“Impossível de desacreditar”: o teatro de extrema direita de Grzegorz Braun, da Polônia
Em dezembro de 2023, enquanto o parlamento polonês, o Sejm, celebrava a festa judaica de Hanucá, Grzegorz Braun entrou no plenário e apagou as velas da menorá com um extintor de incêndio.
Na época, Braun era deputado polonês, e o episódio estava em sintonia com sua imagem de provocador extremista. Ao longo da última década, Braun — conhecido por usar um tapa-olho — negou a existência das câmaras de gás nazistas durante a Segunda Guerra Mundial, incendiou a bandeira da União Europeia, agrediu fisicamente uma ginecologista defensora do direito ao aborto e elogiou abertamente Vladimir Putin poucas semanas após o início da invasão russa em grande escala da Ucrânia, em 2022.
Para a maioria dos políticos, envolver-se repetidamente em escândalos desse tipo equivaleria a um suicídio político.
Para Braun, hoje com 59 anos, isso se tornou a base de sua marca política.
Hoje, porém, a ideia de que ele pertence apenas às franjas da política já não se sustenta. Na eleição presidencial do ano passado, Braun ficou em quarto lugar, obtendo mais de 1,2 milhão de votos. Longe de estar à margem, seu partido, a Confederação da Coroa Polonesa, aparece atualmente com quase 8% das intenções de voto para as eleições parlamentares de 2027.
“Braun é o tipo de político que é praticamente impossível desacreditar”, afirmou Dominika Sitnicka, jornalista política do portal OKO.press. “Toda arma usada contra ele apenas o fortalece entre as pessoas que ele tenta alcançar.”
Braun não respondeu ao pedido de entrevista para esta reportagem.
O Farage da Polônia?
Grzegorz Braun, eurodeputado que representa a Confederação, partido polonês de extrema direita, e candidato à eleição presidencial de 2025, encontra-se com moradores de Varsóvia, em 16 de maio de 2025.
Nascido em uma família de intelectuais, Braun iniciou sua vida pública como cineasta, produzindo mais de 20 longas-metragens. Quando ingressou na política, passou anos nas margens do nacionalismo. Monarquista e crítico da democracia, não acredita na teoria da evolução, se opõe ao aborto e à fertilização in vitro, defende a pena de morte e chegou a afirmar que um bunker secreto do governo israelense estaria sendo construído sob um parque aquático nos arredores de Varsóvia.
Sua ascensão começou em 2019, quando diversos pequenos movimentos poloneses de extrema direita se uniram sob a bandeira do partido Confederação, criando uma plataforma política capaz de levar ao Parlamento figuras que até então eram marginais.
“Não acho que ele teria conseguido construir um movimento como esse sozinho”, disse Sitnicka à BIRN.
“Em 2015, a maioria das pessoas o via apenas como uma curiosidade. Mas, em 2019, ele já estava no Parlamento, com um conjunto completamente diferente de oportunidades.”
Uma vez no Sejm, Braun e seus aliados conquistaram algo que jamais haviam tido: legitimidade institucional. Os gabinetes parlamentares permitiram organizar eventos, formar grupos parlamentares e levar teóricos da conspiração, ativistas antivacina e intelectuais extremistas para o centro da política polonesa.
Outro ponto de virada importante ocorreu quando Braun rompeu com a Confederação e concorreu de forma independente à Presidência em 2025.
“Ele se rebelou, assumiu o risco e provou que conseguia caminhar sozinho”, afirmou Sitnicka.
Segundo ela, o quarto lugar conquistado tornou realista a possibilidade de disputar uma vaga no Parlamento em 2027 por conta própria.
O cientista político Mikołaj Cześnik, da Universidade SWPS de Varsóvia, considera que a ascensão de Braun faz parte de um fenômeno europeu muito mais amplo.
Ela reflete um continente marcado pela insegurança econômica, pelo envelhecimento da população, pela migração e por um ambiente informacional que bombardeia os eleitores com estímulos constantes, deixando pouco espaço para reflexão. Nesse contexto, argumenta, alguém que apresenta uma mensagem simples e emocionalmente forte pode prosperar.
“É um padrão semelhante ao que vimos com Nigel Farage”, afirmou Cześnik, referindo-se ao principal líder do Brexit e chefe do partido Reform UK, que ameaça transformar profundamente a política britânica.
