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A integração gradual dos partidos de extrema direita na Europa
Extrema Direita

A integração gradual dos partidos de extrema direita na Europa

Onde os partidos de extrema direita estão integrados ao sistema da UE — e onde não estão

Por e

Via SWP - Berlim

Tempo de leitura: 9 minutos.

A União Europeia funciona, em grande medida, de acordo com os princípios da democracia de consenso — isto é, procura integrar o maior número possível de partidos de todo o espectro político dos seus Estados-membros. Diante do crescimento recente de partidos de extrema direita tanto a nível nacional quanto europeu, essa abordagem levou a uma maior participação dessas forças nas instituições da UE. A análise de atores-chave no nível europeu mostra que, pelo menos desde as eleições europeias de 2024, representantes de partidos de extrema direita estiveram envolvidos em todas as decisões importantes da UE. Os principais centros de sua influência são o Conselho Europeu e o Conselho da UE, onde participam como líderes ou parceiros em governos nacionais. Mas eles também vêm se tornando cada vez mais influentes no Parlamento Europeu, que se deslocou para a direita e onde agora são possíveis maiorias alternativas. Ao mesmo tempo, persistem diferenças significativas entre os partidos de extrema direita. Em última instância, o alcance de sua influência e qual tendência da extrema direita predomina dentro do sistema da UE dependem principalmente da maior força da política europeia: o Partido Popular Europeu (PPE).

Há vários anos, partidos de extrema direita vêm ganhando terreno de forma significativa em muitos Estados-membros da UE. Nas eleições europeias de 2024, o apoio a essas forças aumentou em 22 dos 27 países do bloco. Se forem excluídos os eurodeputados independentes, os partidos de extrema direita detêm hoje pouco mais de um quarto (26%) das cadeiras no Parlamento Europeu (PE) (ver Comentário SWP 44/2024). Embora ainda estejam longe de uma maioria, alcançaram um peso suficiente para influenciar o equilíbrio de poder no sistema político da UE — um sistema orientado ao consenso e a maiorias amplas. Mas até onde já vai essa influência?

Na análise a seguir, “extrema direita” refere-se a variantes “(populistas) radicais”, nacional-conservadoras e “extremas” da política de direita. O termo designa atores políticos coletivos no nível europeu que se situam na extrema direita do espectro ideológico esquerda-direita e, portanto, à direita dos partidos democrata-cristãos e conservadores que integram o PPE. Isso significa que a classificação dos partidos como “extrema direita” baseia-se, em primeiro lugar, na sua filiação a um dos três grupos políticos do PE à direita do PPE: Conservadores e Reformistas Europeus (ECR), Patriotas pela Europa (PfE) e Europa das Nações Soberanas (ESN). Em segundo lugar, os autores verificaram se o partido em questão foi classificado como “extrema direita” no projeto de pesquisa The PopuList.

Fragmentação no campo da extrema direita

O campo da extrema direita permanece altamente fragmentado no nível europeu. O grupo ECR, considerado “moderado”, representa posições nacional-conservadoras e eurocéticas “brandas”. Fundado em 2009, surgiu de uma iniciativa de cooperação entre o Partido Conservador do Reino Unido e o partido Lei e Justiça (PiS), da Polônia. Ao longo dos anos, expandiu-se para incluir partidos nacional-conservadores e críticos da UE, mas não se apresenta como uma força radicalmente contrária à integração europeia. Pelo contrário, critica o rumo político atual das instituições da UE, que, segundo o grupo, seguem uma agenda federalista que mina a soberania dos Estados-membros.

Durante legislaturas anteriores do PE, o ECR frequentemente desempenhou um papel cooperativo. Seus partidos-membros, incluindo o Irmãos da Itália (Fratelli d’Italia), de Giorgia Meloni, e o PiS polonês, votaram com o PPE em muitas questões e conseguiram projetar a imagem de forças capazes de trabalhar com outros atores no Parlamento. No entanto, sua orientação nacional-conservadora é claramente visível em temas como migração, igualdade e Estado de direito, o que dificulta distinguir nitidamente o ECR dos grupos PfE e ESN em termos substantivos.

No período pós-Brexit, o “euroceticismo duro” defendido por grandes partes do grupo PfE não visa predominantemente a saída da UE, mas a reversão fundamental do processo de integração europeia. O objetivo final é reduzir significativamente os poderes da Comissão Europeia e do Parlamento Europeu e retornar a uma Europa organizada principalmente de forma intergovernamental, com cooperação limitada essencialmente ao campo econômico. Internamente, o grupo é influenciado por grandes partidos-membros, como o Fidesz de Viktor Orbán e o Reagrupamento Nacional (Rassemblement National) da França, sob Marine Le Pen e Jordan Bardella.

Ao mesmo tempo, o PfE demonstra uma disposição crescente para passar da oposição fundamental a um papel ativo na formulação de políticas — por exemplo, ao assumir a relatoria das negociações para a definição da nova meta climática da UE para 2040. Já o grupo ESN, que inclui alguns partidos de extrema direita radical, manteve o caráter de um grupo “AfD plus”, incapaz de adquirir relevância real no PE devido ao seu papel de oposição fundamental e ao seu pequeno tamanho.

