Pular para o conteúdo
O papel do gênero em comunidades on-line da extrema direita e islâmicas
Extrema Direita

O papel do gênero em comunidades on-line da extrema direita e islâmicas

A literatura sobre trajetórias de radicalização mediadas pelo gênero também demonstra que o gênero pode influenciar os motivos pelos quais grupos extremistas se tornam atraentes

Por

Via ICCT

Tempo de leitura: 13 minutos.

Pesquisas recentes têm demonstrado cada vez mais que o gênero desempenha um papel importante nos movimentos extremistas. Uma área desses estudos examina as masculinidades, ou seja, diferentes ideias sobre o que confere aos homens status, autoridade ou respeito, e como grupos extremistas mobilizam esses ideais. Essas pesquisas também mostram que as masculinidades não são desempenhadas apenas por homens, já que mulheres também podem adotar ou reproduzir características associadas ao status masculino dentro de movimentos extremistas. Além disso, diversos estudos contestaram a ideia de que as mulheres são apenas apoiadoras passivas, examinando seus papéis como recrutadoras, propagandistas, organizadoras e agentes ideológicas.

A literatura sobre trajetórias de radicalização mediadas pelo gênero também demonstra que o gênero pode influenciar os motivos pelos quais grupos extremistas se tornam atraentes. Para os homens, isso pode envolver promessas de respeito e reputação, a capacidade de prover o próprio sustento e restaurar a autoestima quando as formas convencionais de reconhecimento parecem bloqueadas. Para as mulheres, pode envolver promessas de irmandade, propósito moral, segurança, casamento ou papéis claramente definidos dentro de uma comunidade. Em outras palavras, o gênero não influencia apenas quem ingressa em grupos extremistas. Ele também molda a forma como pertencimento e propósito são oferecidos a diferentes públicos.

Outro conjunto de pesquisas examina como a propaganda extremista relaciona masculinidade, feminilidade, família e moralidade a narrativas de crise, culpa, decadência moral e restauração do grupo considerado legítimo. Com base nesse trabalho, esta análise concentra-se em uma função específica das narrativas de gênero: como elas ajudam comunidades extremistas a reforçar o sentimento de pertencimento e a ordem interna. Em vez de examinar o gênero principalmente como uma ferramenta de recrutamento ou tema de propaganda, a análise investiga como narrativas sobre papéis e expectativas de gênero ajudam a definir comportamentos aceitáveis, reforçar fronteiras grupais e transformar ansiedades amplas sobre mudanças sociais em expectativas concretas sobre comportamento, hierarquia e pertencimento.

Este artigo baseia-se na análise de narrativas de gênero em canais de Telegram da extrema direita e de grupos islamistas. Foram identificados dois padrões recorrentes. Em alguns casos, mudanças nas normas de gênero são apresentadas como causadoras da desordem social, com o feminismo, a mistura entre gêneros, o enfraquecimento da autoridade masculina ou a “desobediência” feminina sendo apontados como fatores de um declínio mais amplo. Em outros casos, o ponto de partida é uma crise mais geral — civilizacional, moral, demográfica ou espiritual — que depois é traduzida em prescrições de gênero sobre como homens e mulheres devem se comportar. Em ambos os casos, as narrativas de gênero são utilizadas para tornar as crises sociais mais compreensíveis e vincular o pertencimento à adesão às soluções prescritas, seja por meio da adoção da “verdadeira” masculinidade, da rejeição ao feminismo ou, em alguns casos, do afastamento completo dos relacionamentos amorosos.

A análise foi baseada em 114 publicações de administradores, selecionadas sistematicamente para estudo aprofundado a partir de um conjunto maior de dados coletados entre setembro de 2024 e maio de 2025 em seis canais públicos do Telegram ligados a ambientes de extrema direita e islamistas. O Telegram foi escolhido porque é utilizado por ambos os meios e permite que materiais ideológicos permaneçam acessíveis por mais tempo do que em plataformas mais moderadas.

Padrão 1: Mudanças nas normas de gênero como fonte da desordem

Em todos os canais analisados, uma narrativa recorrente apresenta as mudanças nas normas de gênero não apenas como sintomas de uma deterioração social e moral mais ampla, mas também como suas causas. Feminismo, autonomia feminina, interação entre homens e mulheres e enfraquecimento da autoridade masculina são retratados como forças que minaram a autoridade familiar, enfraqueceram a disciplina coletiva e desestabilizaram a comunidade.

Nos canais islamistas, um padrão recorrente é a apresentação do feminismo como uma força contaminadora que teria penetrado nas sociedades muçulmanas disfarçada de progresso. Em um caso salafista, por exemplo, uma publicação argumenta que o feminismo já não é apenas uma ideia importada, mas algo normalizado na vida cotidiana dos muçulmanos. A postagem relaciona essa suposta corrupção ao trabalho feminino fora de casa, à priorização da educação em detrimento do casamento, à resistência ao casamento precoce e à incapacidade dos pais de impor normas de modéstia. A tese central não é apenas que o feminismo estaria errado, mas que uma nova ordem de gênero teria alterado silenciosamente as expectativas morais e enfraquecido a integridade da comunidade.

