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No YouTube, o negacionismo climático muda de estratégia
Negacionismo

No YouTube, o negacionismo climático muda de estratégia

Um estudo de mais de 12 mil vídeos constatou que os esforços para desacreditar o movimento climático deixaram de se concentrar na questão de saber se as mudanças climáticas são reais e passaram a enfatizar o ceticismo em relação às soluções, aos ativistas e aos cientistas

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Via NBC

Tempo de leitura: 8 minutos.

As vozes que negam as mudanças climáticas encontraram um novo refrão.

Em vez de rejeitar o fato de que a Terra está esquentando, elas agora estão concentrando seus esforços no ceticismo em relação às soluções para a crise climática, bem como nos ataques a cientistas e ativistas e, de modo geral, à própria ideia de que as mudanças climáticas causarão danos, segundo um novo relatório do Center for Countering Digital Hate (Centro de Combate ao Ódio Digital), uma organização sem fins lucrativos que pesquisa discurso de ódio e desinformação no ambiente digital.

A análise da organização sugere que a rejeição aberta das mudanças climáticas já não é um argumento tão convincente quanto antes. Por isso, os céticos climáticos estariam deslocando a disputa ideológica para a questão de quão seriamente a humanidade deve levar as mudanças climáticas ou o que deveria ser feito a respeito. O relatório também afirma que as políticas de conteúdo da empresa controladora do YouTube, o Google — que deveriam impedir que anúncios financiem conteúdos que rejeitam o consenso científico sobre a existência e as causas das mudanças climáticas — são ineficazes e deveriam ser atualizadas.

“Uma nova frente se abriu nessa batalha”, afirmou Imran Ahmed, diretor-executivo da organização, durante uma coletiva de imprensa. “Eles passaram de dizer que as mudanças climáticas não estão acontecendo para dizer agora: ‘Ei, as mudanças climáticas estão acontecendo, mas não há esperança. Não existem soluções’.”

Cientistas que estudam os sistemas terrestres concordam há décadas que a queima de combustíveis fósseis pelos seres humanos provoca um desequilíbrio na concentração de gases que retêm calor na atmosfera, aquecendo o planeta. A Terra já esquentou aproximadamente 1,2 grau Celsius, em média, desde o período anterior à industrialização, quando os combustíveis fósseis começaram a impulsionar as economias.

Esse aquecimento está derretendo plataformas de gelo, provocando a elevação do nível do mar e intensificando o ciclo da água. Nos últimos anos, os cientistas conseguiram relacionar eventos específicos, como as ondas de calor mortais que atingiram o Noroeste do Pacífico em 2021, às mudanças climáticas provocadas pela atividade humana.

A percepção pública sobre as mudanças climáticas nos Estados Unidos mudou nas últimas décadas, mas o tema continua altamente politizado, segundo o Pew Research Center. O Environmental and Energy Study Institute, uma organização sem fins lucrativos, afirmou em um relatório publicado em fevereiro que “os norte-americanos estão cada vez mais convencidos de que o aquecimento global está acontecendo, é causado pelos seres humanos e constitui um problema grave. Os norte-americanos também compreendem cada vez mais que os impactos climáticos já estão presentes e gostariam de ver uma maior atuação do governo”.

O Center for Countering Digital Hate é uma organização sem fins lucrativos cujo objetivo declarado é “proteger os direitos humanos e as liberdades civis”, responsabilizando as empresas de redes sociais por suas ações. Ahmed afirmou que a organização está “estreitamente integrada ao movimento climático”.

Para sua análise, a organização utilizou um modelo de inteligência artificial para avaliar os argumentos apresentados em mais de 12 mil vídeos do YouTube, provenientes de 96 canais que, segundo a organização, veiculavam conteúdos de negação das mudanças climáticas. Entre eles estavam vídeos da Blaze TV, um canal de mídia conservador, e do Heartland Institute, um centro de estudos que defende o livre mercado. Os vídeos foram publicados entre janeiro de 2018 e setembro de 2023.

Segundo o relatório, o “modelo de aprendizado profundo” processou as transcrições dos vídeos do YouTube e procurou identificar a presença de determinados temas relacionados à negação das mudanças climáticas. Avaliadores independentes verificaram parte das transcrições e avaliaram a precisão do modelo. Segundo esses avaliadores, o sistema identificou corretamente as alegações negacionistas em cerca de 78% dos casos.

“Temos muita confiança de que, em escala, essa análise nos fornece dados muito sólidos que indicam essas tendências”, afirmou Ahmed.

