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Guerra cognitiva e cultural na era do neofascismo
Antifascismo

Guerra cognitiva e cultural na era do neofascismo

Compartilhamos, com a autorização dos autores, a Introdução do livro "Guerra cognitiva e cultural. Chaves para combater o avanço do neofascismo"

Por e

Via Viento Sur

Tempo de leitura: 9 minutos.

Vivemos tempos turbulentos em que a violência escalou e está tão presente no campo das relações internacionais quanto no âmbito nacional, chegando a permear a vida cotidiana; uma violência que se apresenta com múltiplas faces, entre as quais a violência física explícita é apenas parte de um amplo espectro. Diante da normalização e banalização da violência em nossos dias, sua magnitude, suas formas e as estratégias com que opera, consideramos necessário problematizá-la a partir de uma perspectiva integral que nos leva a categorizá-la como violência de guerra.

No ciclo neoconservador que se desenvolve desde os anos 1980 com força e que segue em um ritmo ainda mais acelerado desde o início do século XXI, a guerra foi e é parte fundamental da dominação do sistema em um mundo onde as grandes potências disputam recursos estratégicos, mercados e possibilidades de futuro neste capitalismo de saque que condena países e pessoas ao empobrecimento. É a armadilha da desigualdade que, de um lado, nos mostra uma elite que não deixou de enriquecer, inclusive durante a pandemia, que defende com ferocidade seus lucros e interesses, enquanto, do outro lado, encontramos uma grande maioria excluída de uma vida digna, que assistiu, às vezes de forma passiva e outras ocupando as ruas, à destruição do Estado social na Europa que garantia minimamente seus direitos sociais; cada vez mais intoxicada por informação em um mundo de fake news, saturada de conteúdos irrelevantes na maior parte das vezes e com poucas possibilidades de reconstruir e analisar o contexto onde ganhe sentido aquilo que experimenta, sofre e observa. Esses espaços de desespero, frustração e raiva foram ocupados com velocidade inusitada pelos operadores da estratégia neoconservadora, que transformaram a ideologia do ódio e a manipulação emocional em uma estratégia altamente eficiente de difusão e penetração na subjetividade. Assistimos à disputa pelo sujeito e à modelagem de subjetividades alinhadas a essa ordem de barbárie que alimenta incessantemente os bolsos dos ricos e a base social da guinada à direita.

Não se trata apenas do debate sobre ideologias, como ocorreu ao longo do século XX, nem apenas da existência de forças conservadoras em ascensão que rotulamos como “direita” ou “nova direita”. Neste texto buscamos revelar alguns eixos para problematizar nosso tempo e compreender que a violência de amplo espectro na qual estamos imersos — discursiva, simbólica, ideológica, social, econômica e emocional — faz parte desse capitalismo neoliberal que transformou a guerra em uma estratégia necessária para sua reprodução, equivalente à concentração de poder e riqueza que gera, ao nível de contradições que desencadeia e ao controle social que requer para manter sua base de reprodução.

São tempos de guerra, novas guerras que assumem outras formas e cujo êxito já não exige necessariamente frentes armados; não têm caráter interestatal, mas são travadas contra os cidadãos comuns; não é preciso sequer disparar uma bala, mas sim gerir a incerteza, o medo e a insegurança em todas as suas manifestações, ao mesmo tempo em que se canaliza o ódio contra o semelhante, que passa a ser percebido como ameaça: o que vem de fora, o que tem outra aparência, o que se organiza para resistir ao colapso. Guerras nas quais o uso da informação, a produção dirigida do discurso, a modelagem do sujeito por meio dos processos educativos e a incidência nos processos cognitivos — diretamente vinculados à tomada de decisões — são fundamentais; ainda mais quando as sofisticadas tecnologias de informação e comunicação, assim como a cibernética, têm a capacidade de atuar com amplo potencial no espaço público, a uma velocidade que faz da imediaticidade sua principal característica, permeando as práticas da vida cotidiana.

Este é o tempo da disputa pelo sujeito, da guerra que se desenvolve com um novo potencial, transformando-se em cultural, penetrando nossos processos cognitivos e emocionais. Neste sistema-mundo, a guerra armada explícita passou a ser apenas uma manifestação da guerra — nem a central nem a mais eficiente; daí a importância de refletir sobre a guerra cognitiva e cultural, na tentativa de revelar aquilo que consideramos eixos fundamentais para compreender nosso tempo e os desafios que enfrentamos. O objetivo é o controle com aceitação: o sucesso da disputa vai muito além do embate ideológico ou da simples formação de opinião pública, embora isso também esteja presente.

Na guerra cognitiva e cultural, sem quartel, declarada pela internacional neofascista (Díez-Gutiérrez & Jarquín, 2024), não há prisioneiros. Essa guerra conta também com o apoio da internacional neoconservadora e da social-democrata, que acabaram “comprando” e assumindo boa parte de seu marco ideológico e estratégico (sobretudo em temas securitários, repressivos e migratórios). Nessa batalha semiótica e performativa contra a democracia, a igualdade e a justiça social, a narrativa tornou-se uma das chaves fundamentais, como já ocorreu no passado com Joseph Goebbels, ministro nazista da propaganda de Hitler.

