Alemanha tem quase 60 mil extremistas de direita, diz serviço de inteligência
Dos extremistas de direita identificados, cerca de 5.600 são considerados propensos à violência
Os extremistas de direita continuam sendo a maior ameaça à democracia alemã e seu número aumentou significativamente para 58.700 no ano passado, segundo o serviço de inteligência interna da Alemanha.
Esse número representa um aumento de mais de 8 mil pessoas em relação ao ano anterior, de acordo com o relatório anual da agência, que também alerta para o crescimento da violência da extrema esquerda, classificando-a como um sinal de alerta para o Estado de Direito alemão.
A democracia alemã esteve sob “ataque praticamente permanente”, tanto de dentro quanto de fora do país, afirmou Sinan Selen, diretor do Escritório Federal para a Proteção da Constituição (BfV).
Segundo o relatório, as principais atividades de espionagem contra a Alemanha tiveram origem na Rússia, na China e no Irã.
Dos extremistas de direita identificados pelo BfV, cerca de 5.600 são considerados propensos à violência.
A agência atribui o aumento do número de extremistas de direita, em grande parte, ao crescimento do partido Alternativa para a Alemanha (AfD), cuja filiação chegou a 70 mil membros em 2025.
A AfD realizará sua convenção partidária neste fim de semana na cidade de Erfurt, no leste do país, e o ministro do Interior, Alexander Dobrindt, advertiu para a possibilidade de episódios de violência durante os protestos contra o evento. Segundo ele, as manifestações devem permanecer estritamente pacíficas.
A AfD ficou em segundo lugar nas eleições federais do ano passado, conquistando um recorde de 152 cadeiras no Parlamento, que possui 630 assentos, com 20,8% dos votos.
O partido aparece com cerca de 40% das intenções de voto para as eleições estaduais de setembro na Saxônia-Anhalt, no leste da Alemanha. Esse percentual pode ser suficiente para garantir maioria absoluta, permitindo à legenda formar, pela primeira vez, um governo estadual.
O relatório do BfV afirma que grupos de extrema direita estão concentrando cada vez mais seus esforços em influenciar crianças e jovens, além de recrutar novos integrantes em festivais de música da extrema direita, cujo número também atingiu um recorde no ano passado.
A AfD permanece sob suspeita de extremismo
A AfD foi classificada no ano passado como uma organização extremista de direita. No entanto, essa classificação foi suspensa em fevereiro após o partido contestar a decisão do BfV na Justiça, e o julgamento ainda está pendente.
Na ocasião, o Ministério das Relações Exteriores da Alemanha defendeu a decisão depois que o secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, classificou a medida como uma “tirania disfarçada”, enquanto o vice-presidente JD Vance afirmou que o Muro de Berlim estava sendo reconstruído.
Apesar da suspensão da classificação definitiva, a agência de inteligência continua listando a AfD como uma “organização suspeita de extremismo”.
Em seu relatório mais recente, o órgão afirma:
“Diante do crescimento do número de filiados, é possível supor que também tenha aumentado o contingente de indivíduos com tendências extremistas dentro da AfD.”
O documento acrescenta que narrativas da extrema direita e teorias conspiratórias — como a ideia da “substituição populacional” ou da “Grande Substituição” — são frequentemente adotadas pela AfD e por outros grupos da direita.
O relatório também identificou cerca de 26 mil extremistas de direita ligados aos movimentos Reichsbürger (“Cidadãos do Reich”) e Selbstverwalter (“autoadministradores”).
Segundo o documento, esses grupos:
“não reconhecem a República Federal da Alemanha como um Estado; rejeitam nossa Constituição, nossas leis e nossas autoridades, frequentemente propagando teorias da conspiração e narrativas antissemitas.”
O relatório também aponta que o número de pessoas envolvidas com o extremismo de esquerda aumentou em 4.200 no último ano, alcançando 42.200 integrantes. Também houve um crescimento significativo dos episódios de violência contra supostos extremistas de direita e contra policiais.
Por fim, a agência registrou um leve aumento no número de indivíduos ligados ao islamismo ou ao chamado “terrorismo islamista”, que passou para 28.645 pessoas.