Ao longo dos mais de cinco anos analisados, os pesquisadores constataram que os argumentos segundo os quais as soluções climáticas não funcionarão, ou de que os defensores da ação climática — tanto na ciência quanto no ativismo — não são confiáveis, cresceram 21,4 e 12 pontos percentuais, respectivamente. Já a ideia de que o aquecimento global não está acontecendo caiu 34,3 pontos percentuais.

Pesquisadores externos afirmaram que a análise corresponde a tendências que vêm observando nos últimos anos.

John Cook, pesquisador sênior do Melbourne Centre for Behaviour Change, da Universidade de Melbourne, na Austrália, desenvolveu o modelo de inteligência artificial utilizado pelo Center for Countering Digital Hate.

A pesquisa de Cook concentrou-se nas tendências presentes em blogs de céticos climáticos e nos sites de centros de estudos conservadores entre 1998 e 2020.

A pesquisa, publicada na revista científica revisada por pares Scientific Reports, identificou uma tendência semelhante.

“Está claro que o futuro da desinformação climática estará cada vez mais concentrado nas soluções e nos ataques à própria ciência climática”, afirmou Cook em um e-mail. “A desinformação que tem como alvo as soluções procura atrasar a ação climática, enquanto a desinformação que ataca a ciência climática corrói a confiança do público na ciência e nos cientistas do clima.”

John Kotcher, professor associado de pesquisa do Center for Climate Change Communication da George Mason University, que realiza pesquisas sobre as crenças e opiniões dos norte-americanos em relação às mudanças climáticas, disse ter observado tendências semelhantes. Suas pesquisas perguntam aos norte-americanos que tipos de perguntas fariam a um especialista em aquecimento global.

Entre 2011 e 2023, os entrevistados demonstraram cada vez menos interesse em perguntas como se o aquecimento global seria uma fraude, se estaria realmente acontecendo, como os especialistas sabem que está acontecendo e se ele prejudicará as pessoas, segundo as pesquisas.

“Tudo isso é consistente com a ideia de que as mensagens de oposição mudaram estrategicamente seu foco — de questionar se as mudanças climáticas estão realmente acontecendo para se concentrar em quão grave é o problema, quão ruim ele realmente é e quão eficazes são as soluções propostas”, afirmou Kotcher.

Kotcher disse que suas pesquisas sugerem que aqueles que defendem uma ação contra as mudanças climáticas concordam com um conjunto de fatos fundamentais: que as mudanças climáticas são reais; que os seres humanos são sua principal causa; que os cientistas concordam com essas duas afirmações; que seus impactos negativos já estão sendo sentidos atualmente; que outras pessoas também se preocupam com o problema; e que existem soluções disponíveis hoje.

“Declarar uma trégua em um desses principais campos de batalha — justamente a existência das mudanças climáticas — de fato altera ligeiramente a percepção na direção que considero correta, levando as pessoas a uma compreensão do problema mais baseada em fatos”, afirmou Kotcher.

O relatório do Center for Countering Digital Hate também critica as políticas do YouTube sobre desinformação climática, afirmando que a plataforma não está conseguindo impedir a monetização de narrativas negacionistas. O relatório inclui capturas de tela de anúncios exibidos em vídeos que a organização classifica como “velho negacionismo”, ou seja, conteúdos que negam explicitamente que as mudanças climáticas estejam acontecendo.

A organização sem fins lucrativos defende que o YouTube e o Google ampliem os tipos de conteúdo que não podem ser monetizados, incluindo aquilo que classifica como “novo negacionismo”: conteúdos que rejeitam o consenso científico sobre as “causas, impactos e soluções” das mudanças climáticas.

O YouTube possui equipes de fiscalização que analisam conteúdos considerados questionáveis, inclusive materiais relacionados às mudanças climáticas. A plataforma analisou o relatório do Center for Countering Digital Hate e concordou que alguns dos vídeos citados violavam suas políticas sobre mudanças climáticas. No entanto, afirmou que a maioria dos vídeos estava em conformidade com suas regras.

“Nossa política sobre mudanças climáticas proíbe a veiculação de anúncios em conteúdos que contradigam o consenso científico bem estabelecido sobre a existência e as causas das mudanças climáticas”, afirmou Nate Funkhouser, porta-voz do YouTube, em um e-mail. “Debates ou discussões sobre temas relacionados às mudanças climáticas, inclusive sobre políticas públicas ou pesquisas, são permitidos. No entanto, quando o conteúdo ultrapassa a linha e passa a constituir negacionismo climático, deixamos de exibir anúncios nesses vídeos. Também exibimos painéis informativos abaixo dos vídeos relevantes para fornecer informações adicionais sobre as mudanças climáticas e contexto proveniente de terceiros.”

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