Principal partido de oposição da Polônia entra em colapso após guinada à extrema direita
Uma disputa pelo poder no principal partido de oposição da Polônia chegou ao auge
“Mais de 30 representantes do nosso grupo, na prática, renunciaram à sua filiação”, afirmou na sexta-feira Jarosław Kaczyński, líder do partido Lei e Justiça (PiS). Ele acusa o ex-primeiro-ministro da Polônia, Mateusz Morawiecki, e dezenas de seus apoiadores de tentarem dividir o partido.
“Não podíamos aceitar isso”, continuou Kaczyński. “Está tudo encerrado.”
Já os dissidentes afirmam que não renunciaram ao partido, mas foram “expulsos”.
Uma reunião de três horas, considerada a “última chance” para um acordo entre Kaczyński e Morawiecki, terminou sem resultados na quinta-feira.
“Buscávamos um entendimento, mas não podíamos aceitar a submissão”, escreveu depois no X o eurodeputado Piotr Mueller, aliado de Morawiecki.
O ultimato imposto por Kaczyński aos integrantes da ala rebelde expirou à meia-noite. Até esse prazo, eles deveriam apresentar uma declaração por escrito comprometendo-se a não participar das atividades da associação Rozwój Plus (Desenvolvimento Plus), liderada por Morawiecki. Na avaliação de Kaczyński, essa organização paralela enfraquece a primazia do PiS.
“Não vou assinar nenhum juramento de lealdade”, declarou Morawiecki à emissora polonesa TVN. “Isso é algo que poderiam ter exigido de mim nos anos 1980”, acrescentou, em referência à perseguição que sofreu durante o regime comunista devido à atuação de seu pai na oposição.
Polônia volta a se inclinar para a direita
Há um quarto de século, Kaczyński e o PiS dominam o campo da direita na política polonesa. Todas as tentativas de criar uma nova força mais radical nesse espectro foram neutralizadas com sucesso.
Desde sua fundação, em 2001, o PiS governou o país em dois períodos (2005–2007 e 2015–2023) e também ocupou a Presidência da República com Lech Kaczyński, irmão gêmeo de Jarosław, depois com Andrzej Duda e, desde meados de 2025, com Karol Nawrocki.
A maior crise desde a fundação do partido
Pouco mais de um ano antes das próximas eleições parlamentares, o PiS enfrenta a maior crise de sua história.
Nesse período, consolidaram-se à direita do PiS duas novas forças políticas:
- a aliança nacionalista e libertária de extrema direita Confederação Liberdade e Independência (KWIN);
- a Confederação da Coroa Polonesa (KKP), de extrema direita, ultranacionalista e tradicionalista.
Juntas, essas duas legendas aparecem com mais apoio nas pesquisas de opinião do que o próprio PiS, que perdeu parte significativa de seu eleitorado para esses grupos mais radicais.
Na tentativa de recuperar esses votos, Kaczyński deslocou o partido ainda mais para a direita. Em março, indicou Przemysław Czarnek, ex-ministro da Educação e Ciência, conhecido por suas posições ultraconservadoras e ultracatólicas, como principal candidato do PiS para as eleições parlamentares de 2027.
Morawiecki e seus aliados classificaram essa decisão como um erro estratégico.
“Dois pulmões” ou “um punho”
Czarnek procura disputar espaço com os dois partidos da Confederação adotando um discurso ainda mais duro contra a União Europeia e a Ucrânia.
Durante a recente disputa entre Polônia e Ucrânia sobre questões históricas ainda não resolvidas, Czarnek defendeu a suspensão de toda a ajuda militar a Kiev até que o governo ucraniano mudasse sua posição.
Seus apoiadores afirmam que o partido deve agir “como um punho”.
Em resposta ao deslocamento do PiS para a extrema direita, Morawiecki criou a associação política Desenvolvimento Plus. No fim de julho, convidou cerca de mil pessoas de diferentes correntes políticas para um encontro destinado a discutir o futuro do país durante um churrasco.
O ex-primeiro-ministro também percorre diversas regiões da Polônia reunindo-se com políticos locais e empresários.
Já em abril, ele havia entrado em choque com Kaczyński, que o acusou de colocar em risco a unidade do partido. Na ocasião, porém, o líder do PiS aceitou a iniciativa de Morawiecki e afirmou que o partido possuía “dois pulmões”. O compromisso, entretanto, durou pouco.
A tentativa de conquistar novos eleitores
Em suas aparições públicas, Morawiecki tem insistido que pretende permanecer no PiS.
Segundo ele, seu objetivo é ampliar a base eleitoral do partido para atrair novos eleitores e garantir o retorno dos conservadores ao poder em 2027.
Até poucos dias atrás, Morawiecki contava com o apoio de cerca de 40 deputados do Sejm, a câmara baixa do Parlamento polonês, além de vários eurodeputados. No entanto, ainda não está claro quantos deles resistirão à pressão exercida por Kaczyński.
Pesquisa realizada pelo instituto Opinia24 para os canais TVN e TVN24, em 22 de julho, atribuiu 6,2% das intenções de voto a Morawiecki, enquanto o apoio ao PiS caiu para 17,7%. Nas eleições parlamentares de 2023, o PiS, sob a liderança de Kaczyński, havia obtido 35% dos votos.
Um outsider dentro do PiS
Apesar de ocupar posições de destaque no governo, Morawiecki continua sendo visto como um outsider entre os dirigentes históricos do PiS, que acompanham Kaczyński desde os anos 1990.
Formado em História, após a transição democrática da Polônia ele ocupou cargos de direção em diversos bancos antes de ingressar no PiS, em 2016.
Durante os governos do partido, foi ministro do Desenvolvimento, ministro das Finanças e, posteriormente, primeiro-ministro.
Morawiecki e seus aliados acusam seus adversários internos de promoverem uma conspiração para afastá-los.
Satisfação na coalizão governista
A coalizão de centro-direita que governa a Polônia, liderada pelo atual primeiro-ministro Donald Tusk, não escondeu a satisfação diante da crise no PiS.
“Gosto tanto do PiS que adoraria ter dois”, ironizou o ministro das Relações Exteriores, Radosław Sikorski, ao comentar a notícia.
A cientista política Danuta Plecka afirmou que a situação representa “um presente” para o governo.
“Todos os escândalos dos últimos meses passam agora para o segundo plano. Tusk não precisa fazer nada; basta sentar-se à beira do rio e esperar os corpos passarem”, disse.
Apesar disso, a pesquisadora da Universidade de Gdańsk considera possível que o conflito entre Kaczyński e Morawiecki seja, na realidade, uma encenação política.
“Praticamente não existem diferenças programáticas entre os dois”, afirmou à TVN. “A principal diferença está na linguagem e nas táticas políticas.”
Segundo ela, Morawiecki pode estar tentando conquistar eleitores mais próximos do centro político para, após as eleições, voltar a atuar em conjunto com Kaczyński.
