Milei, o moralista político (em causa própria)
“Boa tarde a todos. Estou aqui diante de vocês para dizer, de modo categórico, que Maquiavel morreu.” Assim Milei abriu seu discurso no Fórum de Davos de 2026, um ano após o grande golpe da libra com criptomoedas e diante de uma audiência praticamente vazia, enquanto seu mentor e benfeitor pessoal, Donald Trump — ainda … <a href="https://espacoantifascista.net/2026/04/29/extrema-deireita/milei-o-moralista-politico-em-causa-propria/">Continued</a>
“Boa tarde a todos. Estou aqui diante de vocês para dizer, de modo categórico, que Maquiavel morreu.” Assim Milei abriu seu discurso no Fórum de Davos de 2026, um ano após o grande golpe da libra com criptomoedas e diante de uma audiência praticamente vazia, enquanto seu mentor e benfeitor pessoal, Donald Trump — ainda antes de se converter em uma espécie de deus salvador do mundo — desfrutava de uma plateia lotada.
Em 30 minutos de seus habituais disparates e de algumas pinceladas grosseiras e falaciosas sobre a filosofia política antiga e moderna, Milei citou 18 autores, entre eles Jesús Huerta de Soto — o caricatural multimilionário “prócer da economia austríaca” (segundo o próprio Milei). Não poderiam faltar também seus favoritos, Murray Rothbard, um austríaco supremacista branco e negacionista do Holocausto que, assim como Maquiavel, também já morreu. Desfilaram igualmente Thomas Sowell, o ultraliberal popperiano defensor da “sociedade aberta”, e, obviamente, Friedrich Hayek e Ludwig von Mises. No texto escrito não há referências bibliográficas para conferência, e essa ausência lhe deixa o caminho livre para recrutar autores como Locke e Adam Smith para as fileiras do anarcocapitalismo.
Começarei com sua hilariante e mal-intencionada reconstrução de Xenofonte como economista, que na verdade não é sua, mas de seu “prócer” austríaco. O presidente argentino está empenhado em ganhar fama de moralista — e não é de estranhar, porque por imoralidade ninguém vai aos tribunais, embora por corrupção, ao que parece, tampouco. Tudo isso em meio a uma avalanche de denúncias contra as famílias Milei e Menem, que nos governam, e contra muitos dos funcionários de seu círculo imediato. Um ano após a já famosa fraude da Libra; meses depois de o jornalismo revelar o desvio de recursos por superfaturamento de medicamentos e insumos na Agência Nacional de Deficiência (ANDIS); e quase em paralelo com escândalos de enriquecimento ilícito do chefe de Gabinete de Ministros, a quem Milei mantém no cargo e abraça. Somam-se agora denúncias contra funcionários e militantes da La Libertad Avanza beneficiados com empréstimos do Banco da Nação para comprar imóveis de luxo, incluindo terceiras residências em bairros privados, enquanto a maioria dos cidadãos comuns sem moradia que solicitaram empréstimos não consegue acesso. Para usar sua própria linguagem: isso se chama privilégio da casta, senhor Milei — aquela que o senhor disse que vinha combater.
O Milei autoidentificado como “erudito em economia” agora navega superficialmente pela filosofia política, guiado por seu admirado Huerta de Soto, autor do livro sobre a “eficiência dinâmica” e venerado pela ultradireita hispanofalante. O fato é que ambos — junto com tantos outros austríacos — propõem beber da fonte do Xenofonte economista, a quem atribuem o título de pai da economia moderna e da administração, além de lhe conceder o mérito de ter descoberto as vantagens econômicas da divisão do trabalho.
É possível que Milei não saiba que o texto Oeconomicus de Xenofonte nada tem a ver com um compêndio de economia moderna. A obra descreve magistralmente o que ocorria na Grécia clássica no oikos, cuja tradução correta é família, incluindo sua propriedade e administração doméstica. Não se trata, portanto, de um texto sobre as vantagens econômicas da especialização e da divisão do trabalho. O que ele descreve é a divisão do trabalho no oikos — entre homens e mulheres, escravos e livres — divisão que, segundo o autor, “busca apenas cumprir exatamente as funções que os deuses atribuíram a cada um e que a lei permite”. Que não aconteça de agora, imitando Trump, Milei e seus seguidores se considerarem deuses que distribuem funções por toda parte.
