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Da cabeça raspada ao terno: como a extrema direita da Suécia chegou ao poder
Extrema Direita

Da cabeça raspada ao terno: como a extrema direita da Suécia chegou ao poder

Antes rejeitados por todos os grandes partidos, os Democratas Suecos passaram de párias políticos ao centro do governo

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Via Al Jazeera

Tempo de leitura: 9 minutos.

Existe uma expressão em sueco, “ser deixado entrar no calor” — ou seja, ser acolhido no grupo, passar a fazer parte de uma comunidade. Em um país marcado por longos e escuros invernos, a imagem fala por si só.

Há uma década, os Democratas Suecos (SD), um partido de extrema direita contrário à imigração e com raízes no movimento neonazista sueco, estavam firmemente mantidos do lado de fora, no frio.

Mas, após as eleições gerais de 2018, um impasse político levou os partidos de direita a repensarem suas alianças — e seus princípios.

Hoje, o SD é o segundo maior partido da Suécia, fornecendo o apoio parlamentar que mantém o atual governo no poder. Um partido que antes era rejeitado por todas as grandes forças políticas agora foi definitivamente acolhido no centro do poder.

De skinheads a ternos

O SD foi fundado nos anos 1980 por simpatizantes do nazismo e surgiu do movimento de extrema direita e de skinheads “Keep Sweden Swedish” (“Mantenha a Suécia Sueca”).

Seu primeiro auditor, Gustaf Ekstrom, era veterano do braço de combate da SS, uma das principais organizações da Alemanha nazista, e outros membros da direção haviam pertencido a movimentos violentos de extrema direita.

Após os anos 1990, o SD tentou “limpar sua imagem” para escapar da associação com o neonazismo, explicou ao Al Jazeera Morgan Finnsio, pesquisador sueco que estuda movimentos de extrema direita na Fundação Expo.

Um exemplo disso foi a adoção, em 2003, da ideia de uma “suecidade aberta” (open Swedishness), segundo a qual a identidade sueca não seria biologicamente exclusiva e a assimilação seria, em teoria, possível.

Entre 2014 e 2020, o SD realizou novas mudanças cosméticas e gestos de moderação, passando a se apresentar como um partido “conservador”, afirmou Finnsio.

A direção do partido expulsou sua ala juvenil por “extremismo”, removeu alguns membros — embora de forma inconsistente — e desencorajou o compartilhamento de conteúdo da mídia alternativa de extrema direita.

O partido também abandonou sua defesa da saída da União Europeia e sua oposição à entrada da Suécia na OTAN.

Daphne Halikiopoulou, professora de política comparada da Universidade de York, afirmou ao Al Jazeera que o SD seguiu o mesmo caminho de vários outros partidos de extrema direita europeus: alterou gradualmente sua retórica e passou a se apresentar como uma força de direita radical moderada.

Segundo ela, o partido “purificou-se de seus elementos extremistas” e reformulou sua imagem, substituindo um antigo símbolo associado aos vikings por uma flor de aparência mais inofensiva.

Avanço político

Em setembro de 2010, o SD ultrapassou a barreira de 4% dos votos e entrou pela primeira vez no Parlamento, conquistando 20 cadeiras.

Depois de anos construindo uma narrativa que associava imigração a criminalidade, terrorismo e segurança nacional, a crise dos refugiados de 2015 ofereceu ao partido a oportunidade que esperava.

Naquele ano, cerca de 1,3 milhão de solicitantes de asilo chegaram à Europa. Apenas na Suécia, 163 mil pessoas chegaram, o maior número anual da história do país e a maior proporção per capita de toda a União Europeia.

Segundo a pesquisa anual SOM, a imigração tornou-se quase imediatamente a questão mais importante para 53% dos eleitores suecos.

Nas eleições de 2018, o SD capitalizou esse cenário, conquistando 17,5% dos votos e 62 cadeiras, tornando-se o terceiro maior partido do país.

Foi nesse momento que o SD, antes tratado amplamente como um “partido pária”, começou a ser aceito pelo sistema político tradicional, afirmou Zina al-Dewany, comentarista política e colunista do jornal Aftonbladet.

Entre 2018 e 2022, em uma série de gestos simbólicos, um partido após outro mudou sua posição em relação ao SD.

O processo começou com os Democratas Cristãos (KD), em julho de 2019, quando sua líder Ebba Busch encontrou o dirigente do SD, Jimmie Åkesson, para uma refeição presencial que ficou conhecida como “o almoço das almôndegas”.

Depois foi a vez do Partido Moderado, cujo líder Ulf Kristersson — atual primeiro-ministro da Suécia — recebeu Åkesson em seu gabinete para uma tradicional fika sueca, uma pausa para café com doces e conversa informal.

O cenário aparentemente banal tinha grande peso político: simbolizava o fim do cordão sanitário contra a extrema direita e o rompimento de uma promessa feita por Kristersson em 2018 à psicóloga, escritora e sobrevivente do Holocausto Hédi Fried, de que jamais cooperaria com o SD, partido com histórico de declarações antissemitas.

