Pular para o conteúdo
Na Croácia, a extrema direita ressurgente muda o clima político
Extrema Direita

Na Croácia, a extrema direita ressurgente muda o clima político

Durante anos, a Croácia foi um exemplo brilhante de progresso nos Bálcãs e um parceiro cooperativo dentro da União Europeia. Mas, no último ano, houve uma mudança preocupante na política interna do país

Por

Via DW

Tempo de leitura: 6 minutos.

Desde que ingressou na União Europeia há mais de 12 anos, a Croácia vem cultivando sua imagem como um parceiro cooperativo dentro do bloco de 27 países.

Ao contrário de seu vizinho muito mais problemático ao norte, a Hungria, a Croácia não traçou uma política externa que se desvie da linha principal da UE e apoiou todas as sanções do bloco contra a Rússia. O país também tem desempenhado um papel construtivo com outros países dos Bálcãs que desejam aderir à União Europeia.

Em termos de política interna, tudo também parecia mais ou menos estável. A Croácia vivenciou um crescimento econômico lento, porém constante. Uma coalizão liderada pela conservadora União Democrática Croata, ou HDZ, governa o país há anos. A coalizão, liderada pelo primeiro-ministro Andrej Plenkovic, está agora em seu terceiro mandato.

Alguns descrevem Plenkovic como um “servo de Bruxelas”. Ele é considerado liberal, mas, ao mesmo tempo, conseguiu manter satisfeitas as forças mais conservadoras em seu partido e na sociedade croata em geral.

Essa estabilidade também beneficiou as minorias da Croácia e, em particular, a maior minoria do país, os sérvios croatas. Nacionalistas de direita frequentemente tentavam usar os sérvios como bode expiatório, mas o Partido Democrático Sérvio Independente (SDSS) foi parceiro de coalizão de Plenkovic por muito tempo. Isso significava que os excessos antissérvios eram, em grande parte, fenômenos políticos marginais.

Concerto popular encoraja a extrema direita

Tudo isso pareceu mudar neste verão. O ponto de virada ocorreu durante um concerto ao ar livre do cantor de rock croata Marko Perkovic, cujo nome artístico é “Thompson”, em referência à metralhadora que ele usou durante a guerra de independência da Croácia, entre 1991 e 1995.

Perkovic é conhecido por suas músicas nacionalistas e até de extrema direita. Um de seus maiores sucessos começa com o brado “Pela pátria — Prontos!”, um grito usado pelo regime Ustasha da era nazista na Croácia, que administrou campos de concentração durante a Segunda Guerra Mundial.

Concertos anteriores já foram cancelados devido ao seu enfoque de extrema direita, mas isso não parece ter diminuído sua popularidade. O concerto de 5 de julho, em Zagreb, realizado no hipódromo da cidade, atraiu cerca de 500 mil pessoas. Antes e depois do evento, fãs exibiram símbolos Ustasha e gritaram slogans. A polícia presente no concerto não interveio.

Na véspera do concerto, o primeiro-ministro Plenkovic participou de um ensaio com seus filhos e tirou uma foto com Perkovic. Outros ministros e parlamentares também se gabaram de ter ido ao show.

Jurica Pavicica, jornalista croata e colunista sobre assuntos culturais, disse que o concerto funcionou como um tiro de largada para a extrema direita do país.

“Havia muita gente lá e um grande volume de iconografia neonazista”, disse ele à DW. “O governo anteriormente moderado e conservador cedeu a essa multidão.”

‘O espaço de liberdade está encolhendo na Croácia’

O concerto de Perkovic teve impacto significativo. Ao longo do verão, associações de veteranos organizaram protestos em diferentes cidades, tentando impedir festivais culturais que consideravam liberais demais.

A minoria sérvia da Croácia passou a ser cada vez mais alvo. No início de novembro, membros vestidos de preto da torcida organizada Torcida Split interromperam violentamente uma noite de folclore e teatro em Split. O evento seria a abertura do festival Dias da Cultura Sérvia. Os ultras gritaram slogans fascistas e insultaram sérvios.

Em Zagreb, em 7 de novembro, indivíduos mascarados tentaram impedir a abertura de uma exposição no Centro Cultural Sérvio, até que a polícia os dispersou. Os mascarados entoaram novamente o slogan Ustasha “Pela pátria — Prontos!” e também ameaçaram e insultaram sérvios.

Dois dias depois, indivíduos em Rijeka tentaram interromper um torneio de artes marciais no qual sérvios competiam, até serem detidos pela polícia.

Os políticos croatas reagiram de forma relativamente tímida a esses acontecimentos. O primeiro-ministro Plenkovic condenou os incidentes e disse que não há lugar para intolerância na sociedade croata. Ele rejeitou acusações de que seu governo estaria tolerando ideologias fascistas Ustasha.

Vesna Terselic, diretora da Documenta – Centro para Enfrentamento do Passado, sediado em Zagreb, vê a situação de maneira diferente. Terselic acredita que as ações de alguns dos mais altos políticos da Croácia são responsáveis pelo clima cada vez mais xenófobo e agressivo no país.

“É angustiante ver como o espaço de liberdade está encolhendo na Croácia”, disse ela à DW.

O primeiro-ministro croata é o culpado?

“A Croácia não confrontou seu passado e suas instituições atualmente são incapazes — e eu realmente me pergunto se querem — de garantir a todos que vivem na República da Croácia um espaço de liberdade de expressão, de criatividade, na mídia e na academia”, afirmou Terselic.

Relativizar o passado e o regime Ustasha vem acontecendo há algum tempo, acrescentou ela, mas essa nova fase é a mais problemática.

“Vejo o primeiro-ministro como diretamente responsável”, disse ela.

O colunista Pavicic vê o que está acontecendo na Croácia como parte do movimento político geral rumo à direita em toda a Europa. Se o primeiro-ministro croata é responsável, então, para Pavicic, trata-se mais de sua falta de ação decisiva contra a extrema direita.

“É uma combinação de oportunismo, covardia e a sensação de que todo o momento político mudou para a direita”, explicou.

Até agora, a extrema direita ressurgente da Croácia tem se limitado, em grande parte, a ameaças e intimidações. Mas Pavicic disse que, no geral, a atmosfera se tornou mais agressiva.

Ao ser perguntado se acredita que isso pode resultar em violência, ele respondeu: “Sim, é possível. Não me surpreenderia.”

Você também pode se interessar por