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A França está se deslocando para a direita?
Extrema Direita

A França está se deslocando para a direita?

A extrema direita não conquistou grandes vitórias nas eleições municipais francesas. Mas isso não é uma boa notícia para a esquerda do país, que permaneceu desunida enquanto o campo mais amplo da direita consolidou seu avanço rumo à eleição presidencial de 2027

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Via Carnegie Center

Tempo de leitura: 5 minutos.

Nas eleições municipais de março de 2026 na França, o velho ditado de que “toda política é local” ficou evidente. Em grande parte do país, o fator decisivo não foi a ideologia, mas a familiaridade: o prefeito como uma figura conhecida, solucionador de problemas e mediador local.

Noventa e seis por cento das comunas elegeram seus conselhos e prefeitos já no primeiro turno, e 88,5% dos incumbentes que concorreram foram reeleitos. Partidos tradicionais de direita e esquerda, com longa presença na política local, tiveram bom desempenho.

Mas — ainda que não tenham sido um ensaio geral —, por trás dessa continuidade, as eleições revelam dinâmicas importantes que podem impactar a eleição presidencial de 2027.

A principal leitura desses resultados pode ser dupla: um deslocamento do eleitorado para a direita e uma consolidação territorial da extrema direita, enquanto a esquerda permanece fragmentada.

Primeiro, observa-se uma crescente permeabilidade entre os eleitores dos Republicanos (LR) e do Reagrupamento Nacional (RN), de extrema direita. Em segundo lugar, o centro — representado por Renaissance, de Emmanuel Macron, Horizons, de Édouard Philippe, e o Modem, de François Bayrou — também tem se deslocado para a direita.

No segundo turno, quando restam apenas os candidatos mais competitivos, eleitores do RN não hesitaram em migrar para candidatos do LR, enquanto outros fizeram o movimento inverso, apoiando candidatos mais à direita quando estes pareciam mais capazes de derrotar a esquerda. Em Marselha, o candidato do RN, Franck Allisio, conquistou parte do eleitorado tradicional da direita, mesmo sem vencer. Em Nice, Éric Ciotti deixou o LR, alinhou-se ao RN e venceu — demonstrando que uma convergência entre direita e extrema direita pode ser eleitoralmente viável. Embora alianças formais ainda causem desconforto em setores da liderança do LR, seus eleitores parecem menos resistentes.

Apesar de não vencer nas grandes cidades que almejava, como Marselha, Toulon ou Nîmes, o RN não pode mais ser visto como limitado por um “teto eleitoral”. O partido ampliou consistentemente sua base: obteve cerca de 2,5 milhões de votos, conquistou cerca de 60 comunas com mais de 3.500 habitantes e passou a contar com mais de 3.000 vereadores — um claro sinal de consolidação territorial.

Com Macron impedido constitucionalmente de disputar um terceiro mandato, a aliança de centro (Renaissance, Horizons e Modem) teve dificuldades para impor uma narrativa política. Além disso, o próprio presidente evitou a emergência de um sucessor claro, criando um vazio político. Outro problema é que o centro também parece estar se deslocando para a direita. Entre as vitórias locais, poucas são diretamente atribuídas ao Renaissance, enquanto o Horizons de Édouard Philippe parece mais bem posicionado nacionalmente. Sua reeleição como prefeito de Le Havre, com 47,7% dos votos, foi mais do que uma questão local — indicou que o pós-macronismo tende a assumir um perfil de centro-direita.

Uma pesquisa divulgada após as eleições mostra o RN à frente nas intenções de voto para 2027, e indica que o único candidato capaz de derrotá-lo no segundo turno viria da direita. Embora o levantamento tenha sido encomendado por aliados de Philippe, foi conduzido pelo instituto Elabe, considerado confiável.

No campo da esquerda, nenhum nome se aproxima desse desempenho. Pesquisas colocam o partido França Insubmissa (LFI), de Jean-Luc Mélenchon, com cerca de 10% a 11% no primeiro turno. Embora Mélenchon costume crescer durante as campanhas, o cenário atual sugere dificuldades. Sua presença em um eventual segundo turno poderia, inclusive, favorecer uma vitória do RN.

Esse é o segundo ponto central: o cenário de uma França inclinada à direita deixa a esquerda em dificuldades. Embora o Partido Socialista mantenha força local, sua imagem nacional está prejudicada pela relação instável com o LFI.

Socialistas e Verdes se aliaram ao LFI para barrar o RN nas eleições legislativas de 2024, mas o estilo confrontacional do LFI, polêmicas recentes e episódios de violência prejudicaram sua imagem junto ao eleitorado. Ainda assim, o partido consegue transformar ganhos limitados em grande visibilidade política. Embora seja menor que os socialistas no plano local, age como se fosse hegemônico, pressionando por alianças que acabam confundindo os eleitores e mantendo a esquerda dividida a um ano de uma eleição crucial.

A eleição de 2027 será presidencial — personalizada e marcada por lideranças. Enquanto as eleições municipais testam a implantação territorial, a presidencial testa a capacidade de encarnar um projeto político.

Nesse contexto, figuras como Édouard Philippe consolidaram sua base local, Éric Ciotti demonstrou a viabilidade da convergência entre direita e extrema direita, e Jean-Luc Mélenchon manteve alta visibilidade política. Mas essa exposição também os associa às ambiguidades do momento atual. Já aqueles que permaneceram mais distantes — como Gabriel Attal ou François Hollande — podem descobrir que a discrição foi uma estratégia mais vantajosa.

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