Um discurso populista “sem complexos”, no qual predominam fake news como: “Um menor estrangeiro não acompanhado ganha 4.700 euros por mês. Sua avó, 426 euros de aposentadoria/mês”. Mensagens virais que apelam aos sentimentos e prometem segurança contra migrantes a populações afetadas pela pandemia, pela crise econômica, pela guerra e por um futuro incerto, condicionado — ainda que essas vozes neguem — pela crise climática e ambiental.

Dispõem de um poderoso lobby de criação de linguagem articulado em torno de eixos bem definidos: nacionalismo chauvinista que aponta “inimigos” da pátria e estimula um integrismo religioso e nacional de recuperação de um passado supostamente heroico, mítico e grandioso; antifeminismo, restauração da ordem patriarcal e demonização do movimento LGBT; anticomunismo feroz; discurso anti-imigração que fomenta o medo e o ódio; doutrina TINA (There Is No Alternative), afirmando que não há alternativa, o que inclui, por exemplo, o negacionismo climático.

A neolinguagem construída nessa fábrica de ideologia fake busca transformar o sentido das palavras do vocabulário político cotidiano, por um lado ressignificando-as e distorcendo-as para que representem algo distinto — geralmente o seu oposto — e, por outro, criando termos carregados de ódio, confronto e ressentimento contra aqueles definidos como “inimigos” da pátria (apropriada como se fosse propriedade exclusiva): “horda podemita”, “animalistas”, “ecolojetas”, “oenegetas”, “catanazis”, “feminazis”, “bilduetarras”, “menas”, “invasão islâmica”, “ditadura progressista”, etc.

O problema é que essa neolinguagem foi popularizada, sendo repetida inclusive por membros do Judiciário, das forças policiais e militares, e com ela tomaram as ruas, as instituições e as redes sociais. Assim, ocuparam os espaços públicos da democracia e a sequestraram por meio de poderosas técnicas de desinformação difundidas via WhatsApp, Instagram ou Telegram, que polarizam e tensionam os debates em bares, jantares familiares e qualquer espaço cotidiano, repetindo-as ad nauseam. Um discurso enganoso, sentimentalista e repetitivo que se difunde como pequenas doses de arsênico: ingerido sem efeito imediato, mas cuja toxicidade aparece depois.

Essa ocupação das ruas, das instituições e dos meios gerou uma batalha emocional em que só cabe um posicionamento radical: “comigo ou contra mim”. No conflito, movem-se com facilidade, pois já não há argumentos ou nuances, mas sim tensão e confronto agressivo. Por isso, seu programa não propõe, mas funciona como um reflexo negativo e confrontativo das ideias de seus adversários.

Dessa forma, transformaram ruas, redes e instituições em espaços “educativos” de contra-informação que socializam a população — sobretudo a mais vulnerável — no discurso de ódio, na rejeição ao diferente e na culpabilização dos outros, chegando a dissociar palavras-chave do debate político de seus significados anteriores e a desestabilizar o senso comum construído em contextos de diversidade ideológica. Com isso, fragiliza-se a própria possibilidade de diálogo, debate e convivência entre posições distintas, pois, para o neofascismo, a solução total para a crise (que identificam como comunismo ou socialismo) baseia-se em dois pilares: nacionalismo e racismo (Labrador-Méndez & Gaupp, 2020).

A constante visibilidade midiática do partido neofascista VOX e a incorporação de seus temas nos debates políticos contribuíram para normalizar discursos antes considerados impensáveis. Esse êxito da extrema direita é resultado da guerra cognitiva e cultural travada nos espaços de socialização, cultura, mídia e educação, incluindo as novas gerações.

Segundo uma pesquisa eleitoral de abril de 2024 na Espanha, 17% dos jovens entre 18 e 24 anos declaravam intenção de votar no VOX.

Por isso, é fundamental compreender como esse discurso também se infiltra no campo educacional — entre estudantes, famílias, administrações e docentes — e nos processos de formação do sujeito, o que exige estratégias alternativas para prevenir e combater o avanço do neofascismo na educação e na sociedade.

Para isso, apresenta-se inicialmente uma breve descrição do fenômeno do neofascismo contemporâneo. Em seguida, analisa-se a guerra neocortical e a modelagem da subjetividade na sociedade neoliberal, bem como a intensificação de uma guerra emocional mediada pela neuropolítica ciberativista nas redes sociais. A segunda parte do livro propõe caminhos para enfrentar o avanço do fascismo: primeiro, examinando sua penetração na educação; depois, apresentando pedagogias “radicais” para combatê-lo em salas de aula, instituições e políticas educacionais. Por fim, discutem-se estratégias para defender o bem comum, promover uma concepção de segurança integral baseada em direitos humanos e garantir segurança material por meio da renda básica, como mecanismo de transição para a superação do capitalismo e do neofascismo.

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