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As causas do negacionismo científico e como combatê-lo
Negacionismo

As causas do negacionismo científico e como combatê-lo

Extraído da edição de dezembro de 2021 da Physics World, onde foi publicado originalmente sob o título “Lidando com os negacionistas”

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Via Physics World

Tempo de leitura: 8 minutos.

Uma das primeiras perguntas que Lee McIntyre, filósofo da Universidade de Boston, faz sobre aqueles que insistem que a Terra é plana é: “Essas pessoas podem estar falando sério?”. Como um dos exemplos mais extremos de negacionismo científico, McIntyre começa seu livro, How to Talk to a Science Denier: Conversations with Flat Earthers, Climate Deniers, and Others Who Defy Reason (Como conversar com um negacionista da ciência: conversas com terraplanistas, negacionistas climáticos e outros que desafiam a razão), descrevendo sua visita à Conferência Internacional da Terra Plana de 2018, em Denver, nos Estados Unidos. A resposta à sua pergunta, ele conclui rapidamente, é: “sim, completamente”.

McIntyre é autor de vários livros anteriores, incluindo The Scientific Attitude: Defending Science from Denial, Fraud and Pseudoscience (A atitude científica: defendendo a ciência do negacionismo, da fraude e da pseudociência), no qual argumenta que aquilo que distingue a ciência é sua ênfase nas evidências e a disposição dos cientistas de modificar suas teorias com base em novas informações. Seu livro mais recente conduz o leitor pela literatura atual sobre as origens do negacionismo científico e as motivações dos negacionistas, tanto políticas quanto pessoais. Ele analisa diversos estudos sobre como poderíamos nos comunicar com pessoas que parecem desafiar a razão e descreve alguns de seus próprios encontros com indivíduos que não aceitam aquilo que a maioria considera evidência científica irrefutável.

Segundo McIntyre, a história do negacionismo científico começa na década de 1950, com a campanha da indústria do tabaco para obscurecer a relação causal entre o tabagismo e o câncer. Um executivo teria dito que “a dúvida é nosso produto”, e essa abordagem se tornou, desde então, um modelo para o negacionismo científico, incluindo o ceticismo em relação às mudanças climáticas. McIntyre cita uma pesquisa realizada nos Estados Unidos em 2018, segundo a qual apenas 29% dos entrevistados acreditavam que as mudanças climáticas eram causadas pela ação humana. Ele contrasta esse dado com o relato de uma viagem às Maldivas, onde os efeitos das mudanças climáticas já são claramente visíveis. “Os terraplanistas podem ter parecido inofensivos, mas esse tipo de negacionismo científico pode nos matar”, afirma.

Ao descrever seus encontros com terraplanistas em Denver, McIntyre traça um retrato daqueles atraídos pelo que considera ser quase um culto, encontrando uma mistura de fundamentalistas cristãos e adeptos de teorias da conspiração. Por ter ligação com a família de uma vítima de um tiroteio escolar, um de seus encontros mais perturbadores foi com um terraplanista que também acredita que o massacre ocorrido na escola de Parkland, em 2018, no qual 17 pessoas foram mortas, foi uma fraude.

McIntyre conclui que muitos terraplanistas são pessoas emocionalmente fragilizadas, que alimentam ressentimento e raiva em relação às elites. O que fica claro para ele é que suas crenças estão profundamente enraizadas em sua identidade e em seu sentimento de pertencimento — o que torna muito mais difícil modificá-las. Mas os terraplanistas não são únicos nesse aspecto; McIntyre observa que, cada vez mais, muitos de nós apoiamos pontos de vista que correspondem à “equipe política” à qual sentimos pertencer, em vez de fazer o contrário — formar nossas posições a partir das evidências e então escolher com quem concordamos.

McIntyre apresenta uma análise útil sobre como identificar o negacionismo científico. Ele descreve cinco elementos que quase sempre fazem parte desses argumentos: selecionar apenas as evidências que favorecem determinado ponto de vista (cherry-picking); acreditar em teorias da conspiração relacionadas ao tema; recorrer a falsos especialistas; cometer erros lógicos; e estabelecer níveis impossíveis de evidência para qualquer ponto de vista contrário. Diante disso, McIntyre explica que combater o negacionismo científico pode ser feito corrigindo as informações científicas incorretas, mas também apontando as falácias presentes na forma de raciocínio — algo conhecido como refutação da técnica (technique rebuttal).

