a opressão interna. A solidariedade deve ser dirigida ao povo iraniano, apoiando seu direito à autodeterminação, às liberdades democráticas e à justiça social, livre tanto de intervenções estrangeiras quanto de um aparato estatal repressivo.

A invasão russa da Ucrânia exemplifica como a política das grandes potências continua a influenciar conflitos, frequentemente às custas dos direitos dos povos. Essa intervenção militar violou a soberania da Ucrânia e minou o direito do povo ucraniano de determinar seu próprio futuro. Embora a expansão da OTAN e a escalada das tensões geopolíticas forneçam contexto, esses fatores não justificam a invasão, a ocupação e a devastação impostas às cidades e à população civil ucraniana.

Para nós, defender os direitos do povo ucraniano não equivale a apoiar a OTAN nem a se alinhar com estratégias geopolíticas ocidentais. Além disso, a guerra tem sido instrumentalizada por potências rivais para promover seus próprios interesses estratégicos, resultando em maior militarização e prolongamento do conflito, agravando o sofrimento civil e dificultando uma solução pacífica. Assim, uma posição anti-imperialista coerente deve rejeitar a agressão russa e, ao mesmo tempo, se opor à lógica geral de blocos e à escalada militar. A solidariedade deve ser dirigida especificamente ao povo ucraniano, apoiando seu direito à paz, à soberania e à autodeterminação democrática, independentemente tanto da agressão russa quanto das rivalidades entre grandes potências.

As tensões geopolíticas atuais são frequentemente apresentadas como um confronto entre blocos rivais e uma emergente “multipolaridade”. Muitos argumentam que o surgimento de novas potências e formações como os BRICS representa uma alternativa progressista ao domínio ocidental. No entanto, essa suposição exige análise cuidadosa.

A multipolaridade, por si só, não significa necessariamente emancipação. Um mundo com múltiplas potências em competição pode continuar reproduzindo hierarquias imperiais, rivalidades geopolíticas, militarização e dominação econômica. Embora possa reduzir o domínio de uma única potência hegemônica, não produz automaticamente uma ordem mundial mais democrática ou justa.

Nesse sentido, a multipolaridade pode oferecer oportunidades às elites e aos Estados, mas não necessariamente aos povos. A competição entre potências pode intensificar a militarização, os conflitos por recursos e as tensões geopolíticas. Sem um internacionalismo democrático e solidariedade entre os povos, a multipolaridade corre o risco de se tornar apenas uma redistribuição de poder entre elites rivais.

A Índia oferece um exemplo significativo dessas contradições. O país é frequentemente apresentado como parte de um mundo multipolar emergente por meio de sua participação no BRICS. No entanto, ao mesmo tempo, aprofundou sua cooperação estratégica com estruturas militares e de segurança ocidentais voltadas para conter a China. Embora não faça parte formal do AUKUS, a Índia fortaleceu seu alinhamento com os EUA e seus aliados por meio de iniciativas como o Quad, ampliando a cooperação em defesa, exercícios militares conjuntos e parcerias tecnológicas estratégicas.

Esse duplo posicionamento ilustra a complexidade da geopolítica contemporânea. Os Estados participam simultaneamente de múltiplos blocos de poder, buscando autonomia estratégica enquanto reforçam a militarização e a rivalidade global. Esses alinhamentos não representam necessariamente uma alternativa ao imperialismo, mas frequentemente novas configurações dentro da mesma competição global.

Ao mesmo tempo, a Índia também exemplifica o avanço do nacionalismo autoritário majoritário. O atual regime político está fortemente ligado ao Rashtriya Swayamsevak Sangh (RSS), organização fundada em 1925 e inspirada, em seus primórdios, em movimentos fascistas europeus, especialmente na Itália de Mussolini e, posteriormente, em elementos do modelo da Alemanha nazista.

Ao longo das décadas, o RSS construiu uma ampla rede organizativa na sociedade indiana, incluindo estruturas políticas, educacionais, culturais e paramilitares. Seu projeto tem sido transformar a Índia de uma república laica e pluralista em um Estado de maioria hindu, frequentemente descrito como “Hindu Rashtra”.

Esse projeto ganhou poder estatal significativo nos últimos anos, resultando em aumento de ataques contra minorias — especialmente muçulmanos e cristãos —, restrições às liberdades civis, pressão sobre a imprensa independente, enfraquecimento das instituições democráticas e crescente centralização do poder.

Paralelamente, o governo indiano aprofundou suas relações com Israel, que se tornou um modelo em áreas como doutrina de segurança, tecnologias de vigilância, militarização e nacionalismo majoritário. Setores da extrema direita indiana estabelecem paralelos entre um Estado hindu majoritário e o modelo etnonacional israelense.

Isso reflete uma tendência global mais ampla: movimentos autoritários e de extrema direita estão aprendendo uns com os outros. Há uma circulação transnacional de ideologias, doutrinas de segurança, tecnologias de vigilância e métodos de governança. Esses processos reforçam uma ideia central: o antifascismo contemporâneo deve ser internacional.

Em todos os países e continentes, trabalhadores e trabalhadoras enfrentam desafios semelhantes: precarização do trabalho, austeridade, privatizações e aumento do custo de vida. Agricultores enfrentam perda de terras e crises agrárias. Povos indígenas resistem às indústrias extrativistas. Migrantes enfrentam criminalização e exploração. Mulheres sofrem marginalização econômica e intensificação da violência patriarcal.

Essas lutas estão interligadas. No entanto, movimentos autoritários buscam fragmentá-las. Migrantes são responsabilizados pelo desemprego, minorias são tratadas como ameaças à identidade nacional e inimigos externos são invocados para justificar repressão interna. Essas estratégias visam dividir os oprimidos e preservar estruturas de poder.

A solidariedade entre os povos é a resposta mais eficaz — e não pode ser abstrata. Deve se concretizar em ações: campanhas contra a dívida e a austeridade, solidariedade com migrantes e refugiados, resistência à militarização e à guerra, defesa dos direitos trabalhistas e das liberdades democráticas. O internacionalismo, portanto, não é apenas um princípio ético, mas uma necessidade política.

A história oferece lições fundamentais. As resistências mais fortes ao fascismo surgiram de amplas coalizões sociais — trabalhadores, camponeses, estudantes, intelectuais e movimentos democráticos — muitas vezes atravessando fronteiras nacionais. Movimentos anticoloniais, a luta contra o apartheid e a solidariedade internacional demonstraram o poder da ação coletiva global.

Reconstruir esse espírito de solidariedade é essencial hoje. Em um mundo marcado por fragmentação e medo, a cooperação internacional entre os povos oferece uma alternativa baseada na igualdade e na justiça. Anti-imperialismo e antifascismo não são lutas separadas, mas dimensões interligadas de um mesmo projeto político.

Fortalecer a cooperação entre movimentos, aprofundar a solidariedade internacional e resistir à divisão e ao autoritarismo são tarefas urgentes. O futuro não será definido apenas por Estados poderosos ou rivalidades geopolíticas, mas também pelos povos organizados que atuam coletivamente além das fronteiras.

Diante do avanço do fascismo, o anti-imperialismo e a solidariedade entre os povos permanecem pilares fundamentais de uma alternativa democrática e emancipadora.

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