A extrema direita está em ascensão em 2026… você foi avisado
Uma conferência em Bruxelas reuniu um movimento de “patriotas” profundamente hostis à União Europeia e aos valores liberais de liberdade de expressão
Agora já deve estar claro para todos que o ano de 2026 será marcado pelo avanço da extrema direita ainda mais para o centro da política europeia. Cada uma das principais potências europeias agora possui um partido ultranacionalista capaz de conquistar pelo menos uma parcela do poder em eleições democráticas. Na Itália, isso já se concretizou com a formação de governo.
Além disso, esses renovadores da extrema direita afirmam defender um valor central do Iluminismo — a liberdade de expressão — embora sejam bastante seletivos na forma como a aplicam.
O movimento é impulsionado por sua hostilidade a um inimigo comum bem definido: não a Rússia ou a China, mas o próprio projeto europeu. “A verdadeira ameaça não vem de Moscou, Pequim ou de fábricas de trolls em São Petersburgo. Ela vem de Bruxelas.” Em resumo, essa foi a mensagem da conferência Battle for the Soul of Europe (Batalha pela Alma da Europa), realizada na capital belga em dezembro pelo MCC Brussels, um think tank dedicado à derrocada da União Europeia.
MCC significa Mathias Corvinus Collegium, uma instituição húngara com estreitas ligações com Viktor Orbán (Corvino foi um rei expansionista húngaro do século XV). O site Politico descreveu a organização como “o grupo de pressão de extrema direita mais proeminente da UE”. O orador citado foi Norman Lewis, pesquisador visitante do MCC Brussels e ex-diretor da consultoria PwC, que exemplifica bem a facilidade com que o mundo corporativo pode aderir ao chamado “Conservadorismo Nacional”.
A mensagem repetida ao longo da conferência foi clara e coerente, ainda que um tanto monótona: a civilização europeia estaria sob ameaça das forças combinadas da imigração em massa e do “wokismo”. Patriotas de nações soberanas precisariam despertar e lutar pelos valores cristãos do Ocidente e buscar uma aproximação com a Rússia. Apenas uma semana após o evento, o presidente dos EUA, Donald Trump, deixou claro que sua estratégia de segurança nacional se baseia exatamente nesses mesmos princípios.
Muitos participantes afirmaram que suas vozes estariam sendo silenciadas pelo establishment liberal europeu.
Virginie Joron, eurodeputada do partido francês de extrema direita Rassemblement National (Reagrupamento Nacional), manifestou indignação com o que considera planos do governo Macron de rotular desinformação e “publicidade maliciosa” com o apoio da ONG Repórteres Sem Fronteiras (RSF). Segundo ela, isso seria uma tentativa de atingir canais de TV franceses simpáticos à extrema direita. Suas declarações refletem um conflito que já dura anos: em 2024, a RSF denunciou tentativas coordenadas de deslegitimar a organização — por defender a legislação francesa sobre informação baseada em fatos — lideradas pelo grupo de mídia de direita Vivendi com apoio de políticos da extrema direita.
Joron também atacou o Google, George Soros e o planejado Centro de Resiliência Democrática da União Europeia, apresentando-os como parte de uma ameaça mais ampla à liberdade de expressão, disfarçada de combate às fake news. Segundo ela, existiria hoje um cartel de discurso autorizado controlado por Bruxelas e ONGs “militantes”. “Não ao Ministério da Verdade globalista Macron-Bruxelas”, afirmou, em tom retórico final.
Se isso já não fosse suficientemente exagerado, a eurodeputada foi seguida por Adam Starzynski, editor do portal Visegrad 24, um veículo online pró-Orbán e pró-Trump. Ele afirmou que a censura de notícias sobre Hunter Biden, filho do ex-presidente dos EUA Joe Biden, representaria “uma supressão de notícias em uma escala totalmente nova”. E foi além: para Starzynski, o ativista britânico de extrema direita e anti-imigração Tommy Robinson — também condenado criminalmente — seria uma figura dissidente na luta pela liberdade de expressão.
Quase todos os participantes — homens e mulheres (e não havia qualquer reconhecimento de identidades não binárias) — seguiram uma linha política bastante disciplinada. A única voz dissonante foi Václav Klaus, que foi um dissidente durante a Guerra Fria e posteriormente se tornou primeiro-ministro e presidente da República Tcheca. Apesar de suas credenciais fortemente anti-europeias, Klaus criticou a própria premissa do evento: “Não existe uma história comum da Europa”, afirmou. Para ele, não se deve inventar artificialmente uma “alma” europeia; a Europa seria apenas um conjunto de Estados-nação que ocasionalmente compartilham interesses.
A nova extrema direita europeia rejeita ser chamada de “fascista”, mas isso acaba sendo uma distração. A maioria prefere termos como “direita dura”, “direita patriótica” ou “conservadorismo nacional”.
De modo geral, eles se mostram mais unidos e disciplinados, enquanto seus opositores liberais aparecem confusos e desorganizados. Sua mensagem é simples, clara e sedutora. E agora, com o respaldo da Casa Branca, não pode ser ignorada.