Iscômaco (o Xenofonte “em sombra”, um homem maduro e de posição social elevada) pede conselho ao Sócrates xenofôntico (não o platônico) sobre como exercer sua função de “homem de bem” e administrador do oikos. Por isso reproduz um diálogo com sua esposa, preocupada em saber o que significa comportar-se como a diligente rainha da colmeia. Cito:
Disse a mulher: “Também eu terei de agir assim?”. “Você”, respondi, “deverá permanecer dentro de casa, enviar para fora os escravos cujo trabalho seja externo, vigiar os que trabalham dentro, receber as mercadorias que entram, distribuir o que deve ser gasto e cuidar para que o orçamento de um ano não seja consumido em um mês. Quando lhe trouxerem lã, deverá zelar para que se façam roupas para quem precisa; também deverá garantir que o grão seco seja bem conservado. Talvez uma das tarefas lhe pareça desagradável: se um escravo adoecer, você deverá cuidar para que se cure por todos os meios” (Xenofonte, Ec. VII, 35-37).
Quero acreditar que não é esse o tipo de divisão do trabalho que o austríaco defende — ou será que é? Afinal, poderia servir para acabar com o “vírus mental do wokismo”.
Atribuir a Xenofonte a paternidade de um conceito de eficiência dinâmica, especulação e criatividade empresarial é um absurdo. Do mesmo modo, é falso afirmar que no diálogo entre Sócrates e Critóbulo (filho de Críton) sobre economia doméstica se fale de criatividade empresarial e especulação como formas de aumentar a riqueza. O Sócrates de Xenofonte ensina ao discípulo o elogio da agricultura e do cuidado com a terra: “a agricultura é uma ocupação que deleita ao mesmo tempo que enriquece. Seu exercício fortalece o corpo para qualquer tarefa digna de um homem honrado. A terra fornece aos seus cultivadores, como recompensa por seu trabalho, o necessário à vida e aos prazeres…” (Ec. V, 1-3).
“Tudo vem da terra.” Sabem disso a maioria dos membros do Congresso argentino — deputados e senadores lobistas — que acabam de aprovar uma lei que golpeia o coração da legislação ambiental do país, desmontando duas das leis mais importantes conquistadas pela mobilização popular nos últimos quinze anos: a Lei de Proteção de Bosques (Lei 26.631, de 2007) e a Lei de Glaciares (Lei 23.639, de 2010).
Deixemos o Xenofonte austríaco e passemos à suposta habilidade dedutiva de Milei ao tentar demonstrar as origens da propriedade privada e seu caráter inviolável. Cito:
“Do direito fundamental à liberdade deriva o direito adquirido à propriedade privada…”
Em Davos, diante de uma sala vazia, Milei anunciou essa derivação — sabe-se lá como — vinculando-a ao princípio de apropriação de Locke. E a faz derivar do direito natural à liberdade, cuja definição parece limitar-se a gritar “carajo”, propor a venda de órgãos ou insultar quem o contradiga. Sem dúvida, o mandatário ignora que, ao negar o caráter natural da propriedade, poderia abrir espaço para que um poder legislativo progressista a regulasse justamente para garantir a liberdade de todos, não apenas de alguns.
Locke descansa em Essex — não o responsabilizemos por isso. Voltemos ao ponto inicial: a obsessão de Milei em “enterrar” Maquiavel, que repousa na bela Florença. Tudo indica que essa tentativa busca superar um “falso dilema” entre eficiência e valores morais. Como afirma seu autor preferido: “a eficiência só é compatível com o respeito à propriedade privada”. No entanto, convém lembrar: entre os valores morais do Ocidente estão não roubar, não fraudar e não mentir.
Mas o que isso tem a ver com Maquiavel? Talvez Milei utilize uma leitura caricata, como fez Maurice Joly em seu diálogo fictício entre Maquiavel e Montesquieu. Como observa Roberto Rodríguez Aramayo, Maquiavel escrevia para ser útil e rejeitava utopias, destacando a distância entre “como se vive” e “como se deveria viver”. Seu herói político era César Bórgia, pela capacidade de agir pragmaticamente.
Concluo com Kant, conforme interpretado por Rodríguez Aramayo. Em À Paz Perpétua, Kant distingue entre o “político moral” e o “moralista político”: “Posso imaginar um político moral… mas não um moralista político que adapte a moral ao interesse do poder”. Esses moralistas, diz Kant, sacrificam o povo e justificam abusos com máximas como:
- Faça e depois justifique.
- Negue o que fez.
- Divida para governar.
Terá o presidente argentino lido essas máximas dos moralistas políticos?
