O erro de pensamento na raiz do negacionismo científico
Mudanças climáticas, evolução biológica e vacinação infantil são três temas centrais para combater os negacionistas
Não existem tons de cinza
Atualmente, há três questões importantes nas quais existe consenso científico, mas controvérsia entre o público leigo: mudanças climáticas, evolução biológica e vacinação infantil. Nos três casos, membros proeminentes do governo Trump, incluindo o próprio presidente, posicionaram-se contra as conclusões das pesquisas.
Essa rejeição generalizada às descobertas científicas representa um enigma desconcertante para aqueles que valorizam uma abordagem baseada em evidências para o conhecimento e para as políticas públicas.
Ainda assim, muitos negacionistas da ciência citam evidências empíricas. O problema é que fazem isso de maneiras inválidas ou enganosas. Pesquisas na área da psicologia ajudam a compreender essas estratégias.
Como psicoterapeuta, observo uma forte semelhança entre um tipo de pensamento presente em diversos transtornos de saúde mental e o raciocínio por trás do negacionismo científico. O pensamento dicotômico, também chamado de pensamento preto no branco ou pensamento tudo-ou-nada, está relacionado à depressão, à ansiedade, à agressividade e, especialmente, ao transtorno de personalidade borderline.
Nesse tipo de cognição, um espectro de possibilidades é dividido em duas partes, apagando-se as distinções existentes dentro de cada categoria. Os tons de cinza desaparecem; tudo passa a ser considerado preto ou branco. O pensamento dicotômico não é necessariamente sempre errado, mas é uma ferramenta ruim para compreender realidades complexas, porque estas geralmente envolvem espectros de possibilidades, e não oposições binárias.
Às vezes, esses espectros são divididos de maneira bastante assimétrica, com uma das metades do binário sendo muito maior que a outra. Os perfeccionistas, por exemplo, classificam seu trabalho como perfeito ou insatisfatório; resultados bons e muito bons acabam agrupados junto aos ruins na categoria “insatisfatório”. No transtorno de personalidade borderline, os parceiros de uma relação podem ser percebidos como totalmente bons ou totalmente maus, de modo que um comportamento que cause sofrimento faz com que a pessoa passe imediatamente de uma categoria à outra. É como um sistema de avaliação de aprovado ou reprovado no qual 100% de acerto significa aprovação e qualquer resultado abaixo disso significa reprovação.
Nas minhas observações, vejo negacionistas da ciência empregarem esse pensamento dicotômico ao lidar com afirmações sobre a verdade. Ao avaliar as evidências a favor de uma hipótese ou teoria, eles dividem o espectro de possibilidades em duas partes desiguais: certeza absoluta e controvérsia inconclusiva. Qualquer dado que não sustente uma teoria é interpretado como sinal de que a formulação está fundamentalmente em dúvida, independentemente da quantidade de evidências favoráveis existentes.
Da mesma forma, os negacionistas percebem o espectro de concordância científica como dividido em duas categorias desiguais: consenso perfeito ou ausência total de consenso. Qualquer divergência em relação a 100% de concordância é classificada como falta de consenso, o que é então interpretado como sinal de uma controvérsia fundamental dentro da área.
Não existe “prova” na ciência
Na minha visão, os negacionistas da ciência aplicam de maneira equivocada o conceito de “prova”.
A prova existe na matemática e na lógica, mas não na ciência. A pesquisa constrói conhecimento por meio de avanços progressivos. À medida que as evidências empíricas se acumulam, produzimos aproximações cada vez mais precisas da verdade última, mas não existe um ponto final definitivo nesse processo. Os negacionistas exploram a distinção entre prova e evidência convincente, classificando ideias empiricamente muito bem fundamentadas como “não comprovadas”. Essas afirmações são tecnicamente corretas, mas extremamente enganosas, porque não existem ideias cientificamente provadas em sentido absoluto e, ainda assim, as ideias fundamentadas em evidências são os melhores guias que temos para agir.
Tenho observado os negacionistas utilizarem uma estratégia de três etapas para enganar pessoas sem formação científica. Primeiro, citam áreas de incerteza ou controvérsia, por menores que sejam, existentes no conjunto das pesquisas, para invalidar a conduta que desejam contestar. Em seguida, classificam o estado geral daquele conjunto de pesquisas como incerto e controverso. Finalmente, defendem que se deve agir como se as pesquisas simplesmente não existissem.
Por exemplo, os céticos em relação às mudanças climáticas partem do reconhecimento de que não compreendemos completamente todas as variáveis relacionadas ao clima para concluir que não temos conhecimento confiável algum. Da mesma maneira, atribuem o mesmo peso aos 97% dos cientistas do clima que defendem o aquecimento global provocado pela atividade humana e aos 3% que discordam, embora muitos destes últimos recebam apoio da indústria de combustíveis fósseis.
Esse mesmo tipo de pensamento pode ser encontrado entre os criacionistas. Eles parecem interpretar qualquer limitação ou mudança na teoria da evolução como sinal de que a validade de todo esse campo de pesquisa está fundamentalmente em dúvida.
Por exemplo, o biólogo James Shapiro descobriu um mecanismo celular de alteração do genoma que Darwin desconhecia. Shapiro considera que sua pesquisa acrescenta elementos à teoria da evolução, e não que a derrube. Ainda assim, sua descoberta e outras semelhantes, quando filtradas pelo pensamento dicotômico, acabam dando origem a artigos com títulos como “Cientistas confirmam: o darwinismo está quebrado”, publicados por defensores do chamado “design inteligente”. Shapiro insiste que sua pesquisa não oferece qualquer apoio ao design inteligente, mas os defensores dessa pseudociência continuam citando seu trabalho como se oferecesse.
Trump, por sua vez, emprega o pensamento dicotômico em relação à possibilidade de uma ligação entre vacinas infantis e autismo. Apesar de pesquisas exaustivas e do consenso de todas as principais organizações médicas de que não existe tal relação, Trump frequentemente mencionou uma suposta ligação entre vacinas e autismo e defendeu mudanças no protocolo padrão de vacinação para proteger contra esse perigo inexistente.
Existe um enorme abismo entre conhecimento perfeito e ignorância total, e vivemos a maior parte de nossas vidas nesse espaço intermediário. A tomada de decisões informadas no mundo real nunca pode ser perfeitamente informada. Mas responder às incertezas inevitáveis ignorando as melhores evidências disponíveis não é uma alternativa à ciência — o imperfeito método de conhecimento que temos à nossa disposição.