Um padrão paralelo aparece nos canais de extrema direita analisados, incluindo espaços associados às chamadas Trad Wives (“esposas tradicionais”) e ao movimento MGTOW (Men Going Their Own Way).

Embora essas comunidades frequentemente sirvam como fóruns de discussão sobre gênero, família e relações entre homens e mulheres, o material analisado mostra que elas também funcionam como parte de um ecossistema mais amplo da extrema direita. O canal Trad Wives idealiza um retorno aos papéis patriarcais tradicionais, centrados na domesticidade feminina, submissão e maternidade, associando essa visão a ideias nacionalistas e civilizacionais. Já os espaços MGTOW são marcados por ressentimentos masculinos e pela rejeição de relacionamentos com mulheres, mas os conteúdos analisados também se sobrepõem a narrativas de extrema direita, incluindo discursos etnonacionalistas sobre sobrevivência demográfica, teorias da “Grande Substituição”, retórica anti-imigração e teorias conspiratórias antissemitas.

No canal Trad Wives, o feminismo e a rejeição da feminilidade tradicional são apresentados não apenas como mudanças culturais, mas como motores de uma decadência social mais ampla. A vida moderna é associada ao crime, à desintegração familiar, à sujeira e à desorientação moral. Em contraste, masculinidade e feminilidade tradicionais são retratadas como fontes de ordem, continuidade e dignidade. A mensagem subjacente é que o declínio social pode ser identificado por meio das mudanças visíveis nos papéis de gênero e revertido por sua restauração.

Uma versão semelhante, mas distinta, aparece nos conteúdos MGTOW. Também ali o feminismo é retratado como fonte de desordem e infelicidade, mas a solução proposta é diferente. Em vez de restaurar a ordem familiar por meio dos papéis domésticos tradicionais, essas narrativas enfatizam o afastamento, a autoproteção e a distância em relação às mulheres. Ainda assim, a função narrativa permanece semelhante: o gênero continua servindo para identificar o que deu errado, explicar por que a comunidade estaria ameaçada e prescrever os comportamentos necessários para sobreviver em um ambiente considerado “feminizado” e hostil.

Apesar das diferenças entre esses casos, a função da narrativa é comparável. Ao tratar uma ordem de gênero supostamente perturbada como explicação para um declínio mais amplo, esses canais transformam mudanças sociais complexas em uma narrativa moral simplificada. Isso permite identificar protetores e ameaças. Aqueles que defendem a “ordem correta” de gênero são posicionados como membros legítimos do grupo, enquanto aqueles que aceitam ou representam sua erosão são vistos como agentes do declínio.

Padrão 2: Crises amplas traduzidas em papéis de gênero

O segundo padrão opera na direção oposta. Aqui, os canais não começam apresentando mudanças nas normas de gênero como o problema principal. Em vez disso, descrevem primeiro uma crise mais ampla — civilizacional, espiritual, moral ou demográfica — para depois transformá-la em expectativas de gênero sobre como homens e mulheres devem se comportar.

Em um caso da extrema direita cristã, publicações de administradores descrevem repetidamente a sociedade contemporânea como moralmente invertida e espiritualmente corrompida antes de apresentar a hierarquia bíblica como resposta corretiva. Uma postagem, por exemplo, recorre à Epístola aos Efésios, capítulo 5, para reafirmar a liderança masculina e a submissão feminina na família. A crise é inicialmente ampla, mas a solução proposta é de gênero, pois a restauração da ordem social é associada ao restabelecimento da autoridade masculina no lar.

Um mecanismo comparável aparece em um canal neonazista, embora o conteúdo ideológico seja muito diferente. Nesse ambiente, o próprio cristianismo é retratado como parte do problema. As publicações argumentam que a moral cristã produz fraqueza ao promover humildade, compaixão e moderação, reprimindo os supostos instintos naturais dos homens. A crise é apresentada como um declínio civilizacional causado por um sistema moral que teria enfraquecido o grupo racial considerado legítimo. Mais uma vez, a resposta é de gênero: os homens são incentivados a recuperar uma masculinidade mais dura e “autêntica”, definida pela força, dominação e lealdade ao coletivo racial.

Esse padrão também aparece nos canais islamistas. Em um canal salafista destinado exclusivamente a mulheres, por exemplo, a situação da ummah (comunidade muçulmana) é frequentemente apresentada em termos de decadência moral, desvio religioso e necessidade de correção por meio de um retorno ao Alcorão e à Sunnah. Ao mesmo tempo, as publicações retratam a mulher muçulmana como peça central na construção de uma sociedade virtuosa. Uma postagem descreve as mulheres como as “primeiras educadoras” e enfatiza suas obrigações como esposas, irmãs e filhas. Dessa forma, preocupações mais amplas com a desordem comunitária são conectadas a expectativas específicas sobre os papéis femininos na família e na comunidade.