O acordo de Tidö

Em outubro de 2022, os liberais abriram definitivamente a porta para o SD, e quatro líderes partidários de direita se reuniram no histórico Castelo de Tidö.

Ali assinaram um acordo de 62 páginas — conhecido como Acordo de Tidö — que estabeleceu a atual coalizão governamental sueca e promoveu grandes mudanças nas políticas de imigração e segurança pública.

O acordo formal foi firmado, mas os liberais ainda mantiveram uma barreira: negociariam políticas com o SD, porém recusavam-se a participar de um gabinete governamental formal junto com o partido.

O abraço final

Em maio de 2026, essa última barreira caiu quando Simona Mohamsson, líder dos Liberais e ministra da Educação e Integração, anunciou que seu partido permitiria que o SD participasse de um futuro governo.

Depois, em uma transmissão ao vivo, Åkesson ofereceu um aperto de mão. Mohamsson o abraçou — uma cena que causou forte impacto político na Suécia, em parte pelo perfil dos envolvidos e pelo que representavam.

Mohamsson nasceu na Alemanha, filha de pai palestino e mãe libanesa, e mudou-se para a Suécia aos oito anos. Ela era conhecida por seu ativismo antirracista e por posições social-liberais.

No início de sua carreira política, fez campanha contra a extrema direita e se opôs ao SD. Até outubro, em um artigo de opinião, afirmou que não queria o partido no governo porque seus integrantes “não se comportam adequadamente”.

Mesmo após anunciar publicamente a mudança de posição, em uma reunião interna do partido ela teria admitido que o SD não era sua primeira escolha:

“Eles têm muitos membros que não me veem como sueca.”

Normalização da ideologia de extrema direita

Desde o Acordo de Tidö, o SD tornou-se parte integrante da tomada de decisões do governo, funcionando como uma espécie de “governo paralelo”, explicou al-Dewany.

Sua influência é especialmente visível na área da justiça criminal, onde apoiou penas mais duras e a ampliação do encarceramento.

O partido defendeu reduzir a idade de responsabilidade criminal para 13 anos. Sem apoio parlamentar suficiente, o governo acabou estabelecendo o limite em 14 anos — ainda assim uma redução significativa em relação aos 15 anos anteriores.

A transformação do SD também levou outros partidos de direita a adotarem sua linguagem.

Finnsio afirmou que, especialmente os Moderados e os Democratas Cristãos, incorporaram a narrativa segundo a qual a imigração — e principalmente os imigrantes que “não conseguem se integrar” — estaria no centro de praticamente todos os problemas sociais e econômicos da Suécia.

“Assim vemos os Moderados comemorando publicamente que conseguiram reduzir a chamada ‘imigração de asilo’ a níveis historicamente baixos — um tipo de discurso que seria impensável na política sueca antes do sucesso do SD.”

Os Moderados há anos associam criminalidade e imigração, enquanto os Democratas Cristãos passaram a defender que muitos problemas sociais da Suécia resultam da incapacidade da maioria de afirmar valores “suecos e cristãos” supostamente ameaçados pela imigração.

Segundo al-Dewany, ao normalizar o SD, os partidos tradicionais também normalizam suas políticas, colocando em risco pessoas de origem estrangeira.

Ela acrescenta que houve aumento de casos de bullying contra crianças em escolas e crescimento do sentimento anti-muçulmano.

Assimilação, não integração

Inserida no discurso da direita sobre imigração está a questão da “integração”. Mas o jornalista político sueco Tanvir Mansur argumenta que o que realmente se quer dizer é assimilação.

Ele explica isso através do ambiente de trabalho.

Uma pessoa não branca, afirma Mansur, frequentemente se vê como a única — ou uma das poucas — sem as mesmas referências culturais dos colegas.

Conversas sobre casas de verão, viagens de esqui e outros costumes durante as fikas podem fazê-la sentir-se como uma estrangeira.

Para realmente se encaixar, a pressão é clara:

“Você teria que mudar a forma como fala, falar com uma voz mais parecida com a de uma pessoa branca — e então teria que aprender essas referências.”

Ele vê o abraço de Mohamsson ao SD como um exemplo disso: uma forma de “compensação excessiva” para provar o quanto ela é sueca, uma espécie de “máscara nacionalista”.

Eleições futuras

Al-Dewany acredita que até mesmo eleitores de direita podem sentir que o atual governo foi longe demais com algumas de suas políticas mais duras de imigração.

As deportações de jovens, especialmente daqueles que chegaram ainda crianças e passaram a maior parte da vida no país, provocaram forte reação pública.

Pesquisas indicam agora que o bloco oposicionista de esquerda está em condições de vencer as eleições de setembro, o que encerraria o domínio formal do SD sobre o poder.

Mas, para Mansur, a questão mais profunda não é apenas sobre um partido ou uma eleição.

Ele cita Nooshi Dadgostar, líder do Partido da Esquerda, que tem origem iraniana:

“Eu nunca a ouvi falar sobre ser iraniana, sobre cultura persa, sobre sua língua ou qualquer coisa desse tipo.”

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