O que os antifascistas no Reino Unido podem aprender com a antifa nos Estados Unidos?
Os antifascistas nos EUA não ficaram esperando o resto do mundo decidir e fizeram parte de de uma guerra oculta travada pelo movimento contra a extrema direita
Há sempre o risco do “menino que gritava lobo” ao anunciar que o fascismo chegou. Mas quando você tem uma administração dos EUA cujos canais nas redes sociais estão, nas palavras de Christopher Mathias, “tuitando propaganda nazista pura e simples, usando termos como ‘substituição’ e ‘remigração’, que eram usados por grupos nazistas há dez anos, e falando em termos explicitamente nacionalistas brancos”, e até mesmo a The Atlantic está dizendo “Sim, é fascismo” — então talvez já estejamos lá.
Como Mathias colocou quando conversamos no fim de março: “Estamos em um momento fascista totalmente sem máscaras.”
O problema de tentar definir o fascismo, o estágio em que nos encontramos e até se deveríamos usar essa palavra é que, como no exemplo apócrifo do sapo em água fervente, estamos sendo lentamente cozidos — sendo gradualmente acostumados ao fascismo enquanto ele acontece ao nosso redor. Se estamos esperando por um momento decisivo, vale lembrar as palavras do ícone punk antifascista Thomas Mensforth, que em 1993 lembrava: “o fascismo não começa com campos de concentração; é aí que ele termina”.
Os antifascistas nos EUA não ficaram esperando o resto do mundo decidir, e o novo livro de Mathias conta a história de uma guerra oculta travada pelo antifa contra a extrema direita, em grande parte distante dos confrontos de rua de antigamente e mais focada, como ele diz, “no grosso do trabalho que realmente fazem — coleta de informações, pesquisa, espionagem e identificação, desmascaramento e exposição de milhares de membros desse novo movimento fascista na América”.
Mathias define o antifa como “uma rede descentralizada e clandestina, composta em grande parte por anarquistas, socialistas e comunistas, dedicada a destruir a extrema direita por quaisquer meios necessários”. Grande parte de sua atividade envolve retirar o anonimato para revelar a identidade de pessoas por trás de ataques racistas, marchas uniformizadas, vandalismo e propaganda violenta. Mas há também uma ironia sombria nisso: “em épocas anteriores, nos EUA, quando você usava uma máscara no fascismo organizado”, disse ele, “era na esperança de criar um mundo em que não precisaria mais dela”.
Então, o que acontece quando esse mundo já foi criado e as máscaras realmente caem? E quais são as lições para os antifascistas no Reino Unido diante talvez da maior ameaça de extrema direita desde o fim dos anos 1970?
De certa forma, isso já aconteceu antes. A tradição antifascista britânica serviu de modelo para os EUA nos anos 1990, especialmente em ativismo de rua, mobilização de massas e trabalho de inteligência. Movimentos como a Anti-Nazi League e o Rock Against Racism mobilizaram centenas de milhares nas ruas nos anos 1970. Grupos como Red Action e Anti-Fascist Action, além de organizações autônomas na Alemanha e Itália, influenciaram diretamente grupos norte-americanos como a Anti-Racist Action e os Minneapolis Baldies. Essa tradição remonta ainda mais atrás, ao 43 Group e ao 62 Group, bem como aos antifascistas originais que enfrentaram o avanço do fascismo na Europa nos anos 1930 e 1940.
Mas, assim como no Reino Unido — onde o surgimento de vigilância massiva e câmeras reduziu os confrontos de rua —, os EUA também viram uma diminuição desse tipo de confronto direto e uma mudança para organização comunitária e coleta de informações.
Isso não é novidade para antifascistas britânicos. Ao longo das últimas décadas, houve trabalho de inteligência feito por grupos como Searchlight, Hope Not Hate e Red Flare, identificando ativistas da extrema direita, pressionando politicamente e juridicamente suas organizações e tentando desarticular suas atividades.
Esse último elemento — infiltração e exposição — é central no livro de Mathias. Em um caso, um infiltrado em um grupo neonazista reuniu evidências internas que levaram à exposição pública de membros antes anônimos. Em outro, um agente antifascista infiltrou a Identity Evropa, coletando mensagens e provas de intenções violentas ligadas ao comício Unite the Right rally, onde Heather Heyer foi assassinada.
A prática de “doxxing” depende, como diz Mathias, de tabus sociais contra racismo explícito, supremacismo branco e fascismo — criando um “custo social” para quem participa disso. Mas surge um problema: o que acontece quando esses tabus se enfraquecem e a exposição já não provoca vergonha?
No Reino Unido, já há sinais dessa erosão. Mesmo com promessas de controle interno, o partido Reform UK enfrenta repetidos escândalos envolvendo declarações racistas ou extremistas de seus membros.
Ainda assim, Mathias argumenta que expor essas redes continua sendo importante — especialmente para alertar comunidades sobre possíveis ameaças.
Outro ponto central é a conexão entre antifascismo e lutas mais amplas, como antirracismo e organização de classe. Ele observa, por exemplo, mobilizações contra a Immigration and Customs Enforcement nos EUA, onde ações locais envolveram elementos antifascistas, mesmo sem usar explicitamente esse rótulo.
Grande parte desse trabalho é feita por pessoas que atuam nos bastidores — analisando dados, identificando indivíduos por detalhes mínimos — além de iniciativas de mídia independente, como a Unicorn Riot, ou colaboração com jornalistas.
Essas redes comunitárias são vistas como essenciais, especialmente em um contexto em que grandes empresas de tecnologia — como a Meta — vêm sendo acusadas de restringir conteúdos relacionados ao antifascismo.
No fim das contas, muito disso está enraizado nas comunidades. Assim como os Minneapolis Baldies surgiram para defender seu espaço local, mobilizações atuais também nascem da necessidade de proteção coletiva. Como diz o ditado, quando os EUA espirram, o mundo pega um resfriado. Talvez, observando os sinais e as respostas que surgem lá, seja possível se preparar melhor para os desafios que vêm pela frente.