Embora o conteúdo desses canais seja frequentemente contraditório, sua estrutura narrativa fundamental é semelhante. Em todos os casos, o gênero é utilizado para oferecer clareza e regras inequívocas de pertencimento, respondendo à pergunta sobre como os membros devem viver em tempos de crise.

Essa conclusão reforça pesquisas mais amplas que demonstram que grupos extremistas podem atrair pessoas ao oferecer fronteiras claramente definidas, explicações simples para problemas complexos e um forte sentimento de pertencimento em períodos marcados pela incerteza.

Por que o gênero funciona tão bem nas narrativas radicais

O gênero é especialmente eficaz nos discursos radicais porque conecta preocupações políticas e sociais mais amplas a ideias cotidianas sobre família, sexualidade, autoridade e os papéis de homens e mulheres. Mudanças sociais em larga escala são enquadradas por meio de situações familiares, como mulheres trabalhando fora de casa, espaços educacionais mistos, maternidade solo, homens considerados fracos, filhas “desobedientes” ou pais perdendo autoridade dentro do lar. Dessa forma, narrativas amplas de crise são traduzidas em exemplos concretos da vida cotidiana por meio da família, das roupas e dos comportamentos.

Além disso, o gênero torna a solução proposta mais fácil de definir. Uma vez que a crise é apresentada em termos de gênero, a resposta pode ser formulada por meio de regras comportamentais simples. Os homens devem liderar. As mulheres devem cuidar. A interação entre os sexos deve ser reduzida. A família deve ser restaurada. Mesmo quando os conteúdos ideológicos diferem, as narrativas de gênero ancoram a ordem social em papéis e relações do cotidiano. Elas reduzem a ambiguidade ao estabelecer expectativas claras sobre como os membros devem se comportar.

Por fim, o gênero ajuda esses grupos a traçar a linha entre os que pertencem e os que não pertencem à comunidade. Esses canais não apenas identificam inimigos, mas também dizem aos seguidores como deve ser um “bom membro” do grupo. Defender a “verdadeira” masculinidade ou feminilidade, a maternidade ou a paternidade, a modéstia ou a hierarquia familiar é apresentado como parte da defesa da própria coletividade. Assim, o gênero torna-se uma forma de determinar quem pertence e quem não pertence ao grupo. Ele ajuda a definir não apenas quem ameaça a comunidade, mas também que tipo de pessoa ela valoriza e recompensa.

Ao oferecer papéis claros e uma visão moralmente ordenada do mundo, essas narrativas podem ajudar a transformar as complexidades da vida em algo que parece mais compreensível e administrável. Isso também ajuda a explicar por que discursos baseados em gênero aparecem em ambientes ideológicos muito diferentes entre si. O que os canais da extrema direita e os canais islamistas compartilham não é a mesma doutrina ou visão de mundo, mas uma narrativa igualmente simplificadora para lidar com mudanças sociais, legitimar hierarquias e fortalecer o sentimento de pertencimento.

Por essa razão, o gênero não deve ser tratado como um tema periférico de “guerra cultural” nos meios extremistas. Ele está relacionado a elementos centrais do apelo desses grupos, incluindo sua capacidade de dar sentido à complexidade, unir membros em torno de um sentimento compartilhado de pertencimento, definir inimigos claramente identificáveis e redefinir a ordem social de forma mais ampla. O gênero é uma ferramenta particularmente poderosa para realizar tudo isso simultaneamente, de maneiras que parecem intuitivas e familiares.

Implicações para pesquisa e prática

Três implicações decorrem desta análise.

Primeiro

Analistas e profissionais da área devem prestar atenção não apenas à misoginia explícita ou à retórica antifeminista, mas também às formas mais sutis de ordenamento social baseadas em gênero. Narrativas sobre hierarquia familiar, modéstia, maternidade, autoridade masculina, comportamento feminino e a saúde moral do lar podem ajudar a normalizar hierarquias sociais rígidas, definir quem é visto como um membro exemplar ou desviante da comunidade e apresentar a exclusão como uma necessidade moral, mesmo quando não são abertamente violentas.

Segundo

Os esforços de prevenção e combate à radicalização devem levar essas narrativas a sério não apenas como expressões ideológicas, mas também como fontes de apelo emocional e social. Mensagens sobre ordem familiar, respeitabilidade, liderança masculina, virtude feminina e decadência moral podem conferir aos espaços extremistas uma sensação de estrutura, propósito e clareza moral. Portanto, respostas que se concentrem apenas em discursos de ódio ou em apelos explícitos à violência podem deixar de compreender parte do que torna esses ambientes atraentes e persuasivos.

Terceiro

Prestar atenção ao gênero pode ajudar analistas a identificar padrões compartilhados entre ambientes extremistas ideologicamente distintos. Os canais da extrema direita e os canais islamistas não compartilham a mesma doutrina, mas utilizam o gênero de maneiras semelhantes para interpretar mudanças sociais, justificar hierarquias e definir pertencimento. Isso faz do gênero uma lente útil para análises comparativas, especialmente porque os diferentes meios extremistas costumam ser estudados isoladamente uns dos outros.

Você também pode se interessar por