De Buenos Aires a Porto Alegre: memória e resistência popular antifascista
A Conferência resultou em uma declaração comum (Declaração de Porto Alegre), com base em consensos sobre a crise global e caminhos de luta, incorporando posições anticapitalistas mais avançadas
Convidadas pelo CADTM para a Primeira Conferência Antifascista pela Soberania dos Povos, realizada em Porto Alegre de 26 a 29 de março de 2026, aproveitamos essa oportunidade para ir a Buenos Aires e visitar nossas camaradas da ATTAC Argentina. E a visita ocorreu justamente naquele dia, 24 de março de 2026, 50 anos após o início da ditadura. De fato, em 24 de março de 1976, o general Jorge Rafael Videla tomou o poder na Argentina por meio de um sangrento golpe de Estado.
Todas as ruas que convergem para a famosa Plaza de Mayo, onde as Mães e Avós dos 30 mil detidos-desaparecidos continuam a se reunir, estão tomadas por uma multidão. Também estão repletas de cartazes, colagens, palavras de ordem, determinação — uma força que contém a cólera de um povo que, 50 anos depois, confronta o governo “libertário” de Javier Milei, eleito em 2023.
Privatizações aceleradas, inflação, autoritarismo, austeridade, sufocamento das organizações operárias, deterioração das condições de trabalho, uma Patagônia que Milei deixa queimar e repressão ao povo mapuche, restrições à liberdade acadêmica — especialmente nas ciências sociais —, extrativismo e megaprojetos agroindustriais… Todos os ingredientes da extrema direita estão reunidos neste país, que por muito tempo foi governado pelo peronismo.
Esse aniversário histórico, segundo a mídia argentina, demonstra que a resistência a esse capitalismo ultraliberal de Milei está viva e sempre existiu.
Em Porto Alegre, capital brasileira das lutas antifascistas e altermundialistas
Assim, no dia 25 de março, chegamos a Porto Alegre carregadas dessa força do povo argentino que luta pela memória antifascista, pela verdade e pela justiça. Um calor tropical úmido nos guiou, naquela mesma noite, às ruas da cidade para participar de uma longa marcha com mais de 8 mil manifestantes — uma marcha tradicional de abertura nessa cidade que sediou o primeiro Fórum Social Mundial (FSM) em janeiro de 2001. Ali, a juventude brasileira se fez ouvir com uma energia cheia de esperança e combatividade, algo que, segundo vários testemunhos, não se via há muito tempo em Porto Alegre.
De fato, já se passaram 25 anos desde o primeiro FSM, realizado em Porto Alegre em janeiro de 2001, em oposição ao Fórum Econômico de Davos. Embora esta primeira Conferência internacional se diferencie claramente do FSM — ao reunir partidos políticos, movimentos sociais e cidadãos, enquanto o FSM se declarava independente dos partidos —, ela mantém traços dessa cultura altermundialista favorável à horizontalidade.
A Conferência surgiu de um processo de decisão entre um Comitê unitário de organização de forças políticas e sociais brasileiras e um Comitê internacional criado em 2025. Foi estruturada em torno de oficinas autogestionadas organizadas pelas entidades participantes. Paralelamente, ocorreram conferências plenárias definidas coletivamente. No total, foram onze conferências e 150 oficinas autogestionadas realizadas na Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
Um primeiro chamado premonitório foi lançado em 2024 por partidos, sindicatos e o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) do Rio Grande do Sul, propondo a realização da Conferência naquele ano. No entanto, enchentes massivas atingiram Porto Alegre, levando ao adiamento. Em 2025, o chamado foi relançado com apoio internacional para fortalecer a ação antifascista e anti-imperialista do CADTM.
Assinado pela ATTAC e por militantes, o chamado reuniu mais de 1.800 assinaturas em todo o mundo. Durante os três dias, mais de 4 mil militantes de diversos continentes participaram, vindos dos Estados Unidos, Índia, África, Oriente Médio e Europa.
Uma primeira etapa de articulação internacionalista
A importância do evento está não apenas em sua dimensão, mas no contexto global marcado pela organização internacional de forças conservadoras, imperialistas e capitalistas.
A delegação francesa contou com eurodeputados da França Insubmissa, representantes do NPA, militantes da ATTAC e da Fundação Franz Fanon, entre outros.
As militantes da ATTAC participaram de oficinas como:
- “Por um altermundialismo dos povos”
- “Instrumentalização da população migrante pela extrema direita”
- “O risco fascista na França”
Essas atividades tiveram grande participação.
A Conferência conseguiu:
- Unir forças de esquerda no Brasil e internacionalmente
- Criar espaço de troca entre movimentos diversos
- Fortalecer a solidariedade internacional
- Enfrentar a narrativa midiática dominante
Destacou-se também a forte mobilização da juventude do PSOL.
Por outro lado, houve limites metodológicos: alguns plenários não favoreceram o debate, e persistiram desigualdades na representação (como predominância de homens brancos em espaços de fala).
Debates importantes surgiram sobre imperialismo, geopolítica e divergências dentro da esquerda internacional, incluindo temas como Venezuela, Irã e o papel dos EUA.
Unidade: necessária, mas insuficiente
A Conferência resultou em uma declaração comum (Declaração de Porto Alegre), com base em consensos sobre a crise global e caminhos de luta, incorporando posições anticapitalistas mais avançadas.
No entanto, permaneceram divergências importantes — como sobre a guerra na Ucrânia, o papel da OTAN e a natureza da China.
A conclusão central: a unidade é indispensável para enfrentar a extrema direita, mas não basta por si só.
Debates estratégicos surgiram:
- É preciso mais radicalidade?
- Ou isso pode afastar setores importantes?
Também houve reflexão sobre não repetir estratégias do século XX e sobre a necessidade de intervenção direta dos povos.
A importância de múltiplas perspectivas
A Conferência destacou pilares do avanço do fascismo hoje:
- Big Data e tecnologia
- Crise ambiental
- Concentração de riqueza
- Racismo e xenofobia
- Patriarcado
- Políticas estatais e empresariais
Reforçou-se a necessidade de analisar essas dimensões de forma integrada, como parte do funcionamento do capitalismo contemporâneo.
Um impulso político e humano
A Conferência elevou o ânimo dos militantes e reforçou a necessidade de descolonizar o pensamento crítico europeu.
A próxima Conferência deve ocorrer na Argentina, em 2027, com o desafio de reconstruir uma esquerda unida capaz de enfrentar a extrema direita.
O altermundialismo segue vivo
Participar presencialmente não é um luxo militante — é uma necessidade. Permite compreender realidades concretas, fortalecer laços e construir solidariedade real.
O militantismo também é isso: encontro, troca, experiência humana.
Compreender a realidade de outros povos — marcados por colonialismo, ditaduras, FMI, destruição ambiental — transforma a percepção política.
Isso exige enfrentar responsabilidades históricas e construir práticas verdadeiramente antirracistas e antifascistas.
O altermundialismo não desapareceu. Ele segue vivo — apesar das tentativas de invisibilizá-lo.
E cabe a nós continuar a mantê-lo vivo.
Tradução ao espanhol: Griselda Piñeiro
Tradução ao português: Bruno Magalhães
