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Combatendo o negacionismo científico
Negacionismo

Combatendo o negacionismo científico

Michelle Amazeen estuda quem é mais suscetível à desinformação científica e por quê — e as estratégias para combatê-la

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Via Boston University

Tempo de leitura: 7 minutos.

É uma pergunta com a qual muitos de nós temos nos debatido nos últimos anos — seja ao discutir a realidade das mudanças climáticas causadas pelo ser humano, seja ao conversar com um familiar desconfiado sobre a segurança das vacinas contra a COVID-19: por que alguns americanos tendem mais a acreditar em um meme da internet do que na palavra de cientistas, médicos, agências governamentais e instituições de pesquisa?

A resposta não é simples nem direta, diz Michelle Amazeen, professora associada de comunicação de massa, diretora do Centro de Pesquisa em Comunicação (CRC) e vice-reitora associada de pesquisa da faculdade. Com a ajuda de seus colegas no CRC, Amazeen vem estudando quais comunidades são mais suscetíveis à desinformação científica e como combater de forma eficaz equívocos relacionados à ciência, especialmente nas redes sociais. Ela está entre um número crescente de especialistas que tentam alcançar aqueles que perderam a confiança nas instituições e são propensos a acreditar nas mentiras e meias-verdades que veem online. Segundo ela, a resposta pode estar em explicar e comunicar mensagens científicas no nível comunitário — um novo campo chamado ciência cívica.

Em 2021, Amazeen foi selecionada como bolsista de Ciência Cívica pela Rita Allen Foundation, que busca apoiar pesquisas e ideias capazes de “melhorar a saúde, a democracia e o entendimento”. Seu projeto de bolsa buscou responder a duas perguntas: quais são as comunidades mais desinformadas cientificamente e quais são as formas eficazes de combater equívocos relacionados à ciência? Com parte do trabalho ainda em avaliação e um artigo publicado na revista Science Communication, Amazeen demonstra especial entusiasmo com uma descoberta promissora: a importância da localização.

“Estamos vendo o surgimento da ciência cívica, em parte, porque ela é mais democrática. E temos visto ataques à democracia recentemente”, afirma Amazeen. “Parte de enfrentar o crescente descrédito institucional envolve fazer maiores esforços para ser transparente e se conectar com as comunidades sobre o que é a ciência e quem a define.”

Queda na confiança na ciência e no jornalismo

Uma das lições da pandemia foi que a porcentagem de americanos que desconfiam da ciência está crescendo. Muitos observaram isso de forma anedótica no Facebook e no X, mas os dados confirmam a tendência: uma pesquisa de 2022 do Pew Research Center mostrou que a parcela de americanos com “pouca ou nenhuma confiança” em cientistas médicos dobrou entre abril de 2020 e dezembro de 2021, passando de 11% para 22%. Some-se a isso um aumento de 18 pontos percentuais na parcela que declara “nenhuma confiança” em jornalistas, e tem-se a receita perfeita para a proliferação da desinformação, diz Amazeen.

“Com a ascensão das redes sociais, praticamente não temos mais os antigos ‘porteiros’ do jornalismo. Como resultado, há tanta informação circulando que é difícil para as pessoas distinguir o que é preciso do que não é”, afirma. “Vimos isso detalhadamente na pandemia de COVID-19. Estamos vendo também com as mudanças climáticas e outros temas científicos.”

Comunidades negras e latinas, em particular, são frequentemente alvo de campanhas de desinformação, especialmente sobre temas científicos. Há um histórico longo e trágico por trás disso. Instituições de saúde pública ignoraram, discriminaram ou maltrataram comunidades marginalizadas — como nos experimentos de sífilis conduzidos pelo governo dos EUA em homens negros no Alabama no século XX.

Esses abusos geraram gerações de ceticismo médico entre parte da população negra e ajudam a explicar por que muitos demoraram a confiar nas vacinas contra a COVID-19 — ou nunca se vacinaram. Outro fator é a sub-representação histórica dessas comunidades nos campos científico e médico, o que pode gerar intimidação ou ansiedade.

Segundo Amazeen, “maus atores” se aproveitam desse histórico, direcionando campanhas de desinformação — muitas vezes nas redes sociais — a comunidades sub-representadas, ampliando desigualdades em saúde e a desconfiança na ciência.

Até grandes corporações podem se envolver na lama da desinformação científica. Amazeen e seus colegas analisaram tuítes sobre COVID-19 de empresas da Fortune 500 e constataram preliminarmente que cerca de um em cada cinco continha imprecisões graves e apelos emocionais para aumentar o engajamento.

“Isso não é tão problemático quando falamos de hambúrgueres ou carros, mas aqui estamos falando de COVID-19, um vírus potencialmente letal”, diz Amazeen. “Isso nos preocupou.”

Mensagens que realmente funcionam

Para entender por que algumas pessoas desconfiam de mensagens científicas, Amazeen e colegas organizaram dois grupos focais com usuários negros e latinos de redes sociais na região de Boston. Antes dos encontros, os participantes já haviam demonstrado tendência a acreditar em desinformação sobre mudanças climáticas.

Nos grupos, surgiram hesitação ou oposição às vacinas contra COVID-19, preocupações com produtos químicos e hormônios nos alimentos e desconfiança em relação à grande mídia e a órgãos como os Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA e a Organização Mundial da Saúde. Muitos estavam abertos a desinformações, como a ideia de que suplementos vitamínicos curam doenças ou que o vírus da COVID-19 foi criado em laboratório na China como arma biológica.

Ao final, Amazeen apresentou fontes que desmentiam as falsas alegações discutidas. Os participantes, porém, mostraram-se relutantes em confiar nos checadores de fatos. Celebridades como Queen Latifah e Dolly Parton, que defendiam vacinas e tratamentos, também não convenceram — muitos acharam que estavam sendo pagas para promover esses produtos.

A única intervenção que não fracassou foi uma publicação fictícia no Facebook criada por Amazeen, supostamente do cirurgião-geral dos EUA, alertando sobre desinformação e incentivando o uso de fontes confiáveis — estratégia chamada de “pré-refutação” (pre-bunking). “A mensagem não estava refutando nenhuma alegação específica”, explica. “Era apenas um alerta sobre as estratégias usadas para desinformar. Eles estavam abertos a isso.”

A ciência cívica é a resposta?

Em quem essas pessoas confiam? Segundo Amazeen, nos que já conhecem. “Talvez seus políticos locais”, diz. “Podemos odiar o Congresso, mas nosso representante local? Talvez ele não seja tão ruim.” Fóruns comunitários com líderes religiosos discutindo saúde pública ou clima também podem ser eficazes.

A equipe do CRC está desenvolvendo ferramentas para corrigir desinformação científica e comunicá-la de forma mais acessível — como incentivar as pessoas a considerar a fonte antes de compartilhar conteúdos e usar narrativas em vez de apenas fatos frios para combater boatos.

A alfabetização midiática será fundamental. O Instituto de Serviços de Museus e Bibliotecas dos EUA recebeu recursos federais para implementar programas que ensinam jovens e adultos a distinguir fato de ficção online. Estados como Nova Jersey e Illinois já exigem que escolas incluam educação midiática em seus currículos.

Ainda assim, Amazeen acredita que essas medidas podem não ser suficientes sem novas leis que regulem o que pode ou não ser publicado nas redes sociais. É preciso compreender melhor os efeitos dessas plataformas — objetivo da proposta Platform Accountability and Transparency Act. Ela também defende a revisão da Seção 230 da Lei de Decência nas Comunicações de 1996, que protege plataformas da responsabilidade pelo conteúdo postado por usuários.

“Jornalistas relatam diariamente o que as pessoas publicam no X [antigo Twitter]; hoje qualquer um pode postar qualquer coisa”, diz Amazeen. “Quando havia três grandes emissoras — ABC, NBC e CBS — havia filtros editoriais. Havia problemas naquele modelo, mas ao menos existia um senso compartilhado de realidade. A Primeira Emenda protege a liberdade de expressão contra regulação governamental, mas não dá às plataformas licença para amplificar desinformação que pode ter consequências mortais.”

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