Ele também apresenta cuidadosamente os argumentos a favor de por que podemos e devemos dialogar com os negacionistas da ciência. Um estudo realizado em 2010 demonstrou um “efeito de reação contrária” (backfire effect), no qual apresentar evidências contra a posição de uma pessoa fazia com que ela aderisse ainda mais fortemente àquela posição — levando à ideia desmoralizante de que talvez não houvesse sentido em reagir. Mas McIntyre relata que esses resultados nunca foram reproduzidos. Na verdade, um experimento inovador realizado em 2019 pelos cientistas comportamentais Philipp Schmid e Cornelia Betsch, da Universidade de Erfurt, na Alemanha, mostrou que vários métodos de refutação eram mais eficazes do que não responder.

No entanto, McIntyre conclui que “ultrapassamos o que a literatura científica é capaz de nos dizer” quando se trata de descobrir como conversar com os negacionistas da ciência. Ele apresenta sua própria visão de que “engajamento, confiança, relacionamentos e valores são as chaves para uma verdadeira mudança de crença”. Ele próprio procura colocar isso em prática construindo confiança por meio do contato presencial, ouvindo sem atacar e demonstrando respeito. Ele descreve essa abordagem em conversas que mantém sobre diversos temas. Ao conversar com mineiros de carvão na Pensilvânia, McIntyre encontra poucos negacionistas declarados das mudanças climáticas dispostos a conversar. Em seguida, passa àqueles que se opõem aos organismos geneticamente modificados (OGMs). Ele argumenta que essa também é uma forma de negacionismo que causou danos, ao impedir o desenvolvimento de culturas geneticamente modificadas enriquecidas com nutrientes que poderiam combater a desnutrição nos países mais pobres.

Isso levanta a questão de saber se o negacionismo científico é uma característica exclusiva das ideologias de direita ou se também existe uma “guerra liberal contra a ciência”. Embora não haja equivalência entre os fenômenos, McIntyre argumenta que a esquerda não tem o direito de se considerar superior. Por exemplo, a retórica e as alegações de que a Monsanto provocou deliberadamente escassez de alimentos para promover o uso de produtos geneticamente modificados certamente compartilham a lógica conspiratória encontrada em outras formas de negacionismo científico.

Tendo escrito o livro durante a pandemia de COVID-19, McIntyre aborda as enormes quantidades de desinformação que se consolidaram em torno dela, antecipando de maneira quase profética a postura antivacina que predomina em algumas partes dos Estados Unidos. Presumivelmente escrevendo em 2020, ele expressa alguma esperança de que as pessoas mudariam de opinião e observa que, quando o foco da pandemia nos Estados Unidos se deslocou de Nova York para o restante do país em 2020, houve menor apoio aos políticos que se recusavam a ouvir a ciência. Mas, no final de 2021, essa esperança agora parece ultrapassada, com a desinformação claramente afetando os níveis de vacinação e o uso de máscaras em estados como Texas e Flórida, onde os surtos de COVID-19 voltaram a ocorrer.

No geral, este livro apresenta um relato sólido e envolvente sobre o negacionismo científico e sobre como podemos combatê-lo, transitando com fluidez entre a teoria e as experiências pessoais do autor ao conversar com negacionistas da ciência. Infelizmente, o livro dedica relativamente pouco espaço a essas conversas, devido às oportunidades limitadas de encontros presenciais durante a pandemia, e McIntyre apresenta poucos exemplos de sucesso na tentativa de convencer negacionistas a mudar de opinião. Ele, no entanto, discute seus planos futuros de dialogar com terraplanistas juntamente com o físico aposentado Bruce Sherwood. Sherwood produziu um modelo computacional tridimensional que mostra como o céu realmente pareceria se a Terra fosse plana — nada parecido com a realidade. Certamente será interessante ver se a abordagem conjunta dos dois poderá fazer alguma diferença no futuro.

Precisamos conversar com aqueles de quem discordamos. Mas temos que ser inteligentes sobre como fazer isso.

McIntyre conclui com um apelo para que os cientistas saiam de suas bolhas de eco. “Precisamos voltar a conversar uns com os outros, especialmente com aqueles de quem discordamos”, afirma. “Mas temos que ser inteligentes sobre como fazemos isso.” Nada de insultos, nada de humilhações e muita empatia e respeito. Particularmente diante das ameaças existenciais representadas pelas mudanças climáticas, ele afirma: “Precisamos tentar fazê-los compreender, precisamos tentar fazer com que se importem, mas primeiro temos que ir até lá, cara a cara, e começar a conversar com eles.”

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