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Precisamos nos reconectar com nossos valores antifascistas e defendê-los
Antifascismo

Precisamos nos reconectar com nossos valores antifascistas e defendê-los

Manifesto antifascista da Plataforma Aberta para o Congresso de Estrasburgo realizado em novembro de 2025

Por e

Via The New Federalist

Tempo de leitura: 7 minutos.

O artigo aqui apresentado faz parte da Plataforma Aberta, uma iniciativa do The New Federalist que permite que candidatos nas eleições dos Jovens Federalistas Europeus (JEF) compartilhem suas ideias com a rede antes do Congresso de Estrasburgo, que ocorrerá de 14 a 16 de novembro de 2025. Neste artigo, Cyprien Bettini e Konsti Petry, candidatos ao Comitê Federal, expõem seus pontos de vista.

Nossa observação parte de uma preocupação: estamos testemunhando uma crescente brutalização do espaço público. Embora esse fenômeno tenha ganhado força inicialmente nos Estados Unidos, especialmente durante a presidência de Donald Trump, ele agora encontra uma ressonância alarmante dentro da União Europeia e na maioria de seus Estados-membros.

O sinal mais evidente dessa tendência aparece nas urnas. Nas eleições europeias de 2024, forças ultraconservadoras e de extrema direita avançaram de forma significativa: três grupos parlamentares de direita e extrema direita (ECR, ENS e PfE) agora representam quase um terço do Parlamento Europeu. Sua influência é tamanha que alguns grupos tradicionais passaram a buscar ativamente alinhamentos com eles.

Esse fenômeno não é um acaso. Ele é o resultado de mais de uma década de “normalização” da extrema direita, uma estratégia da qual muitos governos nacionais se beneficiaram: Bélgica, Itália, Finlândia, República Tcheca, Suécia, Eslováquia e Hungria. E mesmo onde esses partidos não estão no poder, eles ainda representam uma força parlamentar relevante: França, Alemanha, Romênia, Bulgária, Países Baixos e Portugal. Em alguns países candidatos à UE, ativistas pró-europeus enfrentam repressão crescente ou tentativas de manipulação por parte do Kremlin ou de governos apoiados por ele.

Mas não nos enganemos: a aparência “normalizada” desses partidos não os tornou menos brutais. Seja em governos nacionais ou dentro das instituições europeias, grupos da direita radical e da extrema direita conduzem uma ofensiva cada vez mais agressiva contra o Estado de direito, os direitos fundamentais e os atores que os defendem: a mídia independente, a sociedade civil organizada e o meio acadêmico.

É um fato: a direita radical e a extrema direita não gostam de nós. E fazem questão de deixar isso muito claro. Isso se expressa, por exemplo:
– na emenda do grupo ECR que mira explicitamente a JEF e outras organizações juvenis;
– em Giorgia Meloni, que ataca abertamente o Manifesto de Ventotene e seus defensores, ao mesmo tempo em que expressa nostalgia pelo regime de Mussolini;
– nos Jovens Europeus de Toulouse, impedidos de realizar uma palestra educativa pela prefeitura de Perpignan (Patriots for Europe);
– no antigo grupo de interesse da JEF Lituânia, que difundiu discurso de ódio e atacou vários de nossos voluntários antes de deixar a rede;
– ou ainda no recente assédio a membros da JEF Munique pela recém-criada organização Ave Europa, que, sob uma fachada federalista, promove um discurso xenófobo e islamofóbico.

Hoje, esses ataques podem parecer inofensivos. Mas devemos esperar até que um de nossos membros seja fisicamente agredido, que percamos financiamento ou que sejamos completamente apagados do espaço público para reagir? Certamente que não. Não podemos mais nos dar ao luxo de apenas reagir. Precisamos agora nos perguntar quais instrumentos de ação temos à disposição — e, mais importante ainda, quais valores devemos defender hoje.

Em 1941, Altiero Spinelli definiu, a partir de Ventotene, os valores fundadores de nosso movimento. Três desses valores continuam a orientar nossa ação:
– Uma sociedade aberta, acolhedora para todas e todos, independentemente de gênero, crenças ou cor da pele — algo que só pode se concretizar em uma Europa federal;
– O diálogo com todas as forças políticas que compartilham essa ambição — base de nossa abordagem transpartidária;
– A rejeição clara e firme daqueles que se opõem a isso — à época, o regime fascista de Mussolini.

O estado atual do debate público e de nossas instituições nos obriga a repensar a relação entre esses dois últimos valores.

Ao contrário do que às vezes se afirma, a transpartidariedade não é uma recusa categórica de dialogar com partidos e grupos políticos. Trata-se, na verdade, de integrar nossas ideias em seus programas, sobretudo por meio de um enquadramento ideológico, a plataforma política. Em contrapartida, qualquer partido cujas ideias e valores sejam opostos aos nossos não merece — e não deve ser — alvo de nossa incidência política.

A extrema direita é um perigo universal e ameaça, antes de tudo, o nosso movimento. Para enfrentá-la, devemos estruturar nossa ação política em quatro pilares:
– Analisar a evolução dos partidos e movimentos de extrema direita para compreender sua retórica e seus métodos;
– Contrapor suas narrativas, ocupando mais espaço na mídia e nas redes sociais;
– Antecipar sua ascensão em nossas instituições, desenvolvendo ferramentas concretas de resistência, já testadas por algumas seções;
– Repensar nossa incidência política, construindo uma narrativa que responda às expectativas legítimas de cidadãs e cidadãos decepcionados com nossas instituições.

Refletir sobre o avanço da extrema direita implica refletir, de forma mais ampla, sobre nossa posição em relação ao sistema de tomada de decisões. Até agora, nossa governança se apoiou na produção acadêmica para legitimar uma narrativa política como “válida” por seu caráter “factual” ou mesmo “científico”.

Embora essa abordagem traga uma dimensão racional necessária ao debate público, ela também priva os cidadãos de sua capacidade de pensamento crítico. É essa alienação que alimenta críticas virulentas à chamada “tecnocracia europeia” e o crescimento das “fake news” e dos “fatos alternativos” sobre a União Europeia. Esses fenômenos são, na verdade, tentativas desajeitadas de cidadãos compreenderem os desafios a partir de seus próprios sistemas de conhecimento e valores, diante de instituições que têm dificuldade em levar suas visões em conta.

Em vez de impor fatos, que são percebidos como opiniões por aqueles que os rejeitam, devemos adotar uma concepção de racionalidade como prática de solidariedade, que se traduza na busca “entre valores e crenças compartilhados, de recursos suficientes que permitam um acordo sobre como coexistir sem violência”, como definiu o filósofo americano Richard Rorty.

Em outras palavras, diante da brutalização de nossas sociedades, impulsionada por governos e grupos de extrema direita, precisamos introduzir a empatia necessária para reconstruir o tecido social. Isso significa não apresentar o federalismo como A solução, mas como uma solução eficaz entre várias atualmente em disputa no campo político.

Esse trabalho não é apenas necessário: é um imperativo moral para a JEF. Em um momento tão turbulento de nossa história, precisamos redefinir nossos valores para nunca comprometer aquilo que somos. O antifascismo é um deles.

E quando a extrema direita voltar a ser uma força minoritária, quando tivermos demonstrado aos cidadãos, por meio do diálogo, que ela não é a solução, então teremos provado que somos, de fato, uma geração à frente.

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