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A extrema direita europeia se divide diante da guerra EUA–Israel contra o Irã
Extrema Direita

A extrema direita europeia se divide diante da guerra EUA–Israel contra o Irã

Forças da extrema direita estão fragmentadas em torno de nacionalismo, política externa e sua relação com o presidente dos EUA Donald Trump

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Via Al Jazeera

Tempo de leitura: 4 minutos.

A guerra EUA-Israel contra o Irã expôs divisões entre partidos e figuras da extrema direita europeia.

Em um dos campos, os chamados “atlanticistas”, como Nigel Farage — fundador do partido populista de direita radical Reform UK — apoiam a guerra.

Em uma publicação recente no X, ele pediu ao primeiro-ministro britânico Keir Starmer que “apoie os americanos nesta luta vital contra o Irã!”. Dias depois, afirmou que quaisquer refugiados que fugissem do Irã “deveriam ser acolhidos no Oriente Médio e não na Grã-Bretanha”.

O partido espanhol de extrema direita Vox também apoiou a guerra, criticando o primeiro-ministro Pedro Sánchez depois que ele a condenou como uma intervenção militar “injustificada” e “perigosa”.

Outros, porém, são mais céticos.

Tino Chrupalla, copresidente da Alternative for Germany, alertou que o presidente dos EUA Donald Trump estaria se tornando um “presidente de guerra”.

Markus Frohnmaier, principal candidato do AfD nas eleições regionais de Baden-Württemberg, afirmou que o conflito deve ser analisado de forma “nuançada” e que é do “interesse da Alemanha” evitar novos fluxos migratórios decorrentes da guerra.

No Reino Unido, duas figuras combativas, Tommy Robinson e Paul Golding, divergiram sobre o conflito.

Robinson, conhecido por sua islamofobia e forte apoio a Israel, apoiou entusiasticamente a guerra, enquanto Golding, líder do partido de extrema direita Britain First, escreveu: “Não é nossa luta, não é nossa guerra. Coloque a Grã-Bretanha em primeiro lugar.”

Outros partidos demonstram hesitação.

Marine Le Pen, líder do National Rally, havia criticado anteriormente intervenções externas, defendendo que “a soberania dos Estados nunca é negociável”. No entanto, após o início da guerra contra o Irã, adotou uma posição mais cautelosa, afirmando não ver “nada chocante” no envio de um porta-aviões francês ao Mediterrâneo anunciado por Emmanuel Macron.

Os limites da unidade da extrema direita

A divisão de opiniões sobre o Irã reflete um “paradoxo” da extrema direita europeia, segundo o cientista político Tim Bale.

Embora esses grupos sejam frequentemente vistos como parte de uma mesma onda — especialmente em torno da questão da imigração —, seu forte nacionalismo impõe limites à cooperação internacional entre eles.

Historicamente, setores da extrema direita em países como França e Alemanha demonstraram desconfiança em relação aos Estados Unidos, enquanto outros — sobretudo em contextos marcados pelo anticomunismo — tendem a ver Washington como aliado estratégico.

Essa divergência reaparece agora em relação ao Irã.

O pesquisador sueco Morgan Finnsio destacou que a extrema direita ocidental há muito busca unidade ideológica, mas frequentemente se divide diante de questões geopolíticas — como já ocorreu após a invasão russa da Ucrânia em 2022.

Segundo ele, atores externos como Vladimir Putin, Donald Trump e Benjamin Netanyahu têm buscado atrair aliados da extrema direita europeia, cujas posições acabam refletindo essas influências.

Assim, grupos mais próximos de Washington ou de Israel tendem a apoiar a guerra contra o Irã, enquanto aqueles com maior proximidade com a Rússia — que mantém relações com Teerã — adotam posições mais cautelosas ou críticas.

Finnsio ressalta que as posições da extrema direita em conflitos internacionais são menos guiadas por princípios e mais pelas circunstâncias geopolíticas do momento.

Linhas de fratura já existentes

Essas divisões, segundo analistas, aprofundam fraturas já existentes dentro da extrema direita europeia.

Ainda não está claro se a guerra afetará eleições futuras, mas pode ter impacto em alguns contextos. No Reino Unido, por exemplo, a postura beligerante de Farage pode agradar parte de sua base, mas não encontra amplo apoio entre o eleitorado geral.

Embora o Reform UK lidere as pesquisas nacionais, uma sondagem da YouGov de março de 2026 indicou que apenas 28% de seus eleitores apoiam fortemente ações militares dos EUA contra o Irã.

De forma mais ampla, analistas apontam que uma associação muito próxima com Donald Trump pode se tornar um risco político para lideranças da extrema direita europeia.

Mesmo quando a guerra entra no debate político, ela tende a ser reinterpretada sob a ótica de questões internas — especialmente imigração. Como observa Finnsio, em países como a Suécia, o tema provavelmente será enquadrado como um possível aumento de fluxos de refugiados, reforçando debates já dominados por partidos nacionalistas como os Democratas Suecos.

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