Bem-vindo ao “super ano eleitoral” da Alemanha. Eis o que esperar
Caso a AfD consiga maioria parlamentar em algum estado — algo ainda improvável, mas possível — isso representaria o maior desafio à política alemã desde a reunificação
Desde que o chanceler alemão Friedrich Merz assumiu o cargo em maio de 2025, ele conquistou respeito por sua condução da política externa e de segurança, além de fortalecer a influência internacional da Alemanha. Em contraste, tem enfrentado mais dificuldades no cenário interno. Sua coalizão de governo — formada pela Christian Democratic Union (CDU), sua aliada bávara Christian Social Union (CSU), e o Social Democratic Party (SPD) — frequentemente aparece dividida sobre reformas no sistema de bem-estar social e ainda não apresentou um plano convincente para retomar o crescimento econômico.
Menos de um ano depois, os problemas do governo se aprofundam. Com níveis recordes de baixa aprovação e uma economia ainda lenta, a coalizão de Merz enfrenta uma série de eleições estaduais que podem enfraquecer ainda mais sua posição.
Em 8 e 22 de março, eleitores dos estados de Baden-Württemberg e Renânia-Palatinado irão às urnas, dando início ao chamado “Superwahljahr” (superano eleitoral), com cinco eleições regionais entre março e setembro. Embora o partido de extrema direita Alternative for Germany (AfD) e, em menor grau, o The Left devam ganhar apoio nessas eleições, o cenário também pode abrir oportunidades para a CDU e o SPD. A CDU tem boas chances de recuperar governos estaduais, enquanto o SPD tenta manter o controle da Renânia-Palatinado.
No entanto, desafios maiores virão em setembro, nos estados do leste — Saxônia-Anhalt e Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental — onde a AfD pode conquistar a maior fatia dos votos. O crescimento da AfD, combinado com o fortalecimento da esquerda, pode forçar alianças difíceis ou governos minoritários para impedir que a extrema direita chegue ao poder, o que pode aumentar a percepção de instabilidade política.
Caso a AfD consiga maioria parlamentar em algum estado — algo ainda improvável, mas possível — isso representaria o maior desafio à política alemã desde a reunificação.
Declínio do centro e ascensão do populismo
Os resultados eleitorais tendem a aprofundar a fragmentação e polarização política na Alemanha. O apoio aos partidos tradicionais do centro — CDU/CSU, SPD, liberais e verdes — vem diminuindo, enquanto a AfD e, em menor escala, a esquerda crescem.
Persistem também diferenças entre leste e oeste. No oeste, partidos tradicionais ainda contam com eleitorado fiel, enquanto no leste a AfD tem seus melhores resultados, frequentemente acima de 30% ou até 40%.
Apesar desse crescimento, a AfD permanece excluída do poder por causa do chamado Brandmauer (“muro de proteção”), um consenso entre os principais partidos de não cooperar com a extrema direita. Ainda assim, há tensões dentro da CDU sobre essa estratégia, especialmente em estados do leste.
Impacto das eleições de março
As disputas em Baden-Württemberg e Renânia-Palatinado serão decisivas. Em Baden-Württemberg, governado pelos Verdes, a CDU tenta retomar protagonismo, mas pode precisar formar coalizão com seus rivais. Em Renânia-Palatinado, o SPD busca manter o poder, apesar da concorrência da CDU.
Eleições no leste podem redefinir o cenário
As eleições de setembro têm maior peso político. A AfD lidera pesquisas e pode até conquistar maioria parlamentar se partidos menores não atingirem o mínimo necessário para entrar nos parlamentos regionais.
Mesmo sem maioria, o crescimento da AfD pode forçar coalizões frágeis ou governos minoritários, aumentando a instabilidade política.
Um sistema político sob pressão
Desde a reunificação, e especialmente com o crescimento da AfD, o sistema partidário alemão se fragmentou significativamente. O “muro de proteção” impede a extrema direita de governar, mas não freia seu crescimento. Ao mesmo tempo, coalizões amplas e heterogêneas dificultam a implementação de políticas claras, o que pode alimentar o descontentamento e fortalecer partidos mais radicais.
Com crescimento econômico fraco e pressões externas, a Alemanha enfrenta um cenário de crescente polarização e incerteza política.
