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Enquanto a França queima, a extrema direita vê uma oportunidade
Negacionismo

Enquanto a França queima, a extrema direita vê uma oportunidade

O Reagrupamento Nacional apresenta a crise dos incêndios florestais como uma prova de que o Estado francês já não é capaz de proteger seus cidadãos

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Via Politico

Tempo de leitura: 5 minutos.

Incêndios florestais fora de controle impulsionados pelo calor extremo e pela seca podem parecer um tema eleitoral improvável para a extrema direita francesa.

O Reagrupamento Nacional (RN), de Marine Le Pen, passou anos se opondo a regulamentações ambientais. No entanto, o partido está aproveitando os piores incêndios registrados no país em anos para argumentar que o governo do presidente Emmanuel Macron está falhando em uma de suas funções mais básicas: proteger as pessoas e suas casas.

Edwige Diaz, deputada do Reagrupamento Nacional e aliada próxima de Le Pen, eleita pela região da Gironda, atingida pelos incêndios, afirma que as queimadas são a mais recente de uma série de crises — desde eventos climáticos extremos até preocupações com criminalidade e segurança infantil — que revelariam a incapacidade mais ampla do governo de proteger a população.

“Todas as propostas que apresentamos há anos com Marine e Jordan [Bardella]… hoje percebemos que elas eram as únicas capazes de nos poupar dessas situações, desde nos proteger dos incêndios florestais até salvar nossas crianças”, afirmou.

Ainda não está claro se esse argumento ganhará força entre os eleitores. Mas o Reagrupamento Nacional talvez não precise ser visto como uma autoridade em questões climáticas; sua oportunidade está, sobretudo, na perda de credibilidade dos partidos que governaram a França — e na sensação, entre alguns eleitores, de que o Estado já não é capaz de protegê-los.

Uma pesquisa recente compartilhada com o POLITICO — baseada em quatro grupos de discussão com antigos eleitores de centro e centro-esquerda que pareciam pouco inclinados a apoiar novamente esses partidos — encontrou referências recorrentes a um país que estaria se desintegrando. Os participantes citaram uma série de crises recentes, incluindo o assassinato de uma menina de 11 anos por um suspeito já conhecido pela polícia, como evidência de que o governo não estaria agindo.

A frustração também se estende à preparação para eventos climáticos extremos. Em uma pesquisa do YouGov publicada neste mês, 74% dos entrevistados disseram estar insatisfeitos com as políticas de adaptação climática de Macron.

“O Reagrupamento Nacional se beneficia automaticamente de sua posição antissistema sempre que ocorre um acontecimento que dá a impressão — correta ou não — de que os governos sucessivos não tomaram medidas eficazes para enfrentar as dificuldades vividas pelos franceses”, afirmou Mathieu Gallard, diretor de pesquisas do Ipsos França.

Os incêndios já queimaram mais de 1.000 quilômetros quadrados no sudoeste da França desde o início do verão — uma área aproximadamente dez vezes maior que Paris — e obrigaram mais de 200 mil pessoas a deixarem suas casas.

Depois de uma onda de calor extremo que deixou o interior do país completamente seco e inflamável, as queimadas já destruíram quase o dobro da área atingida durante a última grande temporada de incêndios, em 2022.

Imagens da região de Bordeaux, onde há uma grande população e muitos destinos turísticos populares, tomada pelas chamas, aprofundaram um clima já sombrio entre a classe política e a população.

Macron fez uma visita não planejada à região na segunda-feira para encontrar bombeiros locais e pediu unidade nacional enquanto seu governo tentava conter as críticas à sua resposta.

A própria Le Pen adotou um tom mais moderado. Em uma publicação no X, afirmou que as imagens haviam provocado horror no país, ofereceu apoio às vítimas e às famílias evacuadas e elogiou os bombeiros e as forças de proteção civil por seu “sacrifício excepcional”. Ela não fez críticas diretas ao governo.

Enquanto a França enfrenta temperaturas recordes, o Reagrupamento Nacional até agora sofreu pouco desgaste político por sua falta de credibilidade nas políticas climáticas e ambientais.

Em vez disso, o partido buscou concentrar o debate na adaptação climática — ou seja, em como o governo protege as pessoas das consequências de um planeta mais quente — e não nas medidas para reduzir emissões.

Durante uma onda de calor em junho, o partido propôs ajuda financeira para instalar ar-condicionado em residências e prédios públicos, apresentando a medida como uma resposta imediata às preocupações dos eleitores com saúde e segurança.

A proposta chamou atenção, segundo Gallard, mas ele questionou se os incêndios oferecerão ao Reagrupamento Nacional a mesma oportunidade política.

“Não tenho certeza de que eles se beneficiarão enormemente neste caso, porque possuem credibilidade muito limitada em questões ambientais”, afirmou.

O Reagrupamento Nacional teve dificuldades para explicar como financiaria sua proposta de instalação de ar-condicionado. Seus opositores classificaram a ideia como uma ação meramente simbólica de um partido que repetidamente se opôs a medidas destinadas a combater as causas das mudanças climáticas.

Ainda assim, a estratégia revelou uma vulnerabilidade dos partidos tradicionais.

À medida que os eleitores se preocupam mais com os efeitos imediatos do calor extremo, dos incêndios e de outros eventos climáticos, o debate político está mudando: deixa de se concentrar apenas nas metas climáticas de longo prazo e passa a questionar se os governos conseguem proteger as pessoas agora.

Os adversários da esquerda, que há muito defendem medidas mais fortes contra as mudanças climáticas, afirmam que o partido votou consistentemente contra planos destinados a enfrentar as causas do problema, tanto no nível da União Europeia quanto nacionalmente.

“Em algum momento, todos terão que responder por suas posições diante do público e da história”, escreveu no Facebook o eurodeputado de centro-esquerda e possível candidato presidencial Raphaël Glucksmann.

“Há meses e anos, a direita e a extrema direita travam uma batalha incansável contra a agenda climática europeia”, acrescentou.

Diaz, do Reagrupamento Nacional, inverteu esse argumento, culpando as próprias regras ambientais por dificultarem a resposta aos incêndios.

Ela citou como exemplo normas europeias contra a poluição aplicadas aos equipamentos de combate a incêndios, afirmando que seriam políticas inadequadas às condições reais enfrentadas no território.

“Aqueles que dizem estar na vanguarda das questões ambientais impuseram políticas que agora são responsáveis pela situação atual”, declarou Diaz.

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