Avanços no nível nacional

Além das mudanças políticas no plano europeu, são sobretudo as dinâmicas nacionais que determinam o grau de influência que os partidos exercem dentro do sistema da UE. Isso fica evidente, em particular, quando partidos de extrema direita assumem responsabilidades de governo ou conquistam posições de bloqueio, como ocorre atualmente com o novo presidente da Polônia. Mas mesmo quando atores de extrema direita não alcançam o poder executivo no plano nacional, sua maior presença nos parlamentos pode fortalecer sua influência a ponto de repercutir no nível europeu. Isso é especialmente verdadeiro em Estados-membros onde esses partidos são a principal força de oposição, como na França ou na Alemanha, exercendo influência considerável sobre o debate de política europeia.

Em setembro de 2025, partidos de extrema direita chefiavam governos em quatro Estados-membros — Bélgica, Itália, República Tcheca e Hungria. Os partidos no poder na Bélgica (N-VA) e na República Tcheca (ODS) pertencem à ala mais moderada do ECR. A Hungria é a exceção entre esses quatro países: seu partido governante, o Fidesz, integra o grupo PfE no PE. Em cinco Estados-membros — Bulgária, Finlândia, Itália, Croácia e Eslováquia — partidos de extrema direita participam como parceiros menores em coalizões governamentais, enquanto os Democratas Suecos (ECR) apoiam o governo minoritário desde 2022. A Eslováquia é um caso especial: um partido de extrema direita (SNS), que não está representado no PE, atua como parceiro menor no governo do primeiro-ministro Robert Fico e de seu partido originalmente de esquerda, o Smer. Este último foi expulso do grupo dos Socialistas e Democratas (S&D) no PE e vem se deslocando cada vez mais para as margens do espectro político. Desde que o PVV de Geert Wilders deixou a coalizão governante holandesa, o único Estado-membro com um partido do PfE ou do ESN como parceiro de governo é a Itália, com a Lega (PfE). Assim, um terço de todos os governos nacionais é liderado ou apoiado por partidos de extrema direita.

A composição partidária dos governos nacionais também evidencia a importância do PPE: em sete dos nove países onde forças de extrema direita fazem parte do governo — com exceção da Eslováquia e da Hungria — partidos do PPE integram a coalizão governante.

Olhando para o futuro, uma análise sistemática das eleições nacionais previstas na UE até o fim de 2027 aponta vários cenários relevantes. Na República Tcheca, o partido ANO (PfE) lidera as pesquisas antes das eleições de outubro de 2025. Diferentemente do ODS (ECR), o ANO buscou se alinhar ao Fidesz de Orbán e, junto com a Eslováquia, poderia formar um novo trio de Visegrado de extrema direita (sem a Polônia, ao menos por enquanto). Por outro lado, pode haver uma tendência oposta na Hungria: após muitos anos dominando a política interna, o Fidesz aparece atualmente em segundo lugar nas pesquisas antes das eleições parlamentares de abril de 2026. O ano de 2027 tende a ser particularmente decisivo: haverá eleições presidenciais na França, onde o Reagrupamento Nacional lidera com folga; na Espanha, o Vox (PfE) é hoje a terceira maior força; e na Polônia, o PiS (ECR) aparece empatado com a Coalizão Cívica (PPE), de Donald Tusk. Assim, pode haver mudanças políticas significativas em três dos maiores e mais influentes Estados-membros em 2027, ampliando a influência da extrema direita em coalizões governamentais por toda a Europa. Isso coincidiria, ainda, com a fase crítica das negociações do próximo Quadro Financeiro Plurianual (QFP), afetando a estabilidade política no nível da UE.

Influência no nível da UE

Apesar do crescimento eleitoral da extrema direita e de sua maior participação em governos nacionais, isso ainda não se traduziu em influência equivalente no plano europeu. Dois princípios conflitantes estão em jogo.

Por um lado, devido à dupla legitimidade conferida pelos Estados-membros e por seus cidadãos, a UE busca integrar o máximo possível das principais forças políticas e tomar decisões por consenso ou por maiorias amplas. O objetivo é evitar minorias estruturais e garantir uma legitimidade democrática abrangente em uma UE heterogênea. Apenas o PE se baseia no princípio da maioria pura; ainda assim, é comum a formação de maiorias amplas e variáveis que abrangem grande parte do espectro democrático.

Por outro lado, em razão das experiências da Segunda Guerra Mundial, muitas sociedades europeias desenvolveram um cordon sanitaire em torno dos partidos de extrema direita. Assim, apesar de seus avanços eleitorais, essas forças foram por muito tempo excluídas da democracia de consenso europeia; antes do início da década de 2020, raramente participavam de governos nacionais. Com o aumento de sua influência nos níveis nacional e europeu, isso começa a mudar: sua maior participação nas instituições da UE já é visível.

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