A guinada à extrema direita no Japão é real, mas não da forma que você imagina
O Sanseito é um partido de extrema direita japonês que tem crescido no parlamento do país
A maioria absoluta conquistada pelo Partido Liberal Democrata (LDP) na Câmara dos Representantes sob a liderança da primeira-ministra Takaichi Sanae, juntamente com as 15 cadeiras obtidas pelo partido anti-imigração Sanseitō, representa mais um passo na ascensão da extrema direita no Japão. As posições e políticas defendidas por ambos deveriam tornar essa avaliação pouco controversa. Ainda assim, diversos artigos de destaque passaram a classificar essas preocupações como alarmistas e exageradas.
Aponta-se, por exemplo, que Takaichi evitou temas da direita radical durante a campanha eleitoral e que o manifesto do partido não continha o tipo de retórica populista normalmente associada a uma virada anti-imigração. O sucesso eleitoral de Takaichi não foi um referendo sobre suas posições políticas da mesma forma que ocorreu em outros avanços da extrema direita ao redor do mundo. É justo dizer, portanto, que a maioria dos eleitores não compartilha necessariamente convicções de extrema direita, pelo menos não de maneira explícita.
Ainda assim, “extrema direita” continua sendo uma descrição inteiramente apropriada tanto para a própria Takaichi quanto para as mudanças mais amplas em curso na paisagem política japonesa. A confusão talvez esteja relacionada a diferentes entendimentos sobre a terminologia, bem como sobre a forma de medir a ascensão de uma ideologia. O significado do termo tornou-se particularmente nebuloso porque o Japão conseguiu, durante muito tempo, manter partidos ideologicamente de extrema direita fora da Dieta (o parlamento japonês). Agora, aqueles considerados “alarmistas” se veem tentando denunciar ameaças evidentes à democracia liberal usando uma linguagem que poucos consideram convincente.
Em linhas gerais, a extrema direita é uma ampla coalizão de atores que se opõem à democracia liberal. Essa definição pode parecer surpreendente, considerando que partidos de extrema direita frequentemente chegam ao poder por meio de eleições democráticas. De fato, a extrema direita não é necessariamente contrária à democracia em si, mas seus integrantes compartilham uma hostilidade aos princípios do liberalismo, especialmente aos direitos das minorias, ao Estado de Direito e à separação dos poderes. Na medida em que a democracia se baseia nesses princípios liberais, a ascensão de uma extrema direita eleita democraticamente ainda conduz a uma erosão da própria democracia. Afinal, uma democracia que exclui as vozes das minorias dificilmente pode ser considerada uma democracia plena.
Já escrevi anteriormente sobre o Sanseitō, um partido que atribui o movimento pela igualdade de gênero à influência perniciosa do chamado “marxismo cultural”, promove uma visão profundamente nativista do Japão e defende interpretações revisionistas da história que apresentam o país como um salvador, e não como um agressor. Todas essas posições são explicitamente de extrema direita, na medida em que são incompatíveis com os fundamentos da democracia liberal.
O próprio Sanseitō não parece contestar essa caracterização. O partido afirma abertamente que considera os valores liberais fundamentalmente incompatíveis com a preservação da cultura japonesa. Em seu livro de 2025 sobre sua proposta de Constituição, o Sanseitō argumenta que o conceito de direitos individuais não pode ser conciliado com a preservação da cultura japonesa e do meio ambiente natural.
De modo geral, essa é uma posição compartilhada pelos apoiadores mais vocais de Takaichi dentro do movimento ultraconservador. Ela também se reflete na proposta de reforma constitucional apresentada pelo LDP em 2012, amplamente criticada por enfraquecer garantias de direitos humanos e liberdades individuais. A própria Takaichi já declarou seu apoio a essa proposta, e seus comentários recentes sobre direitos individuais e bem-estar público sugerem que ela pode servir de modelo para futuras tentativas de reforma constitucional.
A necessidade de identificar e denunciar publicamente a extrema direita decorre do fato de que sua ideologia representa, por definição, uma ameaça aos valores e instituições que sustentam a democracia. A experiência histórica demonstrou que tais ameaças precisam ser contidas, às vezes por meios que alguns consideram pouco democráticos. Em vários países europeus, por exemplo, é comum a existência de acordos entre partidos para não formar coalizões com a extrema direita por uma questão de princípio. Na região francófona da Valônia, na Bélgica, partidos de extrema direita sequer são convidados para entrevistas na mídia. Alguns estudiosos argumentam que foi justamente essa política que manteve a extrema direita como uma força política marginal na região.
A necessidade desses mecanismos decorre do fato de que a exclusão da extrema direita no período pós-guerra cria um incentivo eleitoral inerente para ocupar esse espaço político. Manter essas ideias fora da esfera pública exige, portanto, a intervenção de instituições como a mídia. Trata-se de uma atividade profundamente democrática: acadêmicos, jornalistas e cidadãos podem decidir coletivamente desplatformar e excluir visões políticas que possuem um histórico comprovado de contribuir para a erosão democrática.
Até agora, a mídia japonesa fracassou em coordenar uma resposta coerente, embora muitos jornalistas compartilhem dessas preocupações. Em grande parte, as emissoras seguem princípios de imparcialidade que dificultam análises mais incisivas — razão pela qual o Sanseitō raramente é descrito explicitamente como um partido de extrema direita. O resultado é que o partido continua recebendo espaço nos meios de comunicação tradicionais para divulgar suas ideias. Apesar do declínio da mídia convencional como principal fonte de informação, ela ainda desempenha um papel fundamental na formação do debate público.
Em outras palavras, a preocupação não deveria se concentrar apenas no número de cadeiras conquistadas pelo Sanseitō, mas sim na forma como sua crescente normalização nos meios de comunicação está liberando e legitimando ideias que até então permaneciam contidas. Ideias que, por exemplo, a própria Takaichi já declarou compartilhar. E isso, independentemente da perspectiva adotada, constitui um sucesso significativo para os valores e projetos políticos da extrema direita.
