À medida que a extrema direita ganha espaço na Alemanha, símbolos codificados passam despercebidos
Apoiadores apropriaram-se de marcas do cotidiano para sinalizar suas convicções enquanto contornam a legislação
À medida que a extrema direita alemã ganha espaço político em algumas partes do país, pesquisadores afirmam que alguns de seus apoiadores estão cada vez mais à vontade para exibir suas posições em público — embora, muitas vezes, sem utilizar símbolos explicitamente políticos.
Em manifestações recentes do partido Alternativa para a Alemanha (AfD), essa linguagem codificada podia ser vista em objetos tão comuns quanto um par de tênis ou uma camiseta.
Pesquisadores afirmam que logotipos de marcas como New Balance e Lonsdale vêm sendo cada vez mais apropriados como dog whistles — sinais codificados — associados ao nacionalismo e ao nazismo. Isso é especialmente significativo na Alemanha, onde a exibição de símbolos nazistas é restringida por lei.
“O que percebemos nos últimos anos é que, frequentemente, nesses eventos, vemos muitas pessoas usando diferentes sinais relacionados à extrema direita”, disse Gideon Botsch, chefe da Unidade de Pesquisa Emil Julius Gumbel sobre Antissemitismo e Extremismo de Direita da Universidade de Potsdam.
“Alguns são símbolos claros e abertos da direita radical e do neonazismo… outros são mais opacos ou estão jogando um pouco com essa ambiguidade.”
Alguns integrantes da extrema direita passaram a apropriar-se da New Balance, interpretando o grande “N” na lateral dos tênis como “nacionalista” e “NB” como Nationale Bewegung (“movimento nacional”), segundo Botsch.
Da mesma forma, a Lonsdale voltou a ser utilizada pela extrema direita, em parte porque, quando usada de determinada maneira, o logotipo pode deixar visíveis as letras NSDA, uma referência à abreviação do Partido Nacional-Socialista alemão.
“Quem sabe, sabe; quem não sabe vai achar que isso é inofensivo”, disse Botsch.
A ambiguidade é importante porque a legislação alemã contra símbolos nazistas “abrange expressamente bandeiras, distintivos, peças de uniforme, slogans e formas de saudação”, explicou Sophie Scheuble, responsável por políticas digitais e combate ao extremismo no Institute for Strategic Dialogue.
Por isso, “a maior parte do que é usado em eventos da extrema direita é, portanto, legal, e essa distinção é muito bem compreendida pelos círculos extremistas de direita”.
Essas restrições contribuíram para o aumento do uso de símbolos que só são reconhecidos por aqueles que sabem o que significam, permitindo transmitir uma mensagem extremista sem necessariamente ultrapassar os limites da lei.
Quando o serviço de inteligência interna do estado da Saxônia-Anhalt atualizou, em maio, seu manual sobre símbolos da extrema direita, Scheuble afirmou que seu diretor observou que a maioria dos extremistas evita símbolos que possam gerar processos judiciais e, em vez disso, recorre a códigos e palavras-chave.
O que mudou, segundo os pesquisadores, é o ambiente político em que esses símbolos aparecem.
Um clima político em transformação
A AfD cresceu de um partido marginal, criado em 2013, para a provável vencedora das próximas eleições estaduais na Saxônia-Anhalt. O partido foi oficialmente classificado como organização extremista de direita no estado.
Caso vença, será a primeira vez desde a Segunda Guerra Mundial que um partido de extrema direita conquistará uma maioria absoluta em um estado alemão.
Fabian Wichmann, especialista do EU Knowledge Hub on Preventing Radicalization, afirma que existe uma crescente “zona cinzenta” entre o movimento neonazista mais radical da Alemanha e a direita populista mais ampla.
Integrantes de grupos neonazistas participam de manifestações e reuniões da AfD e têm incentivado seus apoiadores a votar no partido, vendo seu crescimento como um passo em direção aos próprios objetivos políticos, segundo ele.
“A AfD possui um grupo amplo e diversificado de seguidores”, afirmou Wichmann. Em seus eventos eleitorais e marchas, “você verá pessoas que parecem absolutamente normais em suas roupas, usando coisas como New Balance e Lonsdale”.
Ele ressaltou que nem todas as pessoas que usam essas marcas são neonazistas, mas que “também há muitos neonazistas que usam esse tipo de coisa porque essas peças carregam determinados símbolos e narrativas que eles compartilham”.
Um participante de uma manifestação aparece usando um cinto da Thor Steinar, marca que ganhou popularidade em alguns círculos da extrema direita por utilizar runas nórdicas.
Mas a mudança mais importante observada pelos pesquisadores não está nas roupas em si. Está na disposição crescente de exibir esses sinais abertamente.
Wichmann afirma que essa mudança acompanha o fortalecimento da extrema direita alemã e da AfD.
“Eles sentem que… a cultura, a temperatura de uma sociedade está mudando. E agora é possível usar algo assim sem entrar em conflito”, afirmou.
“Existe uma sensação de: ‘OK, estamos do lado dos vencedores agora’, e é por isso que estão usando essas coisas de maneira tão aberta.”
A batalha de décadas da Lonsdale
A New Balance não possui qualquer vínculo com o movimento de extrema direita alemão. A empresa não respondeu aos pedidos de comentário, mas já declarou anteriormente que “não tolera preconceito ou ódio de nenhuma forma”.
Da mesma maneira, a Lonsdale passou décadas combatendo a apropriação de sua marca pela extrema direita por meio de iniciativas antirracistas, desde que se tornou popular entre subculturas alemãs de skinheads e neonazistas nas décadas de 1980 e 1990.
Mas a empresa britânica de roupas e equipamentos esportivos afirma que o fenômeno está retornando.
“Percebemos que, desde aproximadamente o verão de 2024, a marca Lonsdale voltou a ser usada cada vez mais por extremistas de direita”, afirmou o porta-voz Ralf Elfering. “Esse uso indevido anterior da marca Lonsdale — e o fato de estarmos vendo isso novamente hoje — é muito frustrante.”
Elfering afirmou que a empresa deixa de fornecer seus produtos a determinados varejistas quando descobre que a Lonsdale está sendo comercializada em um contexto claramente extremista.