“Há vinte anos, Farage também estava completamente à margem da política”, acrescentou. “Se observarmos sua trajetória, ou a do Reagrupamento Nacional na França, veremos que políticos extremistas, nas circunstâncias adequadas, podem chegar muito mais longe do que se imaginava.”
Extremista até para a extrema direita
Em 2024, Braun foi eleito para o Parlamento Europeu, onde sua chegada provocou perplexidade.
O eurodeputado polonês Krzysztof Śmiszek lembra que colegas de vários países lhe faziam repetidamente a mesma pergunta:
“Quem foi que vocês mandaram da Polônia?”
Dois anos depois, a curiosidade deu lugar à indiferença.
“Assim que ele começa a falar, as pessoas viram a cabeça ou simplesmente saem da sala”, contou Śmiszek, integrante do grupo Socialistas e Democratas. Segundo ele, muitos “já não acham que ele mereça sequer esse esforço”.
Em Bruxelas, Braun tornou-se conhecido por duas razões.
A primeira, segundo Śmiszek — que integra a Comissão de Assuntos Jurídicos do Parlamento Europeu — é a frequência com que promotores poloneses pedem a suspensão de sua imunidade parlamentar.
Respeitando as regras do Parlamento, Śmiszek recusou-se a comentar os detalhes desses processos, mas afirmou que eles envolvem acusações que vão de declarações antissemitas e negacionismo do Holocausto a discursos de ódio contra pessoas LGBTQIA+ e outras ações provocativas realizadas na Polônia.
“São atitudes que nem mesmo a extrema direita europeia considera parte do repertório normal da atividade política.”
Até agora, Braun já enfrentou seis pedidos de suspensão de imunidade e, segundo relatos, tentou atrasar os processos deixando de comparecer às audiências judiciais.
“A segunda coisa pela qual Braun é conhecido é por interromper reuniões das comissões parlamentares”, disse Śmiszek, referindo-se à Comissão de Relações Exteriores, da qual Braun faz parte.
Segundo ele, suas intervenções “estão completamente fora dos padrões democráticos e diplomáticos”.
De acordo com Śmiszek, até mesmo os dois principais grupos de extrema direita do Parlamento Europeu — Patriotas pela Europa (PfE) e Europa das Nações Soberanas (ESN) — decidiram não aceitar Braun em suas fileiras, informação corroborada por reportagens da época. Nenhum dos grupos comentou publicamente a decisão, mas Braun foi o único dos seis eurodeputados da Confederação que permaneceu sem integrar qualquer um deles.
“Imagine: partidos conhecidos por algumas das posições mais radicais sobre direitos humanos, imigração, pessoas LGBT e União Europeia ainda assim decidiram não convidá-lo para cooperar.”
Segundo Śmiszek, Braun simplesmente produz polêmicas para alimentar seu público na Polônia.
Uma questão de personalidade
O apelo de Braun é difícil de explicar apenas por suas posições políticas. Krzysztof Rudziński, administrador de um fórum on-line de apoiadores de Braun, volta repetidamente à personalidade do político. Ele o descreve como “um político com firmeza moral”, que não “apunhala seus aliados pelas costas” e permanece fiel a seus princípios em vez de seguir as conveniências da política. Segundo Rudziński, Braun está disposto a defender aquilo que considera verdadeiro, mesmo quando isso provoca controvérsia.
“Acompanho Braun há muito tempo”, disse Rudziński. “Ele certamente é uma pessoa corajosa. O fato de ainda não ter cedido diante de tanta pressão é algo que realmente admiro. Ele deve ter pele de rinoceronte.”
Para pessoas como Rudziński, Braun representa uma exceção, um contraste absoluto tanto com a governista Coalizão Cívica (KO) quanto com o partido de oposição Lei e Justiça (PiS), que ele acusa de corrupção e de servir a interesses estrangeiros.
Segundo Dominika Sitnicka, Braun cultivou deliberadamente a imagem de uma espécie de sábio, alguém que atua à margem da ordem política que seus eleitores associam à televisão e à grande imprensa. Ele usa um tapa-olho — consequência de um descolamento de retina — e fala um polonês altamente estilizado e arcaico, repleto de referências históricas e religiosas.
“Ele é uma espécie de mágico”, afirmou Sitnicka. “As pessoas são conquistadas quase imediatamente pela maneira como ele fala